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Menina Else

Morrer a Vida, Viver a Morte

A menina dança?

Sim, a “menina” – que de menina pouco tem – arrebata-nos com o rodopio de palco em que se instala durante quase duas horas de espectáculo, que estreou no passado dia 28 de Maio no Teatro da Cornucópia. A menina é Else, trazida pela grande actriz Rita Durão, que leva a palco um projecto muito seu, proposto por si e acolhido pela companhia que tem como casa e na qual se destaca há já vários anos, tendo partilhado o desafio com a encenadora e cineasta Christine Laurent. Trocas Paris-Lisboa, trabalho árduo por um enamoramento comum: o texto de Arthur Schnitzler, que pintou uma menina-mulher cheia de vida e morte num só corpo e numa só voz.

Boa noite linda menina no espelho.

Rita Durão veste-se de Else, a menina vienense de 19 anos que ecoa livre sob a pauta de monólogo interior, uma espécie de sonho acordado que revela – na sua intimidade – uma emoção estranha e boa pela riqueza e antagónica economia de discurso. Else é-nos apresentada num todo mais além do que o provável literário: ela é o seu Pensamento, os seus Diálogos e o seu Inconsciente mordaz, que a todos os outros elementos se sobrepõe. O que ouve, o que diz, o que pensa e o que se solta do inconsciente desagradável, são as linhas com que se cose aquele corpo e alma deamulantes pelo palco. Entre o sonho e a realidade, a indistinção da pessoa e do estado refletem um quebra-cabeças textual sob o qual o autor trabalhou uma gestão de diferentes linguagens, reforçando a heroína em tom, ritmo e expressividade.

O ar está divinal como champagne.

Na flor da sua juventude, a adolescente é rodeada do perfume inebriante da alta sociedade vienense do princípio do século XX, à qual torce o nariz e aponta sem medos os enganos e jogos que nela se tecem. Else joga ténis, é educada e desagradável – graças a Deus -, insolente e precipitada nas associações livres que nos deixam entre a perturbação e o sorriso. A força com que se mostra sem pudor, contorna bem a revolta e desassossego em que se consome ao ter de se sujeitar à condição de “vender-se” para ajudar o pai nobre, mas falido, em risco de prisão. Uma prisão assombrada de morte, que leva Else contorce-se entre desejos revoltos e sentimentos que a aceleram em compulsão e alucínio, precipitando-a para a sua própria desmesura, descontrolo e queda. Quer ser devassa, quer ser provocadora, quer dar-se. Oferecer-se talvez, ser corrupta sim… mas prostituta não, sobre aquela ou nenhuma outra condição a que o velho Dorsday a impõe. Num ensaio quase existencialista, espreitamos a franqueza e a dúvida da menina alma de mulher, que não se compara a nenhuma outra.

Vir ao mundo outra vez.

Else talvez morra de exaspero, talvez se acabe em barbitúricos num salão do hotel que percorre. Talvez. Else em nós deixou-nos a pulsar de vida e deslumbre, que procurámos oferecer-vos com passatempos para assistirem a este delicioso momento que coloca Rita Durão num merecido posto de ícone, à medida da obra, personagem e seu autor, tão bem abraçados logo ali, no Bairro Alto. A sua presença prolonga-se até ao dia 21 de Junho e sem dúvida que merece outra visita. E outra. Com um até logo.



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