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ZNTN Loves You

No olho do furacão musical londrino.

Gonçalo Pereira é ZNTN, Produtor e DJ português que vive faz alguns anos em Londres. Longe de ser o fruto de promoção maquinada de um sucesso no estrangeiro, estabeleceu-se com o trabalho árduo e boas tácticas de networking, numa capital onde o melhor de sempre é julgado e posto à prova por pares de estatuto mundial.

“Competição, motivação e conhecimento” constroem o triângulo que orientam a sua conduta, acrescentando sinceridade, que algumas vezes passa por agressividade a quem não souber ler nas entrelinhas.

Recentemente editou “Way Back Home”, na editora francesa Astrolab Recordings. Este 10″, com remistura de Shit Robot (DFA), abre a conversa.

Podes começar por contar a história como surgiu a oportunidade de lançar o EP.

Conheci o Laurent Pastor [AstroLab] por causa dos Photonz, ele era uma pessoa interessante para trocar músicas e para falar de singles novos, ele gostava dos meus edits, na altura já tinha um mp3 numa colectânea dos Optimo que estava em vias de sair na Dissident e ele disse-me que quando tivesse algo novo lhe enviasse – fiz a “way back home” demo num fim-de-semana e ele gostou tanto que prometeu lançá-la quando a acabasse.

E a remistura de Shit Robot?

O Laurent era bastante aberto a ideias de quem poderia fazer o remix, ele achou que a AstroLab precisava de crescer e decidiu assinar sempre um nome grande por EP para conseguir ajudar as vendas – lançámos nomes para o ar e um da lista final era o Shit Robot, que eu conhecia, falámos os três depois de lhe mandar a faixa original.

Como construíste esse networking?

Quando me mudei para Londres comecei a dar-me com o Dan Avery (stopmakingme) que era um DJ local de festas de faculdade que passou em alguns anos para residente do Fabric e Bugged Out – através dele fui conhecendo outros DJs aos poucos, amigos de amigos, pessoas que via na rua ou a sair a noite; temos de ver que estes DJs todos são pessoas normalíssimas que saiem a bares e a noite e ao parque, o Matt Walsh mora a um quarteirao de mim, o estúdio dos Simian Mobile Disco fica uns quarteirões acima… o Andy Blake tinha uma residência na minha rua e aos poucos entrei neste mundo da zona Este de Londres. Também costumava ir regularmente ao Our Disco e ao Durrr (pós-Trash Club) que era frequentado por muitos produtores – se mostrares que estás realmente interessado em música as pessoas partilham contigo o que sabem.

Como farias um paralelismo à escala de Lisboa?

Era eu viver num Bairro Alto com 10x o tamanho (vivo numa zona com centenas de clubes e bares), onde os DJs no clube ao lado são pessoas como o Trevor Jackson, Tim Sweeney, Nathan Wilkins… e a loja de discos da minha rua é a Rough Trade, é outro nível de competição, motivação e conhecimento.

Como foi o teu processo de integração enquanto DJ?

É um processo cíclico, estive quase sem tocar no primeiro ano e fui arranjando remixes a partir de amigos em spec, ou seja, pagam se gostarem e não há nada a perder – com os remixes vieram datas, com as datas vieram mais remixes etc… tenho vindo a tocar muito mais situacoes tipo bar do que clube, mas também temos de ter em perspectiva que enquanto toco no bar esta alguém de nível mundial a tocar o clube.

Aconteceu-me outros DJs verem-me a tocar e pedirem para eu aparecer mais vezes como foi o caso dos Optimo, dos Allez-Allez, Matt Walsh ou os Filthy Dukes que me apadrinharam várias datas. Agora tenho a noção que já toquei em cerca de 20 venues diferentes em Londres, entre 1 e 5 vezes em cada incluindo algumas residências.

E tens alguma residência agora?

Tenho a Whiskey Tears que é normalmente a sexta no Horse&Groom, agora decidimos mudar de venue então está em standby e não é regular, uma nova mensal/bimensal a começar em julho no Lock Tavern em Camden e o Matt Walsh pediu-me para começarmos outra e ainda estamos a decidir o sítio final mas provavelmente até ao fim do Verão – aqui as residências não são fixas aos clubes, são noites temáticas e podem trocar de local – é mais parecido com o trabalho de promotor que só de DJ.

