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Miserere

Poderemos viver de outra maneira?

Mais de quinze dias passados sobre a estreia de “Miserere”, em cena no Teatro D. Maria II até ao próximo dia 23 de Maio, não deixa de ser surpreendente a falta de debate público que circunda esta co-produção do Teatro da Cornucópia com o Teatro Nacional.  Não só porque a subida ao palco do Teatro Nacional  de um texto vicentino de carácter religioso (como já o tinha sido em 2009, “Breve Sumário da História de Deus” no Teatro Nacional São João no Porto, por Nuno Carinhas) é um acontecimento que acaba por interpelar a abordagem dos textos vicentinos dos últimos trinta e seis anos. Também pelo modo muito particular como a Cornucópia trabalha o “Auto da Alma”, vinculando-o à crítica sobre a forma como o catolicismo, através das fantasmagorias da culpa, da mortificação, vivencia as questões da carne, do prazer e da sexualidade. O que poderia fazer entrelaçar “Miserere” nessa discussão que actualmente tem escancarado a boca dos jornais e provocado um vendaval na relação que o mundo contemporâneo estabelece com a Igreja Católica. Nada disso aconteceu, como se o teatro tivesse perdido a voz, e a vez, na expressão do mundo. Sintomaticamente, foi no site da Pastoral da Cultura que fui encontrar maior discussão sobre este espectáculo. E não posso deixar de começar por me lembrar de uma das últimas respostas que Luís Miguel Cintra deu naquela roda de imprensa em que participámos:

“Considero este espectáculo um dos mais políticos que fiz nos últimos tempos.  Pelo próprio escândalo que pode provocar. Escândalo no sentido de ser surpreendente. Justamente por ir buscar uma temática religiosa e não politica. Por não ser um clássico feito da forma tradicional. Por ser uma prática surpreendente e chocante em relação ao que é a prática actual dos espectáculos. Isto considero que é político. Eu tento desesperadamente fazer um teatro que ainda tenha alguma capacidade de surpreender o público porque só isso o pode tornar político.”

As primeiras imagens não são vicentinas

Entramos na sala, naquela penumbra que instala a sacralidade do momento teatral. O palco está fechado, o pano de ferro corrido. No proscénio alguns elementos cénicos: uma espécie de escarpas azuis. Um animal, parece um lagarto. No fim da plateia, virada de costas para o público, está a figura de um pianista sentado num piano. Haveremos de saber depois tratar-se de uma homenagem a Eric Ramos, um jovem de vinte e poucos anos, cuja música a Cornucópia encontrou no You Tube e a quem foi buscar uma música cantada e tocada no harmónio de uma igreja de Phoenix, Arizona. Começamos por ouvir “Ave Verum Corpus” de Mozart. Ao fim de algum tempo sobe, lentamente,  o pano de ferro, destapando um conjunto de figuras, fechadas num espaço concentracionário, cercado por altíssimas paredes.

Do tecto caí um fragmento gigante de um quadro de Fra Angelico (Giovanni da Fiesole, 1387-1455), que ficará durante toda a peça suspenso sobre aquelas figuras que, ao princípio, no momento em que o pano de ferro as descobre, não parece terem nenhuma ligação especial:  há um homem encapuçado, encostado à parede do fundo (Luís Miguel Cintra).  Um homem de costas, haveremos de saber que é um padre (João Grosso). Dois militares (Ricardo Aibéo e Dinis Gomes). Uma rapariga, descobriremos posteriormente, a Alma (Rita Blanco). Uma enfermeira-chefe (Sofia Marques) e um enfermeiro (Vitor D’Andrade). Um homem mais velho (José Manuel Mendes). Um homem encostado à parede (Duarte Guimarães). Um empregado que, como se fosse um relógio marcando o tempo, limpa o chão (Luís Lima Barreto). Um homem, mais agitado do que todas as outras figuras (José Airosa). A luz é unificada, dando a ideia de uma luz geral, reforçando a natureza do dispositivo panóptico criado. Ao longo da peça as principais mudanças de luz que irão ocorrer, marcando os diferentes momentos, serão feitas, principalmente, através do jogo com a intensidade luminosa desta luz quase geral.

