rdb_ZachWeintraub_inside01

Zach Weintraub, a Terapia do Cinema

O jovem norte-americano Zach Weintraub tem apenas dois filmes na bagagem mas a sua linguagem e cinematografia são exemplares. Conversa com um talento em bruto

Poucos realizadores conseguem orgulhar-se de conseguir realismo e perfeição cinematográfica numa claustrofobia muito pessoal logo à primeira longa-metragem. Zach Weintraub fê-lo também à segunda. Tanto “Bummer Summer” como “The International Sign For Choking” são dois filmes que encerram em si uma cinematografia muito própria, fruto de felizes acasos e coincidências.

Oportunidade de ouro para entrevistar este jovem realizador a propósito da sua estadia no IndieLisboa’12, facto que passou ao lado da suposta imprensa especializada portuguesa. A Rua de Baixo faz o serviço público.

“Bummer Summer”

Zach revela-se um jovem algo reservado mas logo que começa a falar dos seus filmes as palavras desenrolam-se de forma descontraída. “Bummer Summer”, a sua primeira longa, foi exibida fora de competição no IndieLisboa do ano passado, e é uma espécie de road movie claustrofóbico, encerrado numa brilhante fotografia a preto-e-branco. Nele, dois irmãos unem-se a uma amiga em comum e partem à procura de uma atracção, o maior labirinto do mundo. A sua viagem é pontuada por ligeiros acessos de ciúme e todo o filme joga com uma espécie de apatia muito comum na juventude; a inércia de querer fazer e acontecer e acabar por deixar as coisas correr.

 

Esse descomplexado artífice de jogar a vida é como o filme é realizado; deixar as personagens correr, deixar a paisagem abrir-se perante nós, percorrer o caminho da viagem sem muitas contemplações. A fotografia, a cargo de Nandan Rao, é das mais excitantes que podemos observar no Cinema independente.

Zach resolveu fazer uma pausa da Universidade para rodar “Bummer Summer”: “Acho que comecei a escrevê-lo como um argumento para uma das minhas aulas mas era muito diferente e mais complicado, quase como um filme maior, creio eu.”

Inspirado pelo movimento mumblecore, um termo usado para descrever uma série de filmes caracterizados por baixos orçamentos e actores amadores, um termo que não define em si uma estética mas um grupo de realizadores e actores que produzem filmes low-budget focados em narrativas e diálogos mais realistas, Zach pensa “bem, este filme não vai custar muito dinheiro portanto é possível [realizá-lo].”

O momento-chave para filmar “Bummer Summer” acontece numa altura em que Weintraub começava a odiar a escola: “Deixei a Universidade temporariamente e fui para a Argentina ter algumas aulas. Enquanto estava na Argentina decidi que ia rodar “Bummer Summer” quando voltasse. Essa foi, como é óbvio, a origem do meu novo filme. Eu estava lá, a viver aquilo.”

Regressa a casa, em Olympia do Estado de Washington, onde cresceu, e trouxe consigo “um amigo que também não se importava muito com a escola. Tivemos seis meses para decidir o que rodar no Verão.”

Como Fazer um Filme Num Verão

Mas rodar um primeiro filme é uma tarefa complicada, como se adivinha. “Foi [um processo] lento, achámos que íamos precisar de muito dinheiro e então pensámos que seria mais oficial se o angariássemos e tentámos organizar festas…” Este espírito está presente em “Bummer Summer”, especialmente na primeira parte do filme, enquanto as personagens decidem a sua viagem.

 

Num mundo ideal, organizar uma festa para financiar um filme parece uma boa ideia. Não foi o caso: “Foi terrível (…) alugámos uma roller disco, tipo uma festa com uma pista de dança em patins, e acho que apenas 100 pessoas apareceram mas custou tanto alugar o sítio que só fizemos tipo dez dólares… Foi divertido mas, sim, acho que durante alguns meses perdemos o nosso tempo a tentar fazer estas festas elaboradas.”

