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Zona Fantástica

Entrevista a Fil e André Oliveira, editores da revista de BD "Zona".

Na passada edição do Fantasporto, foi lançada a Zona Fantástica, uma revista que pretende contribuir para o desenvolvimento e divulgação de BD no nosso país.

Este é já o terceiro número de um projecto que tem vindo a crescer e a ter cada vez mais notoriedade.
Após o lançamento da Zona Zero e da Zona Negra em 2009, chegou a vez da Zona Fantástica, uma Zona dedicada aos géneros que fizeram do Fantasporto aquilo que é hoje.

A Rua de Baixo esteve à conversa com os editores por detrás deste projecto, Fil e André Oliveira.

Como surgiu a ideia de criar a Zona e como é que tudo começou?

Fil: Já nem sei bem como surgiu a ideia. Sei que tinha algumas pequenas BD’s feitas e comecei a pensar que gostaria de as publicar em algum lado, para não ficarem na gaveta. Comecei a ver hipóteses mas na altura não havia nenhum fanzine activo, que eu tivesse conhecimento, e o meu trabalho foi recusado no BDJornal. De modo que comecei a pensar em juntar algumas BD’s e fazer uma edição independente.

Comecei a tentar estimar custos já com essa ideia, penso que por volta de 2007, mas sempre sem levar a coisa muito a sério.

Em 2008 segui de perto o projecto dos Murmúrios das Profundezas, assisti ao seu lançamento e falei bastante com o Rui Ramos que tinha liderado o processo. Ele acabou por me dar bastantes dicas e o contacto de uma gráfica com preços acessíveis.

Foi então que comecei a colocar os primeiros anúncios, especialmente na Central Comics, e houve algum pessoal interessado em colaborar comigo.

No entanto, por falta de fundos acabou por estar parado cerca de mais um ano. No início de 2009, achei que ou avançava naquela altura ou nunca mais faria nada. Resolvi então avançar pois acreditava na viabilidade do projecto.

Voltei a entrar em contacto com os autores que tinham respondido antes, contactei também amigos e voltei a colocar anúncios. Aos poucos reuni um lote interessante de trabalhos que viriam a compor a Zona Zero e estava lançado!

Este projecto foi iniciado pelo Fil mas conta agora com a ajuda do André Oliveira. André, quando decidiste fazer parte da organização deste projecto?

André Oliveira: Fui um dos autores que tomou conhecimento da Zona através da internet, nomeadamente no blogue “Divulgando Banda Desenhada” do Geraldes Lino. Na altura, achei uma iniciativa interessante e decidi entrar em contacto com o Fil, iniciando assim a nossa colaboração. Após o lançamento da Zona Negra acabei por lhe comunicar uma vontade que andava a fervilhar na minha cabeça há algumas semanas: a de passarmos a fazer isto a duas mãos. Já tinha tido uma curta experiência como editor de BD no entretanto extinto jornal da AE da Faculdade de Letras, o “Fazedor de Letras”, e fiquei sempre com a vontade de continuar a trabalhar nesse sentido. Por isso, quando vi um gajo, com esposa e filho, a ter de desdobrar-se em mil esforços para orientar um projecto que é refrescante e necessário no nosso panorama, pensei que não seria justo que continuasse a fazê-lo sozinho. Fiz-lhe a minha proposta, 50/50 em tudo, e é assim que tem sido até hoje. Como consequência disso, e apesar de já ter verbalizado por várias vezes o meu apreço e respeito pelas edições anteriores, penso que a Zona Fantástica é um grande passo em frente, o que só nos obriga a estabelecer como objectivo melhorar sempre a cada edição. Duas cabeças pensam melhor do que uma e felizmente os nossos brainstorms são produtivos.

Quem são os artistas da Zona? E está este projecto aberto a receber histórias de todos aqueles que estiverem interessados em participar?

Fil: Os artistas da Zona são sobretudo autores que gostam de escrever ou desenhar e fazer banda desenhada, apesar de na sua grande maioria fazerem-no como ocupação alternativa ou hobby.

O projecto está aberto a todos. No entanto, existe um processo de selecção: numa primeira fase analisamos e recusamos trabalhos que pensamos não se adequarem ou não terem qualidade suficiente. Este primeiro nível de selecção não é muito exigente pois isto não é uma publicação profissional, nem o são a generalidade dos seus autores, e pretendemos dar espaço também a artistas mais jovens ou menos experientes, fornecendo uma plataforma interessante e qualitativa para mostrarem o seu valor. Pensamos ser uma excelente forma de motivação e esperamos assim poder contribuir para o desenvolvimento da BD, especialmente em Portugal.

Depois, numa segunda fase, que já diz respeito ao espaço disponível, tentamos seleccionar um grupo de trabalhos consistente, em prol da coerência editorial da revista.

