Yeah Yeah Yeahs | “Mosquito”

Yeah Yeah Yeahs | “Mosquito”

Deuses vingativos e impiedosos

Cinco anos de interregno são muitas vezes suficientes para a mais promissora das bandas perder o rumo e, nos dias impiedosos de hoje em que a presença constante é o único sinónimo de sucesso, torna-se cada vez mais difícil um verdadeiro regresso sem pagamento de dividendos.

Nos últimos 6 meses assistimos a duas das mais inspiradas e singulares bandas do rock alternativo actual, ambas oriundas de Nova Iorque, batalhar nesta perversa dança de escolha do momento certo para regressar, em oposição a criar algo mais instantâneo para colmatar a ausência. Fala-se dos Grizzly Bear, que depois do mais bem sucedido dos seus discos lançaram o triunfante “Shields” nos seus próprios termos e em reacção exactamente a essa pressão, e agora os Yeah Yeah Yeahs, o colectivo de neon punk glam rock mais amado do mundo, a responder ao sucesso inesperado que foi “It’s Blitz!”.

E se os primeiros criaram um disco de afirmação pessoal, homogéneo e quase perfeito, o resultado do tão aguardado reencontro do trio formado pela apaixonante Karen O, o guitarrista e teclista Nick Zinner e o baterista Brian Chase é bem menos equilibrado. Verdade seja dita, os Yeah Yeah Yeahs nunca o foram e possivelmente nunca o vão ser. Mas existe em “Mosquito” uma palpável necessidade de se redefinirem. As próprias gravações foram, segundo a banda, um regresso ao passado e ao período de experimentação que antecedeu o lançamento de “Fever to Tell”. E “Mosquito” é, a par desse disco de estreia, o menos limado de todos os álbuns da banda e uma resposta esquizofrénica ao som mais imediato e efusivo de “It’s Blitz!”.

Aqui, os Yeah Yeah Yeahs reclamam por mais atenção e que se olhe por debaixo da pele, mesmo que isso implique alguma perda de direcção. E o desequilíbrio sonoro de “Mosquito” é, à primeira volta, algo desnorteante. Tal como a faixa-título, parece demasiado desconjuntado e esquizofrénico para o seu próprio bem, mas cedo vai ganhando contornos mais tangíveis e ritualísticos, como na hipnótica e amaldiçoada «Under the Earth» ou na perfidamente sensual «Slave», que contém nela um dos riffs mais irresistíveis da banda. Como já se fazia adivinhar pela catártica e herética «Sacrilege», os Yeah Yeah Yeahs encontram-se em modo de Deuses vingativos e impiedosos. Ou assim começa o disco, o mais pagão dos seus quatro de originais, com uma deslocada e frágil «Subway» a dar sinais de outras intenções que só se desvendam no final do disco – desolada e soturna, como se a cidade de Nova Iorque mostrasse a depressão de um novo dia depois de uma noite de arromba.

Mas antes disso existem alguns tiros no escuro: «These Paths» não tem qualquer rumo e parece uma demo perdida no meio da estrada; «Buried Alive» nada ganha com a intervenção de Dr. Octagon e a premissa claustrofóbica ameaça perder-se no vazio. A própria «Area 52», uma amostra irresistível do glam rock desalmado e alienígena dos Yeah Yeah Yeahs, surge desajustada e pouco segura de si.

No entanto, cedo chega uma nova fase de auto-descoberta e o trio de canções que finalizam “Mosquito” contém nele algumas das mais inspiradas composições da banda nova-iorquina: «Always» é o primeiro fôlego depois do exaspero, uma acalmia introspectiva e esperançosa assente numa linha de rumba de um modelo de Casio dos anos 80; «Despair» é apaziguadora, a «Runaway» deste disco, de alma curada, liberta e emancipada e disposta a acreditar num novo amanhecer partilhado; e «Wedding Song», uma desarmante e comovente canção de amor cuja única restrição é o ar que rodeia os dois amantes – outra prova que, sendo os Yeah Yeah Yeahs conhecidos pelo seu som ríspido e agressivo, são dos melhores escritores de baladas do rock actual. Por isso, é importante não deixar de ouvir também as faixas da versão deluxe, magníficas reinvenções acústicas e despidas de algumas das mesmas canções que habitam o alinhamento do disco.

É com esta heterogeneidade inicialmente repulsiva que os Yeah Yeah Yeahs se apresentam novamente ao mundo e “Mosquito”, apesar das suas falhas, é um álbum pleno que não procura qualquer redenção. Acontece efectivamente o oposto, clamam por penitência e adoração, talvez mais que nunca. Porque, tal como na assombrosa voz e assombrada entrega de Karen O, os Yeah Yeah Yeahs continuam únicos naquilo que fazem e, naquele que podia ser o mais recostado dos seus esforços, não dão sinais de arrependimento pelos seus pecados passados nem de desaceleração ao chegar à idade adulta. Continuam a procurar quem são à vista de todos e sem pedir perdão. E só assim poderão alguma vez encontrar-se.



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