Mas numa primeira obra há tempo que é essencial. Zach e companhia aproveitaram bem esse tempo. Na altura surgiu a Canon 5D, a máquina fotográfica utilizada para filmar ambos os filmes. Mas realizar uma espécie de road movie a preto-e-branco? Zach explica: “foi a minha primeira decisão mesmo antes do argumento estar finalizado. Acho que é uma boa mudança de ritmo. Em certos aspectos é como um daqueles primeiros filmes de mumblecore, tipo, miúdos a passear, a fazer qualquer coisa, mas não queria filmar apenas numa câmara comum em DV. Os visuais são muito importantes. Pensei que era uma decisão interessante fazer um filme que é muito moderno em termos de como as personagens estão a agir e a falar mas é realmente a preto-e-branco.”

 

Houve até distribuidores interessados no filme que lhe pediram se podiam passá-lo para cores. Óbvio que não. Zach parece orgulhoso por não conseguir ter essa hipótese de transformar o filme. E nós também.

Isto porque “Bummer Summer” é uma viagem, e é uma viagem em que a paisagem está a preto-e-branco, é quase como se as personagens andassem em círculos, mas não é isso que acontece. Essa claustrofobia é essencial para a essência deste filme que, esperemos, esteja disponível brevemente para visionamento em massa.

Realizador Barra Actor

Em ambos os filmes, Zach é o actor, sendo mesmo o actor principal em “The International Sign for Choking”. No primeiro caso nem precisava de o ter feito: “(…) achava que a personagem deveria ser um pouco diferente. As personagens na minha cabeça, enquanto as escrevia, eram algo diferentes da forma como acabaram por ficar no filme porque escrevia-as e depois procurava as pessoas [para as interpretar]. Se me pareciam pessoas com quem gostássemos de trabalhar, então mudávamos as personagens para se aproximarem mais à personalidade deles porque era mais fácil, especialmente porque a maior parte não eram actores.”

“É estranho, penso que muito se deveu à sorte e à abertura ao imprevisto e às mudanças, à adaptação. Em “Bummer Summer” não sabia o que estava a fazer e quando acabei este novo filme aprendi imenso. Foi muito mais fácil de realizar e escrever.”

No caso do segundo filme, “The International Sign for Choking”, “foi uma escolha mais óbvia porque a personagem é muito diferente de mim. Queria que fosse diferente e mais canastrão, sabes. Temos a mesma história porque escrevi o argumento baseado na minha experiência [na Argentina]. Encontrar alguém que fale exactamente o mesmo espanhol com o mesmo sotaque é muito difícil e ter que pagar uns dólares extra pela viagem é insano, portanto pareceu-me mais óbvio que seria eu desta vez.”

A Inspiração e o Cinema como uma Terapia

Zach Weintraub não retira só inspiração das viagens que faz para escrever os seus filmes. “Geralmente tenho as ideias para escrever logo que acabo um filme. Acabei “Bummer Summer” e houve um período de depressão, tipo, o que é que eu fiz? Isto é horrível.”

Como combater a depressão? Fazer outro filme, claro: “Para evitar que fique maluco, as ideias ocorrem-me nessa altura. Quando estava a editar “Bummer Summer” comecei a tirar notas para um filme passado na Argentina e a partir daí escrevi o argumento durante um ano. Era para ser totalmente baseado na relação da personagem principal com uma rapariga do passado que é só uma parte do filme agora. Esse foi o foco principal do filme.”

Mas a origem do conflito vem da própria personalidade de Zach: “Eu escolho um problema que tenho ou algo que é difícil para mim e faço um filme sobre isso, e geralmente na altura em que finalizo o filme esse conflito está resolvido. É tipo uma terapia ou algo do género.”

 

Prolongar a Essência

The “International Sign For Choking” leva a fórmula de “Bummer Summer” mais à frente. Munido da mesma forma algo claustrofóbica de descrever os ambientes e de pintar as personagens na mesma ligeireza de deixar a estória correr e encerrando também em si os mesmos planos fotográficos geniais (desta vez a cores). Há cenas do filme em que apenas vemos parte de uma personagem que fala com a outra, por exemplo. Esse distanciar da câmara com a estória é a forma como a personagem principal vive o seu tempo no filme. Há planos sublimes onde há uma ligeira e inocente sexualidade envolta numa juventude muito urgente. Há longas desfocagens utilizadas para descrever a distância das personagens. Em suma, um filme que joga o seu próprio tempo que não é de todo um tempo de urgência, embora a estória se desenrole com uma noção muito segura de conflito.

