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NEO POP 2009

Nos dias 13, 14 e 15 de Agosto, Viana do Castelo serviu de palco para o mais arrojado festival de música electrónica do nosso país.

Herdeiro natural do AntiPop, que já contava com três edições com projecção (e mais uma que poucos se lembram) marcadas por estreias absolutas no panorama electrónico, o NeoPop seguiu o mesmo conceito: estrear no norte dos País alguns dos DJs e produtores mais conceituados da actualidade na música de dança.

Ao contrário de edições anteriores, a cargo da OfirProd, este ano as rédeas ficaram a carga de uma aliança entre a recém-formada Connect Music, agência de artistas como Miguel Rendeiro, Freskitos, Magazino (que estiveram em cena), e a Sonic Culture, que dispensa apresentações. O resultado final foram três grandes maratonas nocturnas no Forte S. Tiago da Barra, animadas com poderosas batidas, algumas surpresas, confirmações e, como não poderia deixar de ser, algumas prestações menos boas.

Garantido garantido nestes três dias esteve o espaço para dançar, colorido com um agradável nascer do sol (sim, este ano o sol apareceu todos os dias ao contrário de algumas edições anteriores), brindado com sorrisos nos lábios das pessoas que dançavam ao som de batidas electrizantes.

No primeiro dia, um dos nomes pesados foi Reboot. O alemão nascido como Frank Heinrich aliou ao techno e à house music ritmos da world music , prestação que acabou por servir de bom aquecimento para Joris Voorn. Este artista proveniente de Amesterdão tocou à imagem do álbum lançado no início deste ano, “Balance”, no qual mistura quase cem (!!) músicas. Com um set eclético, Voorn aliou uma perfomance corporal semelhante a Michael Mayer com a técnica de mistura de Ritchie Hawtin. Faixas atrás de faixas que confundiam os ouvintes, pois quando pensavam que tinham reconhecido uma e esperavam o pico, aparece outra ainda mais aliciante. A título de exemplo, clássicos como «Easy Lee» ou «Spastik» aparecem atropelados por malhas mais recentes de Joakim, Minilogue e Tigeskin, entre outros.

Joris afastou-se parecendo querer ver de bem perto aquele que era tido como o grande momento da noite, James Holden, o patrão da Border Community. Depois da excelente prestação em Junho no Lux, Holden comungou a legião de fãs com um set que poderá ser dividido em duas fases. Enquanto no céu ainda brilhavam estrelas, Holden apareceu forte em ritmos neotrance e parecia tocar para uma pista escura, parecia querer incendiá-la. Recuperou uma relíquia dos Boards of Canada levando a multidão à esquizofrenia, voltou depois a insistir no tema «Fentiger» do seu companheiro Nathan Fake. O nascer do sol tornou o cenário Border Community perfeito, as ânsias outrora criadas pelas poderosas batidas deram lugar a sorrisos, a paisagem Border começou a ser colorida, redesenhada. O artista parecia ser outro. Nota positiva, para não variar, para o artista com ar de miúdo mostrando toda a sua versatilidade e capacidade de adaptação a qualquer tipo de pista.

O segundo dia ficou novamente marcado por um clima bastante agradável. Paul Ritch foi o primeiro nome a ter em conta, uma lufada de ar fresco a Paris, fora das rotas maximais e revivalistas de Daft Punk. Ritch realizou um set bastante coeso, sem quebras. O jovem francês com apenas 25 anos justificou o recrutamento de labels como a Get Physical e a DrumCode. Especial destaque para «Split the Line (Dubfire mega remix)», momento mais alto do set. Nota positiva para os Dub Video Connection que desta acertaram nos visuals em cheio.

Seguiu-se Audion, a versão super-musculada de Matthew Dear caracterizada por projecções em tempo real. Estranho foi o facto das projecções lançadas serem bastante semelhantes das visualizadas um mês atrás no Lux com… Matthew Dear. A explicação é dada pelo vídeo propositadamente desenvolvido para a tournée em curso por Will Calcutt, Eno Henze e Andreas Fischer. O trabalho gráfico do primeiro tem acompanhado a generalidade das edições de… Audion. No entanto a escolha das faixas não foi o a mais adequada para uma pista de dança como o NeoPop proporciona. Dear entrou um electro-pop em tons de cinza a imagem do aclamado “Asa Breed”.