Uma visão do cristianismo muito cruel e muito triste

O “Auto da Alma” fala da experiência de mortificação a que uma alma se sujeita no seu caminho para a redenção e salvação, e inscreve-se no teatro religioso vicentino, que não tem sido muito representado pelo teatro independente depois do 25 de Abril. Quando Diogo Infante o convidou para encenar um texto clássico português, Luís Miguel Cintra pensou que o Teatro Nacional – que há muitos anos, nas comemorações de um centenário de Gil Vicente, lhe tinha dado um inesquecível Auto da Alma com cenários de Almada Negreiros e com Maria Lalande no papel de Alma – seria o melhor lugar para voltar a apresentar este auto muito esquecido que, para ele, tem alguns dos mais belos versos da literatura portuguesa .  Ao mesmo tempo é uma peça completamente simbólica, “onde não há aquele salto para a vida e para os retratos humanos que caracterizam a obra vicentina”, e que, como nos disse, “expressa uma visão do cristianismo muito cruel e muito triste”:

“O que não é habitual. Normalmente o cristianismo de Gil Vicente  é o cristianismo da alegria, da festa e do prazer da humanidade, e das contradições dos homens, e um respeito pelo ser humano muito grande. O prazer da vida. Há nele um amor à humanidade, que aliás é comum a outros grandes dramaturgos, como por exemplo o Shakespeare.”

Quando Luis Miguel Cintra começou a estudar o auto e a preparar-se para fazer o espectáculo começou a dar-se conta que ele continha uma grande violência ideológica que chocava a sua própria sensibilidade de cristão:

“Ou seja, durante todo o auto o que se faz é uma sessão de tortura. Quer diabo, quer anjos, quer os doutores da igreja, quer a própria figura da igreja, são vozes que rodeiam a alma no sentido de a obrigar a afastar-se de tudo o que é sensorial, e de tudo o que é a sua própria personalidade. A gente esquece-se disso porque associa à imagética religiosa, mas a própria cruz, as traves, os chicotes, a coroa de espinhos, são instrumentos de tortura.”

Para Cintra esta visão da culpa e da culpabilização, embora faça sofrer mais os crentes também afecta os não crentes na forma como vivem as questões da sexualidade e do corpo.

“Portanto pareceu-me que era interessante, digamos, descarnar o auto de toda a sua convenção religiosa tradicional e reduzi-lo à sua essência profunda. Como? Criando uma nova imagem simbólica em cena, que não é já a da iconografia cristã como a gente a recebeu. São vozes de pessoas várias, que acabam por ser simbólicas mas que a gente reconhece como pessoas do nosso tempo, que estão a martirizar uma outra que é sobretudo inocente, uma página em branco. Nessa pessoa, nessa figura, nessa alma, o que procurei com a Rita foi a de invenção de um estado de pureza e inocência, ou seja, de ausência de consciência da tradição cristã, ausência de consciência da culpa, ausência de consciência de toda a doutrina.”

Trabalhar com um guião, improvisando

As falas dos personagens do texto original foram desfeitas, partidas na distribuição de falas feitas pelo guião que ele organizou, como se fosse no cinema e que incluía algumas acções físicas, por exemplo os beijos, as bofetadas, um certo tipo de gestos. Escolheu os actores já tendo em conta a forma como sabia que eles poderiam entender e ser sensíveis a um guião que era diferente da linguagem vicentina. Cintra reconhece que o que aconteceu foi uma improvisação permanente a partir dos materiais que ia dando. Ele não indicou nenhum movimento a ninguém, foram surgindo naturalmente. Pôs cadeiras no espaço e depois pediu-lhes que fossem buscar uma e que se colocassem em qualquer lugar na sala. E a partir daí começou a desenvolver-se a encenação, incutindo nos actores a ideia de que a relação que as personagens estabeleciam umas com as outras através daquilo que diziam era tão importante como o sentido das palavras que proferiam.

“E isso aconteceu a um nível tal que eu neste momento não posso dizer que é um espectáculo meu, é um espectáculo colectivo. Há uma proposta minha e há um apanhar dela pelos actores e uma construção que foi sugerida por mim caso a caso de um personagem que eu lancei a partir daquilo que sabia dos vários actores. Os personagens são completamente inventados. Eu não tinha pensado num padre. Eu não sabia que ia chegar a ser um padre. Ele era apenas um homem com fortes convicções, no guião que lhes trouxe. A partir de certa altura o João Grosso começou a explorar um livro, o livro tornou-se no breviário, o breviário conduziu à ideia do padre. E o texto que lhe compete é um texto muito normativo e que corresponde à posição da própria Igreja. Depois a figura que mais perto está da Igreja é a da enfermeira feita pela Sofia Marques. Partimos logo do princípio que seria uma espécie de controladora da consciência daquelas personagens. Foi através disso que chegámos à imagem de uma enfermeira chefe de um hospital psiquiátrico.“

A ideia de espaço também não estava definida. Ele foi surgindo do trabalho com os actores. Ao princípio não sabia se era uma prisão, se seria um lugar de cruzamento de pessoas que não se conhecem umas às outras, uma estação de comboio, uma sala de espera:

“Até que chegámos à ideia do que poderia ser um reformatório. Acaba por ser uma sala de hospital, uma cozinha. Achámos que podia ser uma cozinha de um hospital, sem portas nem janelas, um lugar simbólico, fechado, de alienação mental.”