Conflito esse que se rege pelos mesmos parâmetros do filme anterior. Há um jovem que regressa a Buenos Aires na esperança de reencontrar-se com amigos que lá deixou, especialmente com uma rapariga que lhe deixou marcas no coração. Não consegue encontrar ninguém e deixa-se envolver pela monotonia, ao ponto de, ao envolver-se com uma rapariga que mora no mesmo apartamento, provocar conflitos nas pessoas que o rodeiam. É uma espécie de viagem em círculos, quente como o Verão.

 

Não utiliza storyboards e não escreve diálogos. “(…) em termos de cenas eu nunca escrevo diálogos mas ensaiamos bastante, improvisando até sabermos o que dizer. Nandon [Rao] tira fotografias [dos locais], eu tenho uma ideia de como quero o plano final e digo-lhe. Ele trata de procurar o plano perfeito e volta com as suas ideias e alternativas. Mostra-me as fotografias na câmara e eu trato de escolher o plano que quero. Geralmente tenho uma ideia do enquadramento mas temos muitas cenas onde filmámos em parques que são enormes, portanto temos que procurar o local perfeito.”

Essa espécie de naturalismo não é forçado nos diálogos, que são bastante precisos. Nota-se a perfeição em atingir um determinado nível de linguagem certa. Utilizar equipamento mais simples também ajuda à rapidez do processo, e transmite uma sensação mais jovial aos filmes.

 

Mas nem tudo é fácil numa rodagem independente. Em Buenos Aires houve alguns problemas com os microfones: “um dos microfones que estávamos a usar no apartamento estava a apanhar estações de rádio, foi horrível. Não sabíamos como resolver isto, não havia solução. Foi muito estranho e frustrante.”

Isto aliado ao facto de não haver licenças e de dependerem da ajuda de amigos que foram conhecendo no percurso ou que Zach já havia conhecido na sua anterior aventura no local. Houve até um episódio com uma espécie de cybercafe onde estavam a filmar uma cena muito simples em que a personagem de Zach fala ao telefone e a câmara está colocada atrás da montra. Para além de ter sido um dos últimos sítios que encontraram, estavam com receio de não conseguirem filmar por causa de não terem autorização. Enquanto a cena decorria, o dono do espaço veio cá fora fumar um cigarro e eles simplesmente explicaram que estavam a fazer um filme “para a escola”. Não houve problema. Às vezes é mais fácil perguntar.

Fazer um Filme em Casa

Para o seu próximo projecto, Zach Weintraub já tem uma ideia muito avançada do que quer fazer, mas não vamos adiantar muitos pormenores. Vai fazê-lo em casa, em Olympia, porque é mais fácil. Quer utilizar amigos e pessoas locais e, especialmente, a namorada. “Sempre que começo um novo projecto quero fazer algo que nunca fiz anteriormente, para ter a certeza que é genuíno. Se fazes um filme que funciona não é fixe repetir a fórmula. Portanto quero apenas fazer um filme sobre uma rapariga.”

 

Uma estória que envolve uma adaptação a um meio mais pequeno por parte de umas personagens, com alguma intriga própria dos filmes de Zach, jovens a viverem a sua vida ao correr do vento, com algum humor ligeiro, e com a certeza de que a brilhante cinematografia de Nandan Rao vai voltar.

Sem festivais como o IndieLisboa não haveria oportunidade para experimentar este Cinema independente com uma calma urgência e olhar apurado, sem o excesso de intelectualismo que normalmente os filmes europeus carregam. Filmes como “Bummer Summer” ou “The International Sign For Choking” podem não trazer nada de especialmente novo ao Cinema, mas são genuínos, coreografados de forma exemplar, e belos na sua essência, que é uma essência de Verão; deixar os dias longos correr sem pressa, com a certeza de aproveitar cada momento com a calma que um belo dia de sol merece.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This