ResebaTheDarkWind

“Reşeba – The Dark Wind”

Filme exibido no Warm Up do Festival de Cinema e Artes Curdas no cinema São Jorge.

Foi no passado dia 7 de novembro que o Cinema São Jorge acolheu o Warm Up do Festival de Cinema e Artes Curdas. Um Festival que irá vislumbrar a luz do dia pela primeira vez em março de 2018, mas que deixou provas do seu potencial impressas nas memórias da festa da sua antecipação e colocou todo um São Jorge de mãos nos olhos e lágrimas no ar.

Por entre grupos que alegremente dançavam no hall de entrada do cinema, lá fomos nós entrando a fim de conseguirmos o nosso bilhete. Sim, porque apesar de este ser o primeiro contorno deste festival, nem por isso o espaço deixou de se encher como se de um evento cultural de enorme reconhecimento se tratasse.

Fomos até lá ver “Reşeba – The Dark Wind”, um filme de Hussein Hassan Ali que nos chega através da Jîyan, a Associação Sem Fins Lucrativos que é responsável pela criação deste novo Festival. Uma nova festa em prol do movimento curdo e que pretende ser um ponto de viragem na percepção nacional acerca do mesmo.

Mas voltemos ao filme. Este nasce no seio da comunidade Yazidi, que se tornou mundialmente conhecida quando em 2014 o ISIS deu início a uma campanha brutal para a sua eliminação. Para os mais desconhecedores, e em traços gerais, esta é uma das comunidades mais distintas do Iraque já que, apesar do seu cunho cristão, a sua religião e crenças são muito anteriores quer a Cristo ou a Maomé, provindo diretamente dos sistemas de crenças da Mesopotâmia. Na verdade,  as suas crenças são como que uma mistura entre o islão e o cristianismo e, para agravar a sua complexidade, são acérrimos defensores da reencarnação e não se regem por nenhum livro sagrado.

A história começa na região de Shigal, com o nascimento de um novo amor entre o soldado Yazidi (Rekesh Shabaz) e Pero (Diman Zandi), numa aldeia ‘relativamente’ tranquila. É então que através da acurada direção de fotografia de Touraj Aslani que nos deixamos levar pela mão das imagens que nos contam, através de uma exagerada teatralidade, a invasão das tropas do ISIS que arremessam contra toda a população. Vemos o içar da bandeira do Islão em substituição da do Curdistão, uma cultura que se queima e decapita aos poucos e suspiramos pela salvação de Pero, que foge junto com várias outras mulheres. O exagero do brilho e tratamento fotográfico que é dado a esta sequência é o que permite que não fervamos quando observamos o grand finale em que Pero é encontrada, sequestrada e posteriormente traficada. Sentimos como que uma uma sensação doentia quando uma vozinha nos diz ao ouvido ‘tu sabias que isto ia acontecer’, até que somos chamados à realidade após Yazidi reencontrar Pero e regressar à aldeia.

Aqui tem início um script extremamente árido e é quando Reko se pergunta em voz alta, “O que há de errado com minha família?”, que realmente nos apercebemos que a fragilidade dos valores humanos tem início nas desconexões familiares, muita vezes tradicionais, e que o nosso papel não é nem pode continuar a ser de meros espetadores. Dá-se uma violenta progressão do papel que então desempenhávamos face ao grande ecrã. É aqui que então sentimos uma violenta progressão no papel de até então espetadores e através de sequências rápidas mas não menos hostis que, quando o filme acaba, nos sentimos infinitamente pequenos face à lembrança do que despoletou o filme e as sequências finais.

“Reşeba – The Dark Wind” não é um filme estética ou tecnicamente arrebatador, mas consegue sê-lo pela teatralidade com que trata um dos temas mais atuais dos tempos modernos para nos colocar a pensar antes num outro, não menos atual, mas menos (aparentemente) sangrento nos media e nos seios das (que podiam ser nossas) famílias.



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