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Já actuaram no SXSW, arrecadaram prémios um pouco por todo o lado, ganhando reconhecimento de nomes como Tom Waits ou Robert Smith, e passaram os últimos meses em Nova Iorque com o produtor Chris Coady. São portugueses. E dia 12 de Janeiro apresentam "The Blur Between Us", o seu novo álbum, pela primeira vez, no Musicbox Lisboa.

Corria o ano de 2005 quando, no Porto, nasciam os :papercutz, formados inicialmente apenas por Bruno Miguel. Mais tarde juntar-se-iam a norte-americana Melissa Vera e Francisco Bernardo.

Os :papercutz apresentaram-se ao público nacional em 2008, pela mão de Henrique Amaro, ao integrar a compilação Novos Talentos FNAC. Nesse mesmo ano lançaram o seu álbum de estreia, “Lylac”, pela canadiana Apegenine Recordings. Foi também o ano que marcou o início de uma série de prémios e reconhecimento internacional que desde então a banda não mais deixou de ter. Primeiro com a participação no International Songwritting Competition onde, entre outros, integravam o júri nomes como Tom Waits e Robert Smith, e onde alcançaram um excelente segundo lugar. No ano seguinte venceram um prémio no The People’s Music Awards, na categoria “Off the beaten track”, bem como o “Ones to watch”, resultante de uma parceria entre o MySpace e a Vodafone. Em 2010 participaram na edição do SXSW.

2011 marcou o regresso da banda a estúdio para preparar o sucessor da última edição, “Do Outro Lado Do Espelho – Lylac Ambient Reworks”, que data de 2010. Foi com base nesta premissa que falámos com Bruno e Melissa, sobre passado, presente e futuro. Futuro esse que passará pelo Musicbox, já a 12 de Janeiro, para a próxima edição das “Noites da Rua” e a apresentação de “The Blur Between Us”. Assim, sem mais demoras, os :papercutz em discurso directo para a RDB.

Quem são actualmente os :papercutz?

Bruno (B) – Eu (composição, voz secundária) e a Melissa (voz principal). Na nova formação ao vivo contamos também com o André Oliveira, na percussão e guitarra.

Os :papercutz têm um percurso curioso no panorama nacional. Digo isto porque parece que se fica com a clara sensação de que o trabalho desenvolvido encontra-se mais reconhecido lá fora do que por cá. Como encaram isso? Porque acham que isso acontece?

(B) – Fico contente por todos os que nos seguem, e que sabem que trilhamos um caminho independente e coerente com a nossa forma de estar e trabalhar. E temos todo o interesse em chegar a ainda mais pessoas que possam interessar-se por nós, cá também, claro. Se somos reconhecidos ou não, é relativo à realidade do país e algo que deixo para os entendidos na matéria pensarem. Já me chateou mais, mas hoje em dia dedico-me a coisas mais úteis. Prefiro que o trabalho fale por si. Acho, sim, que os :papercutz são um produto da globalização, nem que seja pelas nacionalidades e influências envolvidas e, de uma forma humilde, parte de um grande todo. E esse é o verdadeiro desafio que se apresenta à nossa frente. É um caminho que penso, mais cedo ou mais tarde, quase todas as áreas artísticas e não só, terão que enfrentar: chegar a possíveis interessados onde quer que eles estejam e deixar de limitar a criação a algo feito de portugueses para portugueses. Outros assim o fizeram para que possam ter conhecido o trabalho deles. Perpetuo essa ideia, ao considerar que o que fazemos é tão válido e de possível interesse em qualquer ponto do mundo. Logo, é a essa premissa que vou buscar a energia para continuar. Se com o tempo houver mais reconhecimento em Portugal, ainda melhor.

Parece-me que acontece porque, não sendo uma música difícil, a sonoridade que praticamos requer tempo para interiorizar alguns dos seus conceitos. Tentamos ser o mais original possível e nunca a “versão Portuguesa de…”, porque de outra forma não me iria sentir realizado. E Portugal continua a ser um país de uma matriz rock e pop, pelo que alguns jornalistas me dizem, algo que não está presente na nossa música. Logo, se há  pouca exposição por parte dos grandes meios de comunicação de outras linguagens, para além da que determinaram como dominante, logo aí se encerra a possibilidade de uma grande parte das pessoas virem a conhecer o nosso trabalho.