A nível simbólico o espectáculo tem uma carga sexual muito forte. Luís Miguel Cintra assume aí uma linha de confrontação com a forma como o discurso da Igreja construiu uma zona interdita, a da relação com o corpo e com a sexualidade:

“Achei que na oferta das tentações sensoriais que está prevista no Gil Vicente, que é a oferta dos brincos, da mudança de roupa, isso é o que esconde uma outra temática e que não poderia ser nomeada, que é a da tentação da carne. Estiquei, pus isso a nu com as acções. “

Profanar as imagens para encontrar nelas o sagrado

A partir de certa altura começa a ser colocada uma grande mesa e na forma como ela se organiza há a referência imediata à Ultima Ceia. O encenador justifica-a como parte do trabalho constante que o espectáculo faz de  dessacralização das imagens:

“Eu quero que o público se lembre que aquilo é a mesa da ceia tornada profana. Uma das coisas que foi referência para nós, foi o que Buñuel fez em muitos filmes, principalmente na sua fase mexicana, que foi a de pegar em muitas coisas da iconografia cristã e profaná-las. Provavelmente no caso do Buñuel não há uma intenção de procurar um novo sagrado através da profanação das imagens herdadas. No meu caso há. No fundo o espectáculo consiste na busca de uma nova espiritualidade, de uma nova transcendência que não é aquela que herdei mas é aquela que sinto necessidade”.

Cintra confessa que tem uma ideia do que gostaria que as pessoas apanhassem de “Miserere”:

“Gostaria que as pessoas pensassem, ‘que monstros são aquelas figuras!’, mas gostaria que pensassem que são afinal monstros como nós ou muitas pessoas e que se há Deus, que ele nos perdoe porque não sabemos o que fazemos e quando digo que não sabemos o que fazemos digo que tratamos mal uma coisa que é tão preciosa como a vida humana.”

“A vida é uma coisa muito diferente do que estamos a viver!”

Foi esta dimensão de busca pessoal e política que terminou a conversa colectiva que tivemos no fim do ensaio de imprensa. Luís Miguel Cintra reclamou da necessidade da sociedade em que vivemos ter espaços para pôr em causa o seu próprio modo de vida. Disse, “hoje já ninguém põe em causa nada. É como se dissessem, a vida é assim e tem de se  viver desta maneira. Não é assim. A vida é uma coisa muito diferente daquilo que nós estamos a viver.” Perguntei-lhe então se ainda poderíamos viver de outra maneira.

“Não sei se é possível, mas terá de ser possível. Até porque isto está a reduzir as nossas capacidades humanas. A nossa capacidade de descobrir o outro é reduzidíssima actualmente porque as pessoas estão habituadas a terem a cabeça dentro de gavetas. Ainda hoje um jornalista me perguntava, mas você é católico? Você é cristão? E eu dizia-lhe, mas o que é que você está a querer fazer? A meter-me dentro de uma gaveta? E isto é antes de conhecer a própria pessoa. E quem diz isto diz questões como a fraternidade. Que é uma coisa essencial na vida humana. Eu reconhecer no outro, outro ser humano igual a mim, com a mesma razão de existir e que é outro ser paralelo ao meu. Há qualquer coisa de errado. A vida é maior do que isto. São coisas que podem parecer infantis e ridículas mas são coisas que me preocupam.”

“MISERERE” o Auto da Alma e outros textos de Gil Vicente
15 ABR – 23 MAI | 4ª a Sáb. 21h30 – Dom. 16h
SALA GARRETT

(o “Auto da Alma”, o salmo “Miserere Mei” e trechos do “Auto da Lusitânia”, do “Breve Sumário
da História de Deus” e da “Carta a D. João III” sobre o tremor de terra de 1531)
colagem de textos e encenação Luis Miguel Cintra
cenário e figurinos Cristina Reis
desenho de luz Daniel Worm D’Assumpção
assistente de encenação e contra-regra Manuel Romano
assistentes para o cenário e figurinos Linda Gomes Teixeira e Luís Miguel Santos
acompanhamento vocal Luís Madureira
director técnico Jorge Esteves
construção e montagem de cenário João Paulo Araújo, Abel Fernando com Tomás Caldeira
edição de som Hugo Reis
montagem e operação de luz Rui Seabra
guarda-roupa Maria do Sameiro Santos
costureira Teresa Balbi
secretária da companhia Amália Barriga
com Dinis Gomes, Duarte Guimarães, João Grosso, José Airosa, José Manuel Mendes,
Luís Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Ricardo Aibéo, Rita Blanco, Sofia Marques e Vítor
de Andrade
duração do espectáculo 1h30m aproxim.
M/12
uma co-produção do Teatro Nacional D. Maria II com o Teatro da Cornucópia




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