E na parte de produção, o que tens alinhado?

As próximas releases vão ser uma compilação da Astrolab com edits de todos os membros (Photonz, Pilooski, Kaos, Laurent, etc.), um próximo Astrolab EP, saída oficial dos remixes de Detachments e Cold Pumas e tenho mais uma ou duas faixas originais acabadas e um pedido de remix por fazer – ando um bocado mais lento agora como tenho um maior número de datas e mixes para blogues. Quero focar o meu output em menor quantidade e maior qualidade.

Que nomes costumas prestar mais atenção em Portugal?

Os mais óbvios são os Photonz e o Rui Maia com quem já tenho vindo a trabalhar há anos, outro nome que estou sempre bastante interessado é o Tiago que tenho seguido há já quase uma década; mais recentemente o Social Disco Club (do qual comprei um disco pela primeira vez sem saber que era português) e o Kaspar, são todos artistas que mantenho na minha mala.

Achas que existe um movimento coerente de produção nacional aos olhos de quem está aí?

Acho que não, é raro saberem que são portugueses e muito menos que esses artistas se conhecem todos entre si – o que é bom, não há a desculpa para ser música do mundo ou uma curiosidade, estao na mesma pilha de qualquer artista local.

Que tendência musical se encontra nas tuas escolhas?

Acho que muda  demasiado de semana para semana, tento ter mais cuidado no que compro e acho que tenho melhor ouvido para o que penso que irá durar. Eu tenho tendência para procurar géneros híbridos, nunca 100% rock ou 100% electrónica – acho que essa é a definição da década – alguns releases recentes são as compilações de coldwave ou o último álbum de Caribou – também ando a rever muito os back catalogues das últimas duas ou tres décadas como a discografia da ZZT e da Sleeping Bags que são capazes de ser das minhas maiores influências.

Em termos de promos, há algumas próximas releases que queiras destacar?

Recentemente cedi alguns freebies como o remix para Au Revoir Simone e o de Apples. Assim como o meu edit para Diagram Brothers – têm todos tido bastante bom feedback – gosto bastante poder oferecer faixas e parecendo que não, são capazes de me ajudar mais a trabalhar e a chegar a pessoas do que as minhas releases fisicas.

Recentemente começaste a produzir um podcast – how the other half lives – como te surgiu a ideia e qual é o conceito?

A ideia surgiu de falar com alguns DJs cujo tamanho chega a um certo ponto que só tocam em clubes a partir das tantas da manhã, chegam ao clube e tocam a chamada “música para drogados” – fria, rápida, técnica e minunciosamente trabalhada para o dancefloor. A maioria dos DJs não tocava isto há uns anos ou não ouve isto 24h por dia. Eles queixam-se que isso não os representa e portanto queria dar-lhes a oportunidade de tocar alguns favoritos que os influenciaram ou coisas que tocam quando eles são o único público.

Tenho tentado pedir a toda a gente com quem já toquei para fazer estas mixtapes (estilo cassete C60, sem mixing e bastante curtas) e a maioria aceita, acho que não o consideram como mais um mix para um podcast, é mais diversão do que trabalho…

Alguns nomes que já participaram incluem Matt Waites, TJ Kong e Tiago – outros em vias de entrar são Ivan Smagghe, Mirror People, Todd Hart, King Of Town e ainda em breve outros como SMD, Optimo, Gilbert Versatille, Liv Spencer etc.

E como vive a tua outra parte, a não musical?

A não musical – coitada –  vive bastante por baixo da musical, vive bem, gosto de viver no centro duma cidade onde tudo acontece, onde sou bem tratado no trabalho e as pessoas não têm medo de ter uma vida pessoal dizendo que não fazem horas extras. Gosto de ter acesso a cultura sem ter de pagar (museus e exposições são muitas vezes gratuitos), gosto de ter acesso a comida vegetariana facilmente e sem ser olhado de lado e de andar de bicicleta para todo o lado – a qual é um dos meus outros hobbies.



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