Furia Brad Pitt

“Fúria”

A Guerra é o Inferno.

A Segunda Guerra Mundial está no fim, os aliados avançam em território alemão em direção a Berlim. Hitler em desespero ordena que as SS arregimentem todos aqueles que consigam empunhar uma arma, para lutarem sem quartel contra a invasão aliada.

Neste cenário apocalíptico, uma tripulação de um tanque de guerra americano comandado pelo duro sargento, Don ‘Wardaddy’ Collier (Brad Pitt), recebe ordens para  junto com uma coluna de blindados tomar uma vila que oferece resistência ao avanço da infantaria ocupante.

A tripulação é constituída por uma tripulação bastante experiente e com forte espirito de unidade , tendo lutado lado a lado em vários teatros de guerra desde o inicio do conflito .

A morte do seu auxiliar de condutor/artilheiro , leva  a que a tripulação receba um “reforço” pouco auspicioso na figura do dactilografo Norman Ellison (Logan Lerman), que vai ao longo do tempo criar novas dinâmicas e até lealdades entre Boyd “Bible” Swan (Shia LaBeouf), Grady ‘Coon-Ass’ Travis (Jon Bernthal), Trini ‘Gordo’ Garcia (Michael Peña) e o seu comandante.

Daqui em diante é o Inferno, não o metafísico das religiões porque aqui não se reconhecem os anjos e os demónios, nem aquele descrito por Dante, mas algo bem mais sinistro : A natureza humana.

A Segunda Grande Guerra sempre proporcionou grandes produções e alguns excelentes filmes ao longo dos tempos. Mais recentemente obras como : O Resgate do Soldado Ryan, Cartas de Iwo Jima, A Barreira Invisível, entre tantos outros, trouxeram características novas ao género, aliando hiper-realismo com uma visão mais elaborada dos oponentes dos “bons da fita”, rompendo os arquétipos clássicos dos heróis clássicos (interpretados quase invariavelmente pelos americanos e ingleses) e os vilões (americanos , japoneses e italianos).

Ao contrário dos filmes de guerra clássicos (muito semelhantes aos westerns) a guerra era um lugar divertido, onde podíamos assistir a John Wayne a trespassar uma centena de nipónicos sem vestígios de sangue ou qualquer reacção emocional das personagens, ou nossa…

O inimigo era sempre um cruel opositor que todos ansiávamos para que fosse eliminado.

Em países onde a guerra e os soldados eram ( e são) divinizados como nos Estados Unidos e Inglaterra estes filmes eram perfeitos veículos para o “esforço de guerra”.

A comprovar o que foi dito anteriormente, “Fúria” surge numa altura em que conflitos graves voltam a estar na ordem do dia  e novos “heróis” são necessários  para levar a “bandeira dos nossos pais” para o campo de batalha.

Contudo, os filmes de guerra actuais possuem uma abordagem realista das cenas de batalha, do sofrimento não só dos soldados mas principalmente dos civis e em alguns deles temos mesmo acesso às motivações dos homens e mulheres dos dois lados das trincheiras, o que nos ajuda a perceber que na guerra os únicos heróis são os que conseguem manter a sua humanidade em meio à selvageria.

Voltando ao filme.

“Fúria” é um bom filme e um excelente entretenimento, mas não é um grande filme.

É verdade que tem cenas de acção hiper-realistas, mas o surrealismo está presente em vários momentos do filme, como nas cenas onde Norman é recompensado com o carinho de uma jovem alemã poucos minutos  e umas notas musicais após a ter conhecido ou quando um SS lhe poupa a vida sem a mais pequena razão para o fazer.

A juntar a isto, a previsibilidade é uma constante e apesar das boas interpretações do Sr. Pitt e  dos seus companheiros, parece que estamos constantemente a revisitar os “Sacanas sem Lei”, onde não falta sequer o ódio particular pelos SS, que o tenente Aldo Raine (personagem interpretada por Brad Pitt) passa agora para “Wardaddy” Colier.

A realização de David Ayer é muito boa, o filme excita e prende, para entusiastas da história bélica – como eu – é um deleite…mas falta-lhe alma.

Nos filmes referidos há pouco, existe uma evolução nas personagens, uma visão ampla acerca da estupidez  brutal da guerra e uma caracterização pormenorizada das personagens principais e dos seus inimigos.

Isso não acontece em Fúria.

Passamos de cena para cena de acção em crescendo emocional, mas sem nada de novo a acrescentar.

Entendemos a camaradagem, o espírito de corpo a noção de dever e sacrifício, mas as motivações das personagens são demasiado primárias e até mesmo Norman que serve como barómetro dessa evolução, apenas se torna mais perto da ideia do que é uma “máquina de guerra” e nunca de um homem que cresce em ideais ou valores. Algo tão bem conseguido nas séries televisivas produzidas por Spielberg, Hanks e Goetzman  :  Irmãos de ArmasO Pacífico.

É muito provável que o velho Sherman M4 chegue até Hollywood em busca de óscares e provavelmente ganhará alguns…mas para mim, merece apenas :

Satisfaz Bem.



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