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XI FESTA DO CINEMA FRANCÊS

O Savoir Faire francês fez a festa em Lisboa

Este ano a Festa do Cinema Francês proporcionou-nos belíssimos momentos, daqueles que enquanto vemos ansiamos por mais porque de qualidade nunca se fica saciado.

“Le Concert” de Radu Mihaileanu, filme de abertura da Festa do Cinema Francês foi o primeiro a ser visto e o eleito com o Prémio do Público. Nesta longa-metragem que tem como protagonistas o actor russo Alexeï Guskov (Andreï Filipov), que esteve presente no festival e Mélanie Laurent (Anne Marie Jacquet), talentosa actriz francesa da nova geração, conta-nos a história de um grupo de excluídos – russos, ciganos e judeus que faziam parte da antiga orquestra de Moscovo, a célebre orquestra de Bolshoi.

Após trinta anos voltam a reunir-se para um grande concerto, o concerto das suas vidas. Emoções, ressentimentos contidos durante três décadas serão finalmente libertados e será a realização de um sonho, actuar no palco do prestigiado “Théâtre du Chatelet” em Paris e fazer novamente sonhar o público com a sua música e brindá-los com o seu talento há muito sufocado. Este filme aborda a mistura de culturas, o choque do leste com o ocidente mas sobretudo o realizador romeno aborda temas difíceis no meio de risos, lágrimas, momentos que são tristes e de repente se tornam hilariantes de uma forma espontânea e natural, traz-nos uma história intensa com ritmo, cor e vida. È de destacar a interpretação do actor Alexeï Guskov que dá á sua personagem, o maestro Andreï Filipov, a paixão que ela pede sem nunca extravasá-la.

Em “La Tête En Friche” de Jean Becker, Gérard Depardieu veste o papel de Germain, um homem simples, puro, com uma alma cheia de ternura (se pensarmos na estatura física do actor traz um certo desafio á sua interpretação). Esta história retrata-nos uma relação invulgar surgida pelo acaso entre Germain e Margueritte (Giséle Casadesus). O prazer da leitura vai uni-los e mostrar que nem sempre o amor aparece como imaginámos. Mais uma vez Gérard Depardieu delicia-nos com uma excelente performance. É um filme para fazer bem á alma.

A longa-metragem de François Ozon, “Le Refuge” é despoletada por uma tragédia. A morte por overdose de Louis (Melvil Poupaud) irá condicionar a vida de outras personagens, principalmente a da sua namorada Mousse (Isabelle Carré), também toxicodependente como ele que descobre que está grávida. Ela é um ser humano perdido que vai deixar o refúgio da droga para encontrar um outro refúgio, perto do oceano e da natureza onde vai sofrer alguns golpes e onde vai conseguir reconciliar-se consigo mesma. A melancolia está presente em todo o filme mesmo nas cenas de aparente alegria no registo necessário para dar corpo às emoções das personagens. As cenas de Melvil Poupaud, embora breves e com poucas falas são muito intensas e transmitem a forte carga emotiva que a sua personagem pede, o actor demonstra uma grande capacidade de expressão manifestada na sua postura corporal e no seu olhar.

“Foi a primeira vez que desempenhei um junkie, conheci essa realidade quando passei um Verão com um amigo músico toxicodependente e cheguei a assistir uma das vezes em que ele injectou-se com heroína e usou como garrote a corda da sua guitarra, usei essa experiência em grande parte para compor o Louis”, disse Melvil Poupaud em resposta há RDB sobre a composição da sua personagem.

“Micmacs Á Tire-Larigot” de Jean-Pierre Jeunet, realizador do estrondoso sucesso “Le Fabuleux Destin D’Amélie Poulain” é uma comédia hilariante sobre Bazil (Danny Boon) e um grupo de sucateiros excêntricos que juntos vão ajudá-lo a vingar-se dos criminosos, traficantes de armas que causaram o seu infortúnio. Jean Pierre-Jeunet como já lhe é característico cria um universo habitado por figuras peculiares que vivem no seu próprio mundo á margem da sociedade. Revela-nos uma imaginação complexa, bem construída até aos mais ínfimos detalhes. A estética visual do filme remete-nos para o fantástico de uma forma bem conseguida que torna as suas personagens credíveis, apesar de serem em grande parte pautadas pela fantasia.

“Le Lieu Du Crime” de André Techiné, realizador homenageado nesta edição da Festa do Cinema Francês. O filme passa-se nos anos 80, conta-nos a história de Lili, interpretada por uma jovem Catherine Deneuve que vive uma personagem reprimida durante toda a vida pela sua mãe, com um filho problemático Thomas (Nicolas Giraudi). Ambos vão-se envolver de formas diferentes com um jovem criminoso foragido da prisão, Martin (Wadeck Stanczak). Este encontro vai revolucionar a vida de Lili e do seu filho, ela vai finalmente libertar-se e seguir uma paixão que a vai levar por caminhos obscuros. André Techiné retrata-nos a irracionalidade do amor de uma forma crua e por vezes perversa. As tramas que constrói á volta de Lili e Martin atribuem às suas personagens uma maior densidade dramática.

O documentário “Benda Bilili!” de Florent de la Tullaye e Renaud Barret mostra-nos o percurso dos Staff Benda Bilili, um grupo de músicos paraplégicos do gueto de Kinshasa no Congo, que vagueiam pela cidade em cadeiras de rodas personalizadas à Mad Max. Ao assistirmos a este filme pode parecer um cliché mas realmente damo-nos conta de como somos privilegiados e nem nos apercebemos. Este grupo de músicos, mesmo com as suas limitações físicas e sociais, tem um optimismo inabalável e lutam todos os dias pelo seu sonho, o de cantar na Europa e em todo mundo. As suas melodias e as suas letras fazem-nos acreditar que nada é impossível.

– Uma salva de palmas para os Benda Bilili! É um documentário que nos dá a conhecer a riqueza humana na sua verdadeira essência. É uma lição de vida para quem quer aprender a viver.



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