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IDLES @ LAV (27.11.2018)

Comunhão punk

Terça-feira, 27 de novembro do ano da (des)graça de um qualquer senhor, 22 horas e dois minutos. O apinhado palco do LAV Lisboa ao Vivo tem como pano de fundo um cartaz com flores em tons rosa e cinco letras I-D-L-E-S. O público, já quente e pronto para a cerimónia contrasta com o frio que se sente na rua. É nesse momento, nesse minuto, que se começa a sentir mais agitação no palco e as almas da plateia gritam as tais cinco letras do cartaz que são, nem mais, que o nome de uma das bandas mais entusiasmantes do momento (que talvez encontrem paralelo nos também britânicos Sleaford Mods), e composta por Joe Talbot, vocalista, Adam Devonshire, baixista, os guitarristas Mark Bowen e Lee Kiernan, e Jon Beavis, na bateria.

E é com o som deste último, o primeiro a entrar em cena, que se dá início a uma cerimónia muito especial cujo tomo inicial surge à medida que «Colossus» vai crescendo, permitindo a entrada dos outros elementos da banda. A cadência dolente e arrastada desta música, que abre o segundo álbum do quinteto de Bristol, “Joy Is na Act of Resistance”, é o ambiente perfeito para uma noite especial. E já com Joe Talbot, envergando uma t-shirt de Cats – o conhecido musical de Andrew Lloyd Webber –, agarrado ao microfone, e a bater compassado no peito, que se soltam os primeiros gritos da noite. O público, já entregue, tal a sede de ouvir e sentir a arte sonora dos Idles, respondia com os punhos no ar. De seguida, e sem paragens, o marcial «Never Fight a Man With a Perm» e o fantástico e contagiante «Mother», a primeira incursão a “Brutalism”, álbum de estreia dos Idles, misturam batidas declaradamente punks (rock) com laivos sónicos, momentos em que as guitarras de  Bowen e Kiernan fazem questão de lidera o som.

A primeira das muitas interações de Talbot com o público surge antes de «Faint in The City». Além de um muito aceitável “Boa noite”, o vocalista da banda não resiste à tentação de chamar a palco um espetador muito especial. Nada mais, nada menos, que um boneco – um sapo, ou nas palavras esforçadas de Talbot: “Sápô”. E já com o “batráquio” devolvido à plateia (mais tarde, teria honras de mais atenção), os Idles dedicam «I’Scum» a todos os presentes.  O delicioso som estridente do baixo de Adam Devonshire deixa-se envolver, amiúde, nas cordas elétricas que anunciam a tempestade que se aproxima, em forma de hino punk. E porque este ambiente de hipnose não pode, nem deve, parar, Danny Nedelko promove um saudável mosh e crowd surfing.  As palavras de ordem são, naturalmente, “Fear leads to panic, panic leads to pain; Pain leads to anger, anger leads to hate”.

Esse momento retrata um pouco o que são os Idles, uma banda de profunda consciência social e política, e sim, também emocional, que combina como poucos a brutalidade sonora e por vezes apocalíptica, com uma lírica polida. Até porque a realidade retratada pela música desta banda, verdades nuas e cruas, não ser comunicadas com pieguices. Exemplo máximo disse são «Divide & Conquer» e «1049 Gotho», duas (grandes) canções retiradas de “Brutalism” que misturam rajadas de bateria com acutilantes cordas à “deriva”. A adrenalina circulava entre palco e plateia num movimento de comunhão e partilha. Certamente imbuído nesse espírito, algumas naturais quezílias nascidas do mosh eram resolvidas com um abraço, como fez questão de referir o muito interventivo Mark Bowen na introdução da muito emocional Samaritans. Seguiram-se «Television», «Love Song» e «Great», três exemplos de uma paixão à bruta, sem complexos, que o público agarrava, entre saltos, gritos, punhos fechados e uma saudável vassalagem à entrega total do quinteto. Pelo meio, soltam-se palavras de ordem suburbana entre lutas de classes, “recados” a políticos sobre o Brexit, apelos à solidariedade social, ou contra o fascismo ou homofobia.

Entre idas ao bar, para matar a sede natural que o calor do LAV libertava, os semblantes dos presentes espelhavam a alegria de partilhar o momento. Seja quando se perguntava pelo tal sapo especial, caso os elementos da banda partilhassem o microfone ou os instrumentos com o público, ou nos constantes e sinceros elogios de Talbot ao «melhor público que encontraram na digressão». Em género de agradecimento, os Idles ofereciam «White Privilege», «Gram Rock», e «Benzocaine», e a plateia dançava, cantava, celebrava. Um dos momentos altos desse sentimento aconteceria em «Exeter», quando a banda deixou o palco ser invadido por vários elementos femininos da plateia e entregou-lhes, literalmente, o protagonismo. Microfone e instrumentos em mãos alheias, a festa continuou. Direitos de participar na festa iguais, “sons” diferentes.

Já perto do fim, chegava «Cry to Me», brilhante versão de Solomon Burke, que faz parte do alinhamento de “Joy Is na Act of Resistance”, remetia para uma atmosfera mais “arty” e solitária. As amarras soltaram-se, definitivamente, com as duas últimas da noite: «Well Done», dedicada a um inesperado e “perigoso” António Costa que se encontrava no público, e «Rottwieller». Seria mesmo essa faixa, que também encerra o segundo longa-duração da banda, sinónimo do último suspiro do concerto, sem direito a encores como é apanágio dos Idles, e que se assemelhou a um cerimonial com Adam Devonshire e, principalmente, Mark Bowen a realizarem uma espécie de exorcismo xamã onde as batidas descompassadas e gritos guturais se misturavam, deixando a ideia de estarem todos os presentes no LAV a participar num rito tribal comum num sinal de perfeita comunhão punk. Eram 23.38. Bem-hajam, rapazes!

Na primeira parte, e com assinalável pontualidade britânica, lá está, o duo John aqueceu a plateia com um som cheio de groove “apenas” com o recurso a uma bateria e uma guitarra. A apresentação durou cerca de meia hora foi baseada em “God Speed In The National Limit”, abriu o apetite dos presentes por explorar mais o trabalho da banda londrina, e foi uma boa forma de preparar o terreno para os senhores que se seguiam.



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