AO: Escusado será dizer que nenhuma destas etapas de selecção representa qualquer tipo de verdade absoluta. Aquilo que para nós, à partida, pode não ter qualidade suficiente para figurar na Zona, está apenas dependente de um só critério, que é o nosso. De qualquer maneira, e aqui o Fil tem tido mais influência do que eu, há muitas vezes um processo de acompanhamento dos trabalhos, quando achamos que há margem para isso. No final, com as alterações sugeridas e discutidas, muitas vezes as BD’s acabam por ser publicadas e os próprios autores reconhecem a evolução. Com esta entreajuda, sentimos sempre que crescemos mais um pouco.

Quando saiu a primeira edição, pensei que a ideia seria lançar a Zona Um, Dois e por aí fora, mas depois surpreenderam-me quando se aliaram ao festival de terror MOTELx e lançaram a Zona Negra, um livro dedicado ao terror lançado a preto-e-branco. Como surgiu esta colaboração e como correu?

Fil: Na realidade nunca pensei na Zona com numeração, antes com subtítulos diferentes. A Zona Zero chamou-se Zero porque no fundo foi um número experimental. Queria saber se o projecto tinha futuro ou não. Eventualmente talvez haja necessidade de enumerar, se começarmos a repetir subtítulos… é algo que ainda está em aberto.

Quanto à ideia da Zona Negra, surgiu quando a minha irmã mostrou a Zona Zero, recém-lançada em Beja, a um amigo, o João Viana, um dos organizadores do festival MOTELx. Ele achou piada à revista e perguntou se não teríamos interesse em fazer algo do género para lançar no festival, pois eles também estariam interessados em ter outro tipo de eventos culturais no programa.

Quando a minha irmã me falou da ideia fiquei bastante entusiasmado e tratei logo de falar com o João Viana para saber se tal seria mesmo possível. Encontrámo-nos pessoalmente e depois de falarmos comecei logo a enviar convites aos autores que tinham participado no primeiro número e a colocar novos anúncios.

Isto foi no fim de Junho de 2009 e passado um mês estava já a fazer o design final do livro, que foi para a gráfica logo no início de Agosto!

AO: Depois, a apresentação da revista ao público correu muito melhor do que tinha corrido a da Zona Zero em Beja. Agora, parecia que estávamos mais coordenados. Para isso, contámos também com a ajuda do João Maio Pinto, um excelente artista nacional já com extensa obra realizada, que funcionou como apresentador do projecto/moderador da sessão. Também aí já se notou uma clara evolução em relação ao número anterior.

Depois do MOTELx foi a vez do Fantasporto ter uma Zona também. A Zona Fantástica lançada recentemente durante o festival. Como correu o lançamento e como tem sido a recepção por parte do público?

Fil: Depois do MOTELx comecei a pensar onde poderia fazer o próximo lançamento, tendo-se gorado a hipótese de o fazer num festival de BD. E lembrei-me do Fantas. Sendo originário do Porto e a ficção científica um dos meus temas favoritos, sempre fez parte do meu imaginário. Como tal, nem queria acreditar quando menos de 2 dias depois de eu enviar um e-mail com a proposta recebi a resposta do director, o Mário Dorminski, a dar luz verde para a apresentação.

O lançamento correu bem, não tivemos muita gente pois apenas nos foi possibilitado fazer a apresentação num dia de semana. Mas a recepção por parte do público tem sido fantástica. Na verdade, menos de uma semana após o lançamento já não tínhamos livros disponíveis e ainda nem tínhamos acabado de fazer a distribuição nas lojas… E ainda faltava enviar as cópias de oferta a alguns autores!

AO: De facto, tem sido uma surpresa a vários níveis. Leva-nos a querer fazer mais e melhor, a levar este projecto mais longe. Ideias não faltam e a seu tempo iremos concretizá-las.

Com três Zonas editadas, têm notado algum crescimento em termos de vendas?

Fil: Sim, um pouco da Zona Zero (tiragem de cerca de 150 exemplares) para a Zona Negra (tiragem de 200 exemplares, ainda não esgotados). Note-se que a Zona Negra tinha a vantagem de ser muito mais acessível em termos de preço, visto ser a preto-e-branco.

Mas este último bateu tudo ao ficarmos sem livros numa semana. Foi uma tiragem de 200 exemplares e tivemos de avançar já para uma nova tiragem de mais 200!

AO: As vendas são fundamentais porque irão sempre ajudar a financiar o próximo número. Para isso, contamos com a ajuda dos autores, que pretendemos que sejam interventivos e dinâmicos na divulgação e na revenda de exemplares. À medida que isso vai acontecendo cada vez mais, o crescimento é uma consequência natural, e não só a nível financeiro.

Podem revelar algumas ideias para o futuro da Zona?

Fil: Acho que sim! Primeiro pretendemos fazer uma associação de forma a dar um suporte maior a este projecto. Esta publicação não tem tido qualquer tipo de apoio financeiro e é algo que gostaríamos de obter para passar ao próximo nível. Eventualmente seria muito bom que tivesse uma saída mais regular e que conseguíssemos aumentar o nível de qualidade.

Além disso, esta associação iria ainda permitir apoiar outros projectos nos quais os autores da Zona pudessem estar envolvidos. Na realidade, a revista Zona seria apenas mais um projecto entre outros.

