CORNUCÓPIA ESTREIA MORTE DE JUDAS DE PAUL CLAUDEL

Com os cortes no financiamento do Teatro da Cornucópia pelo Ministério da Cultura a Companhia reformulou a sua programação que tomou como tema a frase de Heiner Müller em “A Missão: A Revolução é a Máscara da Morte/A Morte é a Máscara da Revolução”. O espectáculo “Fim de Citação” foi o prólogo de um díptico em que “A Catatua Verde” de Schnitzler deveria dialogar com “A Varanda” de Jean Genet. “A Cacatua Verde” (em co-produção com o Teatro Nacional D.Maria II) está agora em cena com um enorme êxito no Teatro D. Maria II, mas “A Varanda” teve de ser adiada para o Outono, início da temporada 2011/2012. Entretanto a Companhia agregou ao ciclo duas outras produções de menor dimensão, que o completam: outra peça (póstuma) de Jean Genet: “Ela”, um acto em que tudo se desenrola em torno da situação de fotografar o Papa e “Morte de Judas” de Claudel, um monólogo do autor mais confessadamente católico e mais controverso da história da dramaturgia moderna. “Ela” estreará no início de Junho e “Morte de Judas”, para uma curta carreira, já no dia 24 de Março.

É a temática religiosa que obviamente liga os dois textos. Mas é ainda a relação entre Máscara/Vida/História que em todas as peças está em causa. O retrato do Papa em “Ela”, de um autor ateu e profundamente radical, mais que um ataque à Igreja, é um jogo sobre a tensão entre a Imagem e o Ser à escala de toda a Civilização Ocidental com o papel que a Igreja nele tem. “Morte de Judas”, escrito de um ponto de vista católico, é outro jogo escrito por outro solitário, sobre os valores do Bem e do Mal na História da Cultura. Claudel era um dos autores mais admirados por Genet. Por acaso ou não, ambos os dramaturgos têm uma relação difícil com o teatro. E os dois são poetas.

Entretanto, e ao longo da temporada, a co-produção da Cornucópia com a companhia Nao d’amores (que este ano celebra 10 anos de existência), “Dança da Morte/Dança de la Muerte”, na qual participam Sofia Marques e Luis Miguel Cintra, continua a sua apresentação em digressão por Espanha. Estará em Madrid, convidada pela Companhia Nacional de Teatro Clásico durante 3 semanas de Abril e estão previstas apresentações em Barakaldo (Bilbao), Alcalá de Henares, Ribadavia e no Festival de Olite.

No dia 27 de Março, DIA MUNDIAL DO TEATRO, a Cornucópia festejará em duas salas ao mesmo tempo: no Teatro Nacional Dona Maria II e na sua própria sala, o Teatro do Bairro Alto. “Morte de Judas” seguirá em digressão.

MORTE DE JUDAS de Paul Claudel

Um espectáculo de Cristina Reis, Dinarte Branco e Luis Miguel Cintra

Tradução: Regina Guimarães // Judas: Dinarte Branco; Voz: Luis Miguel Cintra

“Morte de Judas” é como uma carta do Tarot. Ao lado da cruz, imagem simbólica de uma História feita à luz da ideia de um Deus que se fez carne, num curto monólogo, Claudel mostra uma “carta” que não é a da cruz de Cristo, com outro madeiro, a figueira, onde Judas, o Apóstolo para sempre associado ao Mal, à Traição e ao Demónio, depois de trair Cristo, se enforcou. Faz o exercício de lhe dar voz, de, em oposição aos textos sagrados, contar a Morte de Cristo pelo ponto de vista de quem desencadeou toda a Paixão. Ao contrário dos Evangelhos que mitificam a narrativa dos acontecimentos, Judas fala do lugar do Homem, fala enforcado, e resgata a sua condenação moral com um ponto de vista exemplarmente dialéctico em que demonstra como a sua traição serviu Deus. A figueira, árvore viva e de ramos em todas as direcções torna-se no símbolo da crítica, da lucidez, do materialismo, do próprio “livre arbítrio”, do próprio Homem, e opõe-se para sempre à cruz, madeira já morta, indicadora do caminho da salvação. É Dinarte Branco quem interpretará essa fala do enforcado. Trabalhou o monólogo em diálogo com Luis Miguel Cintra e Cristina Reis. O resultado é um estranho e incómodo “objecto”, o monumento a que o Mal não tem direito. Essa estátua ali fica para sempre e afirma, por outras palavras a frase popular: “Deus escreve direito por linhas tortas”. E que é o Homem quem trabalha para Deus.

Curta série de representações no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa // Dias 24, 25, 26, 27 e 31 de Março e 1, 2 e 3 de Abril // De 5ª a Sábado às 21.30h. Domingo às 16h.



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