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You Can’t Win Charlie Brown @ CCB (19.01.2017)

Uma noite simples e perfeita.

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Faltam 10 minutos para as 21h quando as portas do Grande Auditório abrem. Há pessoas à espera mas não há pressa, é tudo feito com tempo. A disposição em palco deixa antever um espectáculo diferente. Na parte de trás há uma plataforma mais elevada, com microfones, pronta para receber um mui ilustre coro. Os You Can’t Win Charlie Brown (YCWCB) já foram felizes nesta mesma sala, há coisa de três anos. Desta vez, no centro de tudo vai estar “Marrow”, editado em Outubro do ano passado e que tão bons (e merecidos!) elogios tem granjeado à banda.

“Marrow” pode ser traduzido como a parte mais importante ou essencial; este título torna-se ainda mais curioso porque, inicialmente, a ideia na base desta álbum assentava exactamente no essencial, no mais simples. Acabou tornando-se mais complexo, mais cheio. E quem diz a simplicidade não pode ser complexa?

A primeira canção da noite é «Above the Wall», a primeira de “Marrow”, banhada por um groove que até agora não conhecíamos nos YCWCB. Assenta-lhes bem. E é um deleite para os nossos ouvidos, quando as camadas sonoras encaixam na perfeição. Os álbuns anteriores dos YCWCB, “Chromatic” e “Diffraction/Refraction” remetem-nos para aspectos relacionados com a cor e com a luz. Esta noite há um cuidado especial com isso, como que a evocar um passado sempre presente. A luz é sempre simples mas essecial. Há sempre um tom que prevalece. Vermelho. Azul. Amarelo. Verde. Laranja. É como se estivéssemos a ter um vislumbre dos nossos sentimentos.

«Joined by by the Head» surge para acelerar o ritmo: “I’ll give myself a nice ride / My time is all I ever really wanted to give up”. Eis que surge o coro, com alinhamento de luxo: Margarida Campelo, Francisca Cortesão, Selma Uamusse, Catarina e Margarida Falcão (a.k.a. Golden Slumbers) e Mariana Ricardo. Antes de começarem, Afonso Cabral faz questão de nos recordar que «After December» abriu o concerto de há três anos. Surge-nos íntima, despida, bela. Arrepia-nos. “Love dies and my love is almost out of hope”. Nesta altura penso no pequeno prazer que é acompanhar uma banda a crescer ao longo deste anos todos. E nós com ela, de tal forma que continuamos a coexistir regularmente. Prosseguimos no “Diffraction/Refraction”, desta vez ao som de «Shout» que nos invade de uma vontade imensa de cantar, em conjunto, a plenos pulmões: “We’re young and yet we’re not aloud / So all bets are o / We’re taking over by surprise / And we won’t let go”.

«If I Know You, Like You Know I Do» mostra-nos (mais uma!) uma faceta nova dos YCWCB, com o sintetizador e o teclado a centrarem todas as atenções e Afonso Cabral, sem instrumentos e a entregar-se por completo às palavras que canta. É daqueles momentos em que pensamos que as cadeiras em que estamos sentados são verdadeiros empecilhos!

Um concerto especial exige uma preparação especial e os YCWCB fazem questão de frisar isso mesmo, quando agradecem a todos os que, com eles, ensaiaram num horário “pos-pós-laboral”. «Mute» é daquelas que canções que raios parta… o que dizer… “‘cause you don’t see me at all / And you can’t find my beat at all / ‘cause I won’t wake from sleep at all / And I won’t call out your name”. Quem nunca se sentiu assim num dado momento que atire a primeira pedra. E as canções de “Marrow” estão repletas de momentos destes. Voltamos a “Diffraction/Refraction” com «Fall For You»; é impossível ouvir esta canção e não pensar nos Radiohead e a culpa é do trabalho sublime que a secção de cordas de três elementos, e acabadinha de se juntar à banda em palco, faz. Se no álbum a canção soa bem, aqui, ao vivo, nesta sala, soa ainda melhor.

Não há duas canções iguais. Cada uma tem a sua história e o direito a existir de corpo inteiro. «Frida (La Blonde)» é (mais um!) exemplo perfeito disso mesmo; tem um registo bluesy e deliciosamente sujo e despido. «Bones» não só é a última canção do alinhamento de “Marrow” mas é também aquela que os YCWCB tem utilizado para fechar os seus alinhamentos, no entanto, hoje, surge a meio.

“Chromatic” já está distante no tempo mas isso não quer dizer que as suas canções não continuem pertinentes. «Over the Sun/Under the Water» continua, invariavelmente a chegar ao minuto e meio e a fazer lembrar uns Animal Collective quando estavam em forma. Por esta altura rogo mais uma praga às cadeiras. «Green Grass #1» faz parte do mesmo álbum mas tem David Santos (a.k.a. Noiserv) na voz. É inconfundível no registo vocal e nas intervenções que faz entre canções. Que nunca mude. A sério!

Regressamos a “Marrow” e o coro acompanha em «In the Light There Is No Sun». Sempre num crescendo sublime, onde, primeiro as vozes e depois os vários instrumentos que se vão juntando, um a um, dão origem a uma harmoniosa e gloriosa cacofonia. «Be My World» é uma declaração de amor que parece envolta em saudade e esperança como só nós (portugueses) o poderíamos fazer, mesmo que cantada em inglês. E a culpa disso é, em grande parte do David Santos, no xilofone que confere um toque essencial de sinceridade à canção. “Be my world, be my world / I’ll be home before they tell you / I won’t leave without a sign / I hope you’re coming home soon”. «Natural Habitat» coloca quinze pessoas em palco, entre elas, três elementos que acompanham a banda em digressão quando, por um motivo ou por outro, algum dos elementos não pode estar presente. É gratidão e reconhecimento.

O encore trás-nos «Sad Song». Foi a canção que me aproximou dos YCWCB, e por isso não me deixou indiferente. Fez-me sentir aquele arrepio na espinha. Fez-me recordar um concerto no Maxime, há sete anos, quando os vi pela primeira vez e onde estavam outras pessoas que ainda hoje fazem parte do caminho que percorro. São estes pequenos momentos, estes pequenos apontamentos que fazem sentir um carinho especial por estes rapazes e pelas suas canções. Todos nós os temos e não têm preço. Há ainda tempo para ensaiar um coro à capela, tímido mas inundado de honestidade. Fecho os olhos e ainda escuto “All I wanted to give, is this lonely sad song” uma e outra vez.

A fechar uma noite simples, perfeita e que nos fez esquecer o frio que se sentia lá fora esteve «An Ending» (faz sentido, não faz?). Começa apenas com o piano e a voz do Afonso mas depois juntaram-se o David, o Salvador, o Luís, o Tomás e o João. E foi bom, foi mesmo bom. Acabar com melancolia é mel. Digo eu.

Fotografias por Margarida Ribeiro



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