Nanako_Hanada

“Confissões de uma livreira” de Nanako Hanada

Quando os livros salvam vidas

Autêntico fenómeno literário no Japão, Confissões de uma livreira, de Nanako Hanada (Casa das Letras, 2025), chega às livrarias nacionais a 2 de setembro e promete ser um dos livros mais interessantes da rentrée.

Fundido romance autobiográfico com relatos urbanos, sendo inicialmente um registo à base do improviso, tornou-se inesperadamente um best-seller por terras nipónicas, tendo mesmo sido adaptado a série televisiva, e tem como mote a história de uma mulher, livreira, que se reinventou pessoal, profissional e emocionalmente através dos livros e da leitura.

Tudo nasce quando Nanako, no auge dos trinta anos e a braços com a separação do seu marido, com o qual se vai encontrando uma vez por mês até resolver a situação, e num impasse no seu percurso profissional enquanto livreira e responsável de uma loja da cadeia Village Vanguard, decide inscrever-se num site de encontros (PerfectStrangers), apresentando-se como uma «livreira sexy que sugere o livro perfeito em 30 minutos».

Essa frase sob a forma de apresentação, escrita em tom de provocação e desespero, acaba por transformar-lhe a vida e dar-lhe um novo caminho. Isto porque acaba por descobrir que o gesto de recomendar livros a estranhos é também uma forma de reconstruir a sua própria identidade. E o que poderia ser uma má ideia, torna-se numa narrativa de sobrevivência e reinvenção pessoal cada vez que «anuncia uma conversa» no site.

Por meio de um prosa leve e cativante, e na maioria das vezes divertida, o livro organiza-se em capítulos que guardam episódios curtos que retratam encontros com os utilizadores do PerfectStrangers, que vão desde homens solitários à procura de companhia, especialistas em coaching, almas (quase) gémeas a curiosos ocasionais, alguns dos quais vão passar a fazer parte da vida de Nanako.
 
Na prática, a cada encontro existe uma sugestão de livro(s), abrindo-se uma janela para emoções partilhadas (nas páginas finais existem duas listas: uma com os livros recomendados, maioritariamente de autores japoneses; e outra com títulos aconselhados a quem gostou de Confissões de uma livreira). Desses contactos, mais ou menos breves, a narrativa oscila entre o humor e a ternura, por vezes sublinhados pela frustração de Nanako quando não consegue o objetivo.

Nas entrelinhas das páginas, algumas com ilustração do utilizador do site que aceitou encontrar-se com Nanako, há uma dimensão que brota naturalmente e edifica a literatura como ponte para a intimidade, sendo a(s) livraria(s) e o(s) café(s) que servem de ponto de encontro espaço(s) de comunidade e partilha, com os livros como companheiros silenciosos em tempos de solidão. Além disso, fica também o sabor de uma crónica sobre a precariedade e o desejo de reconexão, que reflete também o mundo contemporâneo – entre a solidão tecnológica e a necessidade de afetos imediatos.

Entre forças e fragilidades, a principal marca de Confissões de uma livreira é a sua autenticidade, pois Hanada, hoje dona de uma livraria em Tóquio (Kani Books), escreve sem adornos, numa voz acessível e num caldeirão que inclui humanidade, humor e, intermitentemente, esperança. No entanto, o ritmo fragmentado dos muitos encontros, pode, porém, cansar o leitor por uma aparente monotonia em formato fórmula.

Mas, acima de tido, estamos perante um testemunho inspirador que se torna universal, juntando-se à tradição dos “livros sobre livros”, com a particularidade de partir do ponto de vista feminino, fazendo uma celebração do poder da leitura, mas também da coragem de quem, entre prateleiras, cafés e afins, e encontros improváveis, abraça o caminho para renascer e reinventar-se.



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