AO: Queremos ver se vamos para a frente com a associação muito em breve, vai agora depender da nossa disponibilidade para nos encontrarmos e tomarmos uma série de decisões. A partir daí penso que há muita coisa que pode mudar para melhor.

Ainda agora saiu a Zona Fantástica, mas vou aproveitar para colocar esta questão. Para quando a saída do próximo número? E será temático?

Fil: O próximo número está previsto e em execução. Não tem tema específico e será lançado no festival Internacional de BD de Beja, um ano após o lançamento da Zona Zero, nesse mesmo festival. Haverá ainda uma grande exposição da Zona, com mais de 30 trabalhos dos diversos autores participantes.

Tem sido muito importante para nós o grande apoio dado pela organização do festival de Beja, pelo qual gostaríamos de agradecer especialmente ao seu director, o Paulo Monteiro.

AO: A selecção dos trabalhos e a sua paginação já não vão poder demorar muito a arrancar. Também isso está na nossa lista de prioridades.

A colaboração com festivais de cinema é algo a continuar? Se sim vão continuar pelo MOTELx e pelo Fantasporto ou têm outras ideias como por exemplo uma Zona para o Indie ou para o Queer?

FIl: A experiência com esses festivais foi boa e por nós são para continuar. Quanto a outros festivais não há nada programado nem falámos com ninguém. Mas na verdade penso que se houvesse essa possibilidade gostaria de fazer um número para a MONSTRA.

AO:
Há sempre outras hipóteses. Para já queremos continuar com os festivais com os quais já colaborámos e isso já representa um bom volume de trabalho. No entanto, e como é nossa intenção aumentar a regularidade da revista, a participação em mais eventos ou festivais pode vir a ser uma realidade.

Das três Zonas disponíveis têm alguma predilecta?

Fil: É dificil dizer, gosto de todas. Penso que a Zona Fantástica é o número mais forte até agora, no entanto se tivesse de nomear uma seria a Zona Zero, pois foi realmente o concretizar de um sonho e foi a peça que pôs finalmente o projecto em movimento. Para mim esse número é especial.

AO: Gostei das outras mas a Zona Fantástica é a minha preferida. Não só porque, na minha opinião, é a melhor até agora, mas também porque é a primeira em que participo como editor.

Além da Zona têm outros projectos de BD? Podem falar-nos sobre isso?

Fil: Tenho tido outros pequenos trabalhos, mais de ilustração do que BD, que foram recentemente publicados. Um no número 5 da revista Subversos, lançada em S. Paulo no Brasil, outro na segunda edição do Celacanto, sobre o Lobo, e a capa de uma publicação de autor, de BD, que foi agora lançada em Inglaterra.

De resto mantenho outras colaborações em aberto. Estou a pintar um trabalho de um autor Americano, o Geoff Sebesta, com quem já fiz uma pequena BD antes. Estou a pintar mais uma, que está quase terminada, para um projecto colectivo. Irei ainda entrar em mais um projecto colaborativo, este online, que deverá ser anunciado em breve…

AO: Eu tenho sempre a impressão de que estou metido em demasiadas coisas ao mesmo tempo. Terminei hoje uma BD de nove páginas para a Biblioteca Municipal de Odemira, que representa a lenda local para o público infantil. Foi uma das minhas raras incursões pelo desenho, coisa que prefiro sempre não fazer limitando-me a ser apenas argumentista. De qualquer forma, adorei abraçar o desafio e testar uma vez mais os meus limites nessa área.

Recentemente, assumi também o cargo de editor de BD na revista Freestyle, a única em Portugal dedicada ao hip hop, onde em cada novo número figurará uma prancha de banda desenhada de um autor diferente. Além disso, também participei no 2º Celacanto (se puderem comprem porque parte das receitas irão reverter para a preservação do lobo ibérico) e estou envolvido numa série de projectos, de BD e não só, que poderão ou não vir a público nos próximos meses.

Quais as vossas maiores influências?

Fil: Ao longo dos anos têm sido muitas. Assim de repente lembro-me de Moebius, Simon Bisley, Enki Bilal e mais recentemente Toppi. Para não falar dos autores das bandas desenhadas da Marvel que lia quando era pequeno. No entanto, e apesar de terem provavelmente sido o que iniciou o meu gosto pelo desenho e talvez a minha maior fonte de aprendizagem, não posso dizer que tenha havido aí algum nome que me tenha marcado muito. Mais tarde descobri a Heavy Metal, a Cimoc, etc, que apresentavam o trabalho de autores fantásticos. Mas poderia citar muitos mais nomes, não só na área da BD como em pintura, ilustração, etc.

AO: As minhas maiores influências acabam por vir do cinema e da literatura. Na BD, Alan Moore, Frank Miller, Art Spiegelman e Bill Watterson, para mim, são incontornáveis. Depois muita da minha inspiração vem das obras de Stephen King, Allan Poe, Tim Burton, Stanley Kubrick, Quentin Tarantino… Tenho a certeza de que me estou a esquecer de pelo menos 15000 nomes mas vamos ter de ficar por aqui.



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