The Book Thief – A rapariga que roubava livros

A Rapariga Que Roubava Livros

Um cinema essencialmente... belo.

É raro o ano em que a sétima arte não procure trazer até ao público um novo olhar sobre o tema da Segunda Guerra Mundial e, actualmente, é quase impossível contabilizar quantos são os filmes que já embarcaram na exploração desta temática. Parece-me compreensível já que, de uma forma geral, estes são sempre filmes dotados de uma força inegável e que quase nunca nos deixam indiferentes, ou não fosse o tema basilar uma das mais marcantes tragédias históricas. 

Ainda este ano tivemos em Portugal uma retrospectiva da obra do realizador Claude Lanzmann, no âmbito da Festa do Cinema Francês, na qual foram exibidas duas das grandes obras-primas realizadas sobre o Holocausto: “Le Dernier des Injustes” e “Shoah”. Inesquecíveis são também os filmes dotados de uma força emocional e psicológica incrível tais como “Schindler’s List”, “The Boy in the Striped Pyjamas” ou ainda o “The Pianist”.

No caso destes dois últimos, a narrativa nunca procurou semelhanças com panfletos políticos, utilizando antes o contexto sociopolítico da Alemanha nazista como pano de fundo para a transmissão de outras mensagens – igualmente intemporais – que procuraram olhar de perto os valores que à humanidade e ao amor dizem respeito.

 

The Book Thief - A rapariga que roubava livros

No caso de “The Book Thief” acontece exactamente a mesma coisa. A atmosfera da Alemanha em meados do século XX não é mais do que o ponto de partida para conhecermos a história de Liesel (protagonizada pela quase desconhecida Sophie Nélisse), uma menina de caracóis loiros que, por força das circunstâncias da opressão da Segunda Guerra Mundial, se vê obrigada a abandonar a mãe e a iniciar uma nova vida enquanto filha adoptiva de um casal de alemães. Mas antes de me aprofundar sobre o conteúdo do filme, parece-me que devo referir que fiquei muito surpreendida com a forma negativa como alguns críticos receberam este filme. Este não é um cinema para ser visto por aqueles que eventualmente não estejam sensivelmente receptivos à leitura de uma história que, ainda que se pinte sobre o branco hostil do horror da época, não procura ser mais do que um ensaio sobre a infância e as descobertas que advêm desse estado de curiosidade e ingenuidade cristalinas. Certo é que no grande ecrã se desenham excelentes atmosferas, tanto visual como sonora, típicas do expressionismo da época. Mas para além de ver cumprido este dever de seriedade e precisão histórica, o filme não aspira ser muito mais do que isso: uma história. Feito de pessoas humanas para pessoas igualmente humanas. E parece-me a mim que esta ambição de nos conseguir contar uma história pode ser muito mais importante que o entretenimento vazio a que se propõem muitas outras obras cinematográficas.

 

The Book Thief - A rapariga que roubava livros

 

Desde pequenos todos somos habituados a ouvir histórias, mas é preciso reconhecer que nem a todos a vida dotou com o dom de as contar. Este dom valiosíssimo que nos permite compreender e dominar a força das palavras é uma habilidade que nem todos possuímos, e nesta obra a história surge através da mais improvável contadora de histórias de todas: a Morte. Uma Morte que narra a travessia da protagonista num tom algo sarcástico, chegando a ser incomodativa se pararmos para refletir sobre o papel esmagador que ela teve, de facto, no contexto histórico que pauta a ambiência do filme. Mas não me parece que fosse objetivo do escritor (já que o filme é baseado no livro homónimo de Markus Zusak) deixar cair a Morte em más intenções ou ridicularizar os factos da história. Parece-me, antes, que se pretende abordar, de uma forma mais moderada, as maiores implicações da Segunda Guerra Mundial através de uma série de eventos que têm tanto de ficção como de sensibilidade humana.

Regressando agora à história: quando Liesel chega a casa dos pais adoptivos, faz-se acompanhar por apenas quatro coisas: a lembrança ainda viva das pupilas sem vida do irmão, cuja dor tenta compensar através de uma fotografia dele e de um livro que lhe pertencia. No azul dos olhos da criança é ainda visível o reflexo vazio do olhar da mãe, que nos momentos iniciais do filme se vê obrigada a abandonar a filha pela sua ideologia política: é comunista. Já estes pais adoptivos não são comunistas ou judeus ou cristãos, são apenas… pessoas. Pessoas decentes. A mãe é a rigorosa Rosa (trazida ao grande ecrã pela incontornável Emily Watson), senhora com um feitio de difícil digestão e o pai é o bondoso Hans Hubermann (impecavelmente protagonizado por Geoffrey Rush) um homem de intuito livre que procura, através das notas do seu acordeão, chegar ao coração de quem com ele tem a sorte de se cruzar.

A amizade que veremos florescer entre Liesel e o pai vai, não só alterar a forma como encaramos Rosa, como vai levar a petiz a embarcar numa viagem por entre as palavras dos livros que a mesma vai roubando pelo caminho. Ela, que até então era incapaz de ler ou escrever, vai compreender o significante significado que cada palavra encerra em si. Será aquando a entrada de Max (Ben Schnetzer) em cena, um jovem amarrado ao maior erro passível de ser cometido na época de então, ter nascido judeu, que a pequena Liesel vai apreender algo de valor superior. Este jovem surge na história à procura da família Hubermann, num ímpeto de desespero, em busca de algo capaz de o proteger das marchas e bandeiras que tingem a cidade em tons de vermelho-sangue. É acolhido na cave dos alemães e a pequena leitora irá constatar, através dos laços profundamente humanos que vai criar com este judeu, que a capacidade de contar histórias aos outros pode bem ser o suficiente para que lhes seja possível fazer uma pausa (algo sentimental e utópica, mas estamos perante uma obra de ficção, certo?) dos horrores do quotidiano.

 

The Book Thief - A rapariga que roubava livros

 

Aos nossos olhos é perceptível a meticulosa construção que Brian Percival vai desenhando desta protagonista através de movimentos de câmara tão lentos quanto é a delicadeza de  Liesel, que vai deixando que a sua sensibilidade e inocência se exprimam em todos os seus mais pequenos actos. Em simultâneo vai ganhando formas muito amplas o contexto da Alemanha nazista, captado através de elementos cinematográficos contraditórios, algo intrigantes, que servem como metáforas sobre a sensação de inadaptabilidade dos (bons) humanos aos horrores da Segunda Guerra Mundial.

 

The Book Thief” é isso: uma história feita de pessoas boas e decentes que versam sobre uma espécie de estado suspenso de inocência. Mas este estado não é mais do que uma utopia e, por isso, no final do filme resta-nos a constatação de que o melhor que podemos fazer é tentarmos ser mais como eles: decentes.

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