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«A Prodigiosa Transformação» e o preço de ser estrangeiro

Samir revisita a história dos trabalhadores italianos na Suíça para perguntar quem, afinal, decide quem é «estrangeiro».

Samir, realizador suíço nascido em Bagdade, regressa ao documentário de autor com «A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros», um ensaio sobre a migração italiana para a Suíça entre o pós-guerra e a atualidade. O filme, apresentado em 2024 no Locarno Film Festival e no El Gouna Film Festival, estreia esta quinta-feira, 23 de julho, nas salas portuguesas, com sessões em Lisboa, no Cinema Fernando Lopes, em Coimbra, na Casa do Cinema, e em Almada. Num momento em que a Europa volta a discutir fronteiras e pertença, Samir usa fotografias de família, animação e arquivo inédito para mostrar como a palavra «trabalhador» se tornou, silenciosamente, sinónimo de «estrangeiro». É cinema independente que interpela diretamente o presente.

O ponto de partida: os operários que a Suíça preferiu esquecer

«A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros» arranca de um facto simples e incómodo: durante mais de um século, o Partido Social-Democrata suíço e os sindicatos moldaram uma cultura operária sólida, feita de solidariedade e conquistas sociais. Foi essa mesma cultura, escreve Samir, que colapsou por completo a partir da década de 1970 — e que hoje já ninguém invoca. O termo «trabalhador» praticamente desapareceu da linguagem corrente suíça; quando alguém fala de um «estrangeiro», é frequentemente a um trabalhador manual que se refere.

O documentário reconstitui o período em que quase um milhão de migrantes, a maioria italianos, chegaram à Suíça a partir do início dos anos 1960, fugindo à pobreza do pós-guerra para responder à procura de mão de obra de uma economia em forte crescimento. O chamado Estatuto do Trabalhador Sazonal prometia melhorias sociais, mas a Suíça recusou-se a garantir o direito ao reagrupamento familiar — uma decisão que separou famílias inteiras e gerou o fenómeno das «crianças escondidas», filhos de migrantes ocultados das autoridades de imigração para poderem viver, ilegalmente, junto dos pais. É desse ponto de partida histórico e íntimo que o filme se ergue, sem nunca se transformar em aula de história.

A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros — imagem de arquivo
Material de arquivo usado por Samir para reconstituir a história da migração italiana na Suíça.

A linguagem do filme: entre o arquivo e a animação

Samir tem uma assinatura reconhecível, construída ao longo de mais de quarenta filmes: cruzar a grande História com o arquivo pessoal. Aqui, o realizador recorre a fotografias privadas de família, imagens de arquivo inéditas, excertos musicais e sequências de animação para narrar uma história que poderia facilmente pesar como denúncia, mas que opta por um tom envolvente, por vezes até divertido. A escolha não é ingénua — é um método de trabalho que já usara em «Forget Baghdad» e em «Iraqi Odyssey», onde a memória coletiva se cruzava com a biografia do próprio cineasta, filho de pai iraquiano e mãe suíça.

A montagem de Enrico Fröhlich equilibra testemunhos de sindicalistas, jornalistas e antigos trabalhadores sazonais com material visual que nunca se acomoda ao didatismo. As sequências animadas, assinadas por Frédéric Hein, funcionam como pontes entre o que o arquivo fotográfico não regista — os quartos minúsculos, os barracões, a angústia da fronteira — e a experiência subjetiva de quem viveu essa história. É um cinema de montagem no sentido mais nobre do termo: a colagem de materiais heterogéneos a produzir sentido novo.

A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros — fotograma do documentário
Samir cruza fotografia de família e arquivo inédito num documentário sobre trabalho e pertença.

As personagens e o que carregam

O filme dá voz a figuras que encarnam diferentes camadas desta história: Vania Alleva e Vasco Pedrina, dirigentes sindicais que testemunham por dentro o percurso — e as contradições — do movimento operário suíço; Concetto Vecchio, jornalista e escritor que documentou a emigração italiana; e Salvatore Di Concilio, cuja presença ancora o filme na experiência vivida de quem chegou como trabalhador convidado. Nenhuma destas personagens é tratada como símbolo abstrato — Samir prefere deixá-las falar com a ambiguidade e a complexidade de quem viveu o processo por dentro, incluindo as contradições dos próprios sindicatos, que em certos momentos se opuseram a medidas que beneficiariam os trabalhadores migrantes.