Expander acabou por ser igual a ele mesmo servindo de excelente aquecimento para aquele foi, por ventura, a melhor prestação do festival. Seu nome Alex Under, espanhol fundador da Net28  foi o realizador da verdadeira “fiesta brava” por Viana do Castelo. Apareceu em cena já o sol estava bem alto, a sensação que deu foi de ter acabado de acordar (e acordou todos os presentes), tal foi o poder das malhas lançadas. Com o público na mão, Under lançou umas atrás de outras cada vez mais forte gerando um cenário de holocausto, nota de destaque máximo para o encore, com uma faixa que alguém ainda ta por descobrir o nome já o relógio passava das nove da matina, e já todo o staff do festival pressionava para o enceramento da musica. Contra tudo e contra todos como se nada passasse os ritmos minimais continuavam a ser debitados pelo espanhol dando a sensação que se ele continuasse ninguém arredava pé dali.

O último e já fatigante dia, para quem se propôs as três maratonas, estava relacionado com a aparição de Paul Kalkbrenner, ou Kalkito o pseudónimo do produtor. Depois de ter dado a cara ao novo filme de culto da geração techno de Berlim, “Berlin Calling”, era grande a expectativa de como as músicas do filme resultariam na pista de dança. O resultado superou as expectativas, Paul imprimiu um bass bastante poderoso, musculando faixas já de culto como super-“Gebrünn Gebrünn”, “Azure” entre outras. À imagem do que representou no filme, Kalkbrenner cantou “Sky and Sand” a música oficial do citado filme. O encore ficou a cargo da instrospectiva “Aaron”, agradável melodia com guitarra de fundo. Para quem não viu fica a dica “Berlin Calling”.

Segui-se Guy Gerber, o israelita que tenta fugir à cena trance não conseguiu apanhar o embalo de Kalkbrenner e acabou por tardar em conseguir cativar o publico presente.

O encerramento ficou a cargo do Wighnomy Brothers, simpáticos e divertidos, acompanhados por uma bela garrafa de champanhe. Tocaram até serem “expulsos”, misturando Massive Attack, Gui Borrato… ecletismo não faltou, faltou sim algum poder na batida. Erro no timing de entrada em cena na minha opinião.

Seguiu-se por fim o after-hours a cargo de artista da Connect Music, encerrando com Nuno Di Rosso com entrada a 13h de domingo.

Uma das novidades em relação ao AntiPop foi a inclusão de projecções de filmes durante toda a noite, por exemplo enquanto Reboot e Joris Voorn estavam a tocar, quem se sentisse entediado poderia optar pela película de Fernando Meirelles com o famoso Zé Piquéno, no clássico “Cidade de Deus” e no último dia era possível ouvir som trance de fundo na pista oriundo do espaço cinema devido a documentário acerca desta vertente da electrónica.

O festival Neo Pop confirma o estatuto de melhor festival de musica electrónica em solo português, o pecado mora na afluência às bilheteiras pelo público português. Apesar de relativamente mais composto que em edições anteriores, poucas são as justificações que se encontra para que um festival com um cartel de luxo como este, não se equipare a alguns festivais de “nuestro irmanos”.

O preço do bilhete é acessível, a cidade de Viana do Castelo tem mil motivos para ser (re)visitada. Com a emergência súbita de festivais sem conceito, sem cultura e com recintos cheios perdem aqueles que tentam contornar o já feito. Está na altura de o NeoPop (apesar de ser oficial a edição de estreia) conseguir convencer outros nichos a assistir a alguma da melhor música de dança que se produz actualmente. Esperamos futuras edições com cartazes cada vez mais convidativos para que o rumo do NeoPop não seja o mesmo do AntiPop, supostamente extinto pela falta de retorno na edição anterior.



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