Melissa (M) – Na minha opinião, quem faz música não vê uma fronteira que separe o “cá dentro e lá fora”. O que se pretende é chegar ao máximo de pessoas com algo em que se acredita. 50 pessoas a comprarem o álbum cá, são 50 pessoas que compreenderam a mensagem que pretendíamos transmitir. O que diz no BI, para mim, é irrelevante. Queremos é chegar a mais pessoas e, como consequência e efeito disso, tocar mais ao vivo, e dar-nos a conhecer de uma forma mais próxima onde nos queiram.

O público começou a ouvir falar nos :papercutz quando, em 2008, integraram a compilação Novos Talentos. Desde então já passaram quase três anos. Quais foram as principais mudanças que sentiram? Deliberadas ou não.

B – Em três anos aprende-se muita coisa. Entre as mais importantes, a experiência ao vivo. Uma coisa é criar as músicas, outra é vivê-las em cima do palco. Isso influenciou-nos a muitos níveis, desde a composição dos novos temas a um crescimento pessoal. Temos que conseguir partilhar algo tão nosso com o público, e isso é talvez a tarefa mais difícil.

M – Outro aspecto importante foi reconhecer que é preciso arriscar na música, e encará-la como um projecto de vida. Não é fácil viver da música, mas apercebemo-nos que se nunca tirarmos a rede por debaixo da corda bamba, nunca vamos atravessá-la a sério e nem vamos ser verdadeiros com o nosso trabalho.

No que diz respeito à edição, as vossas escolhas têm recaído em labels estrangeiras; a Apegine Recording primeiro e a Audiobuld Records depois. Sentiram necessidade de procurar lá fora algo que sentiam não existir por cá?

B – Não foi deliberado. A demo do “Lylac” foi enviada para editoras portuguesas e estrangeiras. Não tivemos grande resposta das editoras portuguesas mas do estrangeiro surgiram vários interessados. A partir daí, entendemos a dificuldade de editar a nossa música em Portugal e apostámos nas editoras estrangeiras. Isso foi em 2008, hoje em dia a realidade portuguesa já se alterou com o aparecimento de algumas editoras independentes, mas ainda me parece haver muito trabalho pela frente, até porque essas novas editoras, para além de investirem o mínimo nos artistas, têm pouca ou nenhuma presença no mercado internacional de música independente e essa é a fronteira a quebrar. Saíam todos a ganhar, mas sem investimento não há retorno. Em relação ao lançamento do nosso segundo álbum, desta vez as coisas serão um pouco diferentes, já que vai haver uma edição nacional. Será uma nova aprendizagem.

M – Acima de tudo, procuramos a melhor oportunidade e escolher a oferta que nos faz mais sentido. Não viramos as costas a ninguém.

As remisturas são constantes e regulares na vossa obra. O que mais apreciam nelas? Coloquemos este ponto sob duas perspectivas. Aquela em que são vocês a remisturar o trabalho de terceiros e outra quando é o vosso trabalho alvo de uma remistura.

B – Quanto ao ver remisturado o trabalho que criamos, é um privilégio que apresenta novas roupagens possíveis para ideias iniciais e que permite cruzar públicos, para além de ser sempre muito recompensador veres as tuas músicas transformadas pela visão de artistas que admiras. No que concerne a  remisturar o trabalho de outros, são convites que me honram e criam a possibilidade de trabalhar com músicos cuja obra me interessa, explorando ideias que por vezes, ou não chego a concretizar com :papercutz, ou posso mais tarde vir a integrar. Este ano como tive muito tempo de estúdio, pude finalmente colocar-me nesse papel, em diversos desses trabalhos. Digamos que é uma possível extensão criativa.

Obtiveram comentários bastante positivos sobre o cover que disponibilizaram recentemente da «Desintegration», dos The Cure. Julgo que representa exactamente aquilo que um cover deve ser: uma reinterpretação do original, respeitando-o mas não se limitando a reproduzi-lo. Como surgiu o convite da Future Sequence para criarem o cover?

:papercutz – Disintegration (The Cure Cover) [Official Music Video] from :papercutz on Vimeo.

B – O convite foi para um tema novo para uma edição de comemoração do primeiro aniversário da Future Sequence, mas como por questões editoriais não podíamos lançar um dos temas do álbum, decidimos avançar com a ideia da cover, pensando depois integrá-la nos concertos ao vivo. O Michael da Future Sequence adorou a ideia e o trabalho que fizemos, e serviu como uma primeira abordagem à sonoridade que caracteriza o novo trabalho.