Por trás de cada testemunho está uma pergunta que o filme nunca formula de forma explícita: o que significa pertencer a uma classe quando essa classe deixa de ser vista como «sua»? As personagens carregam o peso de décadas de políticas de imigração cada vez mais restritivas, mas também a resiliência de quem construiu, com o próprio trabalho, um país que insistia em não as reconhecer como parte dele.

A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros — testemunhos
Sindicalistas e antigos trabalhadores sazonais dão corpo às testemunhas do filme de Samir.

O que o filme diz (e o que cala)

No centro do ensaio está a iniciativa popular lançada em 1970 pelo político conservador James Schwarzenbach, que propunha a expulsão de mais de metade dos chamados «trabalhadores convidados». Os eleitores suíços — numa altura em que as mulheres ainda não tinham direito de voto — rejeitaram a proposta por margem reduzida. Samir usa este episódio como charneira: o racismo, sugere o filme, já tinha chegado ao centro da sociedade suíça, e as marcas dessa proximidade persistem em votações sobre imigração que se sucederam nas décadas seguintes, cada vez mais restritivas.

O documentário não esconde a atualidade incómoda do seu material de arquivo: mais de 40% da população suíça tem hoje origem migrante, e uma parte significativa dessas pessoas continua sem direitos de cidadania plena, apesar de viver, trabalhar e pagar impostos no país há décadas. O filme não avança soluções nem faz proselitismo — cala-se, deliberadamente, sobre o desfecho político do problema que expõe. Prefere deixar ao espectador a tarefa de ligar os pontos entre o que aconteceu com os «trabalhadores sazonais» italianos e o que acontece, hoje, com outras vagas de migração para a Europa.

A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros — imagem promocional
Imagem promocional de «A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros», de Samir.

Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal

«A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros» não é um documentário fácil no sentido do entretenimento imediato, mas é notavelmente acessível: a montagem ágil, o humor discreto e a dimensão pessoal da narração afastam-no do panfleto académico. É filme para quem gosta de cinema de autor com espinha política, para quem acompanha o trabalho de documentaristas como Samir desde «Iraqi Odyssey», e para quem quer perceber, através de um caso concreto — o da imigração italiana na Suíça —, mecanismos que se repetem hoje noutras geografias europeias, Portugal incluído.

A estreia em Portugal acontece esta quinta-feira, 23 de julho, distribuída pela Risi Film, com destaque para a sessão em Lisboa no Cinema Fernando Lopes (Universidade Lusófona), que mantém o filme em cartaz até 31 de julho, incluindo uma sessão especial no sábado, dia 25, com conversa com a historiadora Raquel Varela. Há também sessões na Casa do Cinema de Coimbra e uma exibição especial em Almada, na Academia Almadense, seguida de conversa com um dirigente sindical da CGTP-IN — um gesto de programação que devolve ao filme o diálogo social de onde nasceu. Depois de ter passado pela Festa do Cinema Italiano em foco dedicado à Suíça, chega agora ao circuito de cinema independente e de autor com a força de quem tem uma pergunta incómoda para fazer ao presente.

Samir não filma um documentário de arquivo nostálgico, mas um espelho colocado deliberadamente na direção errada — a nossa. «A Prodigiosa Transformação da Classe Operária em Estrangeiros» pertence a essa linhagem de cinema independente europeu que recusa a distância confortável entre passado e presente, entre «eles» e «nós». Ao escolher a Suíça dos anos 1960 e 1970 como estudo de caso, o realizador constrói um argumento que ultrapassa fronteiras: o de que a palavra «estrangeiro» é sempre, também, uma decisão política sobre quem merece pertencer. Nas salas portuguesas onde estreia esta semana, o filme funciona como convite a pensar as nossas próprias contradições. Nem sempre confortável, sempre necessário.



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