Ensaios para O Gingal

Até 30 de Julho no Teatro do Bairro Alto.

O Teatro da Cornucópia, que há pouco representou A Gaivota, continua a sua abordagem da obra de Anton Tchekov com a apresentação de um novo espectáculo, a partir da última obra do mesmo autor: O Cerejal, peça para a qual a tradução adoptada de Nina Guerra e Filipe Guerra recupera o título mais próximo do original russo de O Ginjal.

Trata-se de um espectáculo de natureza e objectivos muito diferentes do trabalho anterior. Mais do que de uma apresentação da peça, trata-se aqui da apresentação de um trabalho sobre um texto de Tchekov, de uma tentativa de apropriação, por um grupo de actores, de um universo dramático e poético particularmente rico e complexo, motivador de múltiplos níveis de interpretação. Sem a pretensão de apresentar um trabalho acabado, a companhia apresentará ao público uma tentativa de leitura descarnada e sem defesas, como se quisesse transformar em espectáculo, expor perante o público, tanto como a peça, o seu próprio trabalho de ensaios, o seu convívio com cada frase, com cada personagem, com cada situação, com cada dificuldade, com a complexa estrutura de um texto construído com regras quase musicais.

O espectáculo foi dirigido por Christine Laurent, cineasta, argumentista e encenadora que regularmente tem sido chamada a colaborar com o Teatro da Cornucópia. Com a Companhia criou já quatro espectáculos: Diálogos em Roma de Francisco de Holanda, Barba Azul de Jean-Claude Biette, O Lírio de Molnár e D. João e Fausto de Grabbe. Para este trabalho sobre Tchekov, Christine Laurent adaptou a peça e criou um guião de espectáculo que insere também fragmentos da correspondência entre o autor e a sua mulher, a actriz do Teatro de Arte de Moscovo que, na encenação original de Konstantin Stanislavsky, interpretava o papel de Liubov Andreevna Ranevskaia, a dona do Ginjal.

O espectáculo deixa-se conduzir pela própria sequência dos actos da peça de Tchekov que tanto diz sobre as relações humanas e onde tão pouco é costume dizer que alguma coisa se passa. Quase não há intriga: uma fidalga, a proprietária arruinada de uma propriedade rural na Rússia pré-revolucionária do início do século XX, volta ao seu Ginjal que ameaça ser vendido para saldar dívidas. A dolorosa decisão de o vender e de abandonar a propriedade que durante gerações foi a casa da família, arrasta-se de adiamento em adiamento, até que um amigo próximo, filho de um mujique, servo da família, acaba por “salvar” a situação, comprando-a para ser dividida em lotes para construção de casas de campo, depois de derrubado o enorme pomar de ginjeiras. O Ginjal será destruído, todos se dispersarão, um mundo acaba, começa uma nova era. É a vida dos habitantes desta quinta durante os últimos meses antes do desmantelamento da herdade que nesta peça Tchekov toma para a construção do seu microcosmos: a proprietária viúva e o seu irmão, a sua filha e a sua filha adoptiva, a preceptora, as visitas da casa, os criados. E com a orquestração dos pedaços destas vidas nos devolve a vida inteira.

Sobre o projecto escreveu a encenadora: “Um trabalho sobre o espaço e o tempo. É como se, com os actores, partíssemos de uma página em branco ou do silêncio total, do esquecimento do sono, e depois, devagarinho, como se nos puséssemos a viver, ali, essa estranha e longa jornada fictícia, inventada por Tchekov, que se desenrola, a partir de uma aurora de primavera fria, através da descida do crepúsculo de um dia de verão, e de uma noite de baile trepidante, até uma tarde gelada de outono.

A aposta deste trabalho, é ritmar a concordância destes quatro tempos em contraponto com a meteorologia afectiva e pessoal de cada uma das personagens. Algumas delas hão-de verificar, à sua custa, que “quem volta atrás no espaço, não volta atrás no tempo”(*)

(*) Vladimir Jankélévitch”

O espectáculo estreia no Teatro do Bairro Alto a 22 de Junho e estará em cena até 30 de Julho, todos os dias de 3ª a Sábado às 21.30h e aos Domingos às 17h.



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