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Ifigénia @ Capitólio (19.11.2025)

A sala do Capitólio compôs-se para receber esta encenação de “Ifigénia” com texto de autoria
de Sílvia Zarco que reinterpreta o texto de Eurípides, e direção de Eva Romero, espetáculo
inserido no Festival Internacional de Teatro Clássico de Mérida.

Nesta abordagem não vemos só a tragédia de Ifigénia, esta versão faz coincidir em palco, nas
suas histórias de tragédia, Ifigénia, Clitmenestra, Hécuba e Polixena, com a referência a
Cassandra permeando o espaço e quase que assombrando a ação.

A violência que permeia as tragédias gregas é permanente e preponderante, as mulheres as
suas vítimas mais numerosas e mais sofridas, é aqui que vive esta reinterpretação. O preço da
glória dos homens é a violência brutal a que as mulheres estão sujeitas, seja pelas mãos dos
próprios homens, seus mestres, senhores, reis, maridos, irmãos e pais, seja pelos caprichos
inexoráveis dos Deuses.

Propõe-se um olhar sobre a violência contra as mulheres como norma socialmente aceite e
considerada inevitável, uma herança inescapável, quase fio do património genético de se ter
nascido mulher, que se vai perpetuando e perdurando até se lhe perder o rasto e tornar-se
fibra que compõe o tecido da sociedade e que se manifesta como determinante na relação
homem, mulher e poder.

A tragédia original centra-se no dilema de um homem, entre a sua fidelidade aos deuses e o
amor pela sua filha, aparentemente um dilema impossível que, aparentemente, castigará este
homem, qualquer que fosse a sua decisão. No entanto, observando o desenrolar da ação, é
legítimo inferir que Agamemnon sacrifica a sua filha, não pela vitória do seu povo ou da sua
demanda, mas apenas pela hipótese de poder partir, apenas pela leve brisa da possível vitória,
da glória, do poder. A vida da sua filha, pouco mais vale que uma sugestão de lisonja à sua
potencial glória enquanto senhor da guerra e comandante de homens. Este é o valor que a
mulher tem, é dispensável, será sempre mais tolerável a violência exercida sobre ela do que a
sugestão da cobardia ou de o amor de um homem pelo sangue do seu sangue.

Fica bem patente, nesta encenação, o lugar da mulher na tragédia e na vida, como se aceita
que seja contada como despojo de guerra, como resto que fica pelo caminho no caminho de
sangue e violência que os homens percorrem até ao poder.



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