David-Lagerkrantz

“O Homem que Perseguia a Sua Sombra – Millennium V”, de David Lagercrantz

Olho por olho, dor por vingança

A morte de Stieg Larsson, autor dos três primeiros volumes da série Millennium e ideólogo de todo o universo que gira em torno de jornalista de investigação Mikael Blomkvist e da hacker Lisbeth Salander, em 2004 deixou um rasto de pesar em todos os amantes da (boa) literatura do espetro do thriller/policial e levantava várias dúvidas sobre o futuro, se é que existisse, da referida dupla.

Larsson tinha pensado em escrever dez tomos da série e no final de A rainha no palácio das corrente de ar, terceiro volume da coleção, adivinhavam-se novas desventuras. Entretanto, nos media discutia-se a possibilidade de um outro escritor continuar o legado do criador de hacker mais conhecida do planeta enquanto corria uma batalha jurídica sobre os direitos da obra.

Resolvidos todos os conflitos nos tribunais e acordada a decisão de continuar a série, o também sueco David Lagercrantz foi o escolhido para a hercúlea tarefa de trabalhar no tão aguardado volume 4, que seria lançado em 2015. O resultado foi A rapariga apanhada na teia de aranha, uma muito agradável surpresa que fez os seguidores de Stieg Larsson suspirar de alívio.

capa

E eis que, dois anos depois, temos mais notícias de Lagercrantz. O Homem que Perseguia a Sua Sombra (Dom Quixote, 2017) chegou recentemente às livrarias e continua o caminho desenhado em A rapariga apanhada na teia de aranha. Mas será que o seu autor conseguir manter a fasquia qualitativa do livro anterior?

Depois das peripécias relacionadas com o seu envolvimento no drama que se seguira ao assassínio do professor Frans Balder, Lisbeth cumpre dois meses de prisão no estabelecimento prisional feminino de Flodberga por ter sido condenada devido a «privação de liberdade ilegal e apropriação ilícita de bens». O ambiente é pesado e Salander, faz o possível por evitar qualquer conflito com as outras reclusas, mas ao proteger Faria Kazi, uma jovem do Bangladesh que ocupa a cela vizinha, é imediatamente desafiada por Benito, a reclusa que domina o bloco B.

Enquanto atrás das grades, Lisbeth recebe uma visita de Holger Palmgren, seu antigo tutor, que afiança ter recebido documentos que contêm informações sobre os abusos de que ela foi vítima em criança. Transtornada, pede ajuda a Mikael Blomkvist, que tem por hábito visitá-la todas as sextas-feiras, e juntos iniciam uma investigação que pode trazer à tona uma das experiências mais terríveis implementadas pelo governo sueco nos anos 1980. Os indícios conduzem-nos a Leo Mannheimer, sócio da corretora Alfred Ogren, com quem Lisbeth tem em comum muito mais do que algum deles podia pensar.

O início da narrativa é bastante apelativo e promissor mas – alerta spoiler! – o resultado final fica aquém das espectativas. Ao longo das cerca de 400 páginas de O homem que perseguia a sua sombra percebe-se que Lagercrantz quer revelar momentos chaves do passado da família de Salander, conseguindo mesmo excelentes soluções para desvendar algumas pontas soltas (sim, vamos saber qual a razão que levou Lisbeth a tatuar um dragão nas costas…), mas descura uma das maiores qualidade da saga Millennium: a relação entre Salander e Blomkvist, que neste volume parece, infelizmente, perder relevância.

Ainda assim, ao leitor são relevados mais pormenores da infância conturbada de Lisbeth, que foi forçada a integrar um projeto científico, de cariz eugénico, que investigava a relação entre gémeos e que primava pela falta de escrúpulos, ética ou princípios morais. E à semelhança de as irmãs Salander, também Leo e David, gémeos monozigóticos, foram vítimas de abusos e separações em nome da Ciência, história que centra a narrativa e leva o leitor a fazer uma viagem entre passado e presente, à boleia de vários flashbacks.

Ainda que não tendo uma importância semelhante à dos gémeos Leo e David, Lagercrantz dá também assinalável relevo à cumplicidade entre Lisbeth e Faria, fazendo um retrato interessante, e infelizmente verdadeiro, das relações familiares entre homens e mulheres que professam a radicalidade da religião islâmica, nomeadamente na vivência opressiva sobre as mulheres, linha de pensamento similar ao que Stieg Larsson demonstrou em Os homens que odeiam as mulheres, tendo ainda tempo para criticar a extrema importância dada aos mercados financeiros internacionais e à manipulação que é muitas vezes alvo.

Outro dos trunfos dos anteriores volumes da série Millennium que é a relação Salander e a Comunidade Hacker também é praticamente obliterada neste livro, com exceção para o seu final, diga-se muito hollywoodesco e pouco verosímil.

Com elevadas doses de suspense, ainda que sem grandes reviravoltas, O homem que perseguia a sua sombra é um bom livro, dá interessantes pistas e contextualiza o passado de Lisbeth, e logra apontar um eventual caminho para um próximo volume, mas peca por uma já referida abordagem manifestamente superficial da relação entre Salander e Blomkvist, descura quase por completo a vida da revista que dá nome à série, ignora estranhamente Camilla, deixando o leitor preso a mais um (esgotado) episódio de vingança. Larsson, Lisbeth, Salander, a Millennium e, acima de tudo, o leitor, mereciam mais. Resta esperar que Lagercrantz se redima no próximo livro e pague o que “deve”, com juros.



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