M – Obrigada! Era isso que procurávamos. De início, a responsabilidade pesou, porque é um tema e uma banda que compõe a banda sonora pessoal de muitos. A partir do momento que assumimos o risco, “desintegrámos” as partes da faixa original e começámos a colar os pedaços, um a um, e chegámos à sonoridade que queríamos. Estamos satisfeitos tanto com o resultado final, bem como com a aceitação do tema.

Falemos do novo trabalho. Já tem nome?

B – “The Blur Between Us”. Representa aquilo que é o desconhecido para nós ou, no íntimo, entre duas pessoas. De uma forma bruta, quer em termos de conceito e letras, o álbum partirá do trabalho anterior, o “Lylac” (e da procura do nosso lugar no mundo e de um equilíbrio interior), para o entendimento do que é um dos nossos maiores mistérios, as relações humanas e de momentos importantes no desenrolar da vida de cada um de nós. Existe uma narrativa que começa com a morte de alguém importante para o sujeito em causa e que lhe desperta uma procura do entendimento do próximo e da importância de partilharmos a nossa vida com outros. “Uma árvore ao cair numa floresta vazia, faz barulho?” A ideia é também abordar de frente alguns assuntos duais já badalados mas fugindo a clichés: vida/morte, amor/ódio, bem/mal, partilha/inveja, etc. Todas as letras são encaixadas nesta narrativa ao longo do álbum, e foram escritas por mim e uma pelo José Luís Peixoto, cuja obra também aborda estas questões.

Li há um tempo que o cover dos The Cure era um indicador da direcção que pretendiam tomar para o novo álbum (e vocês já o confirmaram). Nota-se que o som está mais negro e denso. Isso verifica-se no novo álbum? Falem-nos um pouco sobre ele.

B – No geral, um som mais negro, com muita percussão e vozes mais expansivas ao barulho. O produtor foi fundamental para chegarmos à essência deste novo trabalho.

M – O segundo álbum de originais espelha as consequências de um acontecimento que se impôs ao indivíduo do modo mais desarmante, abatendo-se sobre ele de forma bruta e repentina. Como tal, as batidas são fortes, os instrumentos são agrestes, as vozes são lâminas expansivas, e o som vagueia pelo melódico e o estranho.

Estiveram em Nova Iorque a gravar o álbum, com Chris Coady, que já trabalhou com nomes como os TV on the Radio ou Beach House. Como surgiu a oportunidade e como correu? Sentiram que o trabalho saiu realmente valorizado? De que forma?

B – O álbum foi em parte gravado cá pelo Ricardo Gandra, pela facilidade em trabalhar as vozes e porque tivemos arranjos de metais e cordas interpretados por músicos portugueses. Depois partimos para N.I. onde foram gravadas novas instrumentações, de acordo com a visão do Chris e finalmente misturado por ele também. Ao todo é um trabalho de vários meses. Foi-lhe feito o convite por mim pois admiro o seu trabalho e pareceu-me a pessoa ideal para trabalhar connosco neste álbum, e embora seja raro trabalhar com artistas fora dos Estados Unidos, tanto ele como a manager gostaram muito da demo que lhes enviei. Claro que penso que saiu muito valorizado mas no fim de contas serão outros a julgar isso. Pessoalmente, passar várias semanas em estúdio com um produtor como o Chris foi uma aprendizagem fantástica.

O que podemos esperar em palco, dos :papercutz, no próximo dia 12 de Janeiro, no Musicbox?

B – Será o primeiro dos nossos concertos de apresentação do álbum, logo podem esperar alguém com muita vontade de partilhar com o público algo que lhe é muito importante. Investimos tanto nos álbuns como na experiência ao vivo, através de novos arranjos e espaços de forma a tornar o concerto uma experiência única e distinta da audição das músicas. Esperamos conseguir passar isso.

M – Podem esperar uma entrega sincera. Passámos um ano a pensar nestas músicas, a apurar melodias e sentimentos, tudo para chegar a esse momento e adicionar o elemento que nos faltava: o público. Por isso é que os concertos têm uma carga emocional tão grande. Muito do nosso trabalho resume-se àqueles minutos em cima do palco em que nos expomos, misturamos emoção e comunicação e, acima de tudo, respeitamos as pessoas que escolheram passar aquele tempo connosco, quando tinham outras opções. Temos que fazer valer aqueles minutos para os “contagiar” e fazê-los viver, à maneira deles, a música que fizemos.

As “Noites da Rua” contam com o apoio da Lacoste L!VE. A entrada vale 6€, com oferta de uma bebida, e pode ser já adquirida aqui, na FNAC e locais habituais.



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