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A Tempestade

A Magia de Próspero ou a batuta de Luís Miguel Cintra.

A visão sobre um espectáculo de teatro pode ser totalizada num quebra-cabeças, principalmente quando falamos de uma estreia na casa em questão. No panorama teatral português A Cornucópia é, sem dúvida, uma casa sui generis, pelo trabalho que vem sendo consolidado nas mãos do mestre Luís Miguel Cintra, onde não mora a linearidade.

Com a apresentação d’”Os Gigantes na Montanha”, de Pirandello, deu-se início ao ciclo “A Caverna do Mágico”, que assinala os 35 anos de actividade do Teatro do Bairro Alto. Ao jeito de ensaio depurante, traz a lume a reflexão sobre o papel do Teatro na forma de conhecer e transformar a realidade e aludindo, no fundo, àquela que sempre foi a orientação desta companhia. Sob a pauta de balanço do seu longo historial, mas com o artifício de espelhar a meditação sobre a realidade exterior, veio a palco “A Tempestade” – de William Shakespeare.

Pensada como a derradeira obra do autor britânico, tal como n’”Os Gigantes da Montanha”, é aqui dado o protagonismo a um mago que orquestra o desafio de exorcismo teatral, pela auto-reflexão que parte da personagem, envolve o actor e chega ao público. Tudo canalizado num só espaço. É ali, na ilha de Próspero – interpretado por Luís Miguel Cintra -, que coexistem a maravilha e o espectro falhado, a magia e a arquitectura de um julgamento que o mago impõe a gentes do mundo exterior. A metáfora que aqui reside, sob a encenação, pode ser tão bem compreendida por quem não se surpreende em ver o mestre na posição de anti-Fausto, no palco de sua casa, sobre o seu público e restantes actores.

A entrada na sala faz-se embutida de um profundo silêncio e respirar mais lento, pela noção de que o espectáculo não só tem por base uma obra-mito, como dela se vestem grandes actores. Presencia-se um jogo articulado onde, tal como num tabuleiro de xadrez, é o sábio Próspero – legítimo duque de Milão, largado ao mar e cujo título e bens viu usurpados pelo seu próprio irmão – quem move cada uma das restantes personagens em direcção à sua purga, sempre com o auxílio de Ariel – um espírito do ar, adjuvante etéreo, interpretado por Dinis Gomes. Este último ajuda nos artifícios essenciais à trama, que justificam e conduzem a presença de um conjunto de náufragos na ilha, vindos de um mundo a que outrora Próspero e sua filha Miranda também pertenceram.

Mas se Próspero traz até si aqueles sobre quem pretende exercer uma acção purgatória, na ilha são os seres fantásticos que nos lançam a reflexão sobre o próprio mago, sua postura e seu ressentimento. Se Ariel é o acólito tido como duplo do seu amo, executante das suas magias como que numa missão de rectidão maior e de serventia dedicada – mesmo que dele seja grande a sede de liberdade -,  Caliban é o desafio do espectáculo, cuja complexidade deixa até hoje em aberto se o seu papel não será o principal em toda a obra, pelas questões que deixa subjacentes à sua escravidão e aguçada revolta.

Caliban coloca o actor Nuno Lopes num registo bem distante do mais recentemente popularizado, através de uma personagem que o poeta inglês Dryden analisa como “uma pessoa inexistente na Natureza”. A sua forma indistinta ao longo do texto deixa margem para a interpretação de um ser que não o é, que é bicho, peixe, monstro, ou tão somente um Homem, nativo de uma ilha a quem não lhe é reconhecida ou atribuída tal condição pela diferença de cor, rudeza ou primitivismo.

Passível de diferentes interpretações, em que o encaixe numa pele, corpo ou forma tem sido algo de bastante complexo, pode dizer-se que Caliban é – em todo o caso – uma criança perturbada. O nativo da ilha adoptado por Próspero, que o procurou civilizar, e que por ter tentado violar a sua filha Miranda se viu despojado de afecto e remetido à condição de escravo. Ora frágil, ora com ímpetos malignos, é ele quem descreve outra faceta; o mago, seus “truques” e ilusões – tão bem ilustradas ao som de um Cravo renascentista que compõe todo o ambiente musical do espectáculo – que fazem daquela ilha palco de doçuras e tormentos que procuram encaminhar cada um para a sua redenção.

Pouco tempo passado da celebração do Dia Mundial do Teatro, rendidos ficámos nós a esta adaptação, que estará em cena até dia 26 de Abril e que conta, como sempre, com a cenografia bem talhada e inigualável de Cristina Reis. Esta brinda-nos com uma última pérola para este ciclo, com elementos de cenografia e figurinos de peças de Shakespeare já apresentadas na Cornucópia: as rochas (agora em azul), as prateleiras, a figura do Bobo Trínculo (retirados do espectáculo “Cimbelino”, do ano 2000) ou ainda, por exemplo, as escadas negras que lembram a escadaria branca do espectáculo “Júlio César” e o fraque de Próspero, o mesmo que vestiu Luís Miguel na interpretação de Director no “Público”, de Garcia Lorca. O que de certa maneira acaba por superar qualquer reciclagem, deixa passar exactamente a depuração levada em cena, onde se acaba por representar não apenas a história da Ilha e de Próspero, mas também a história da ilha/Cornucópia e do seu mago/encenador Luís Miguel Cintra.



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