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O conto de fadas que a Chanel guardava na estante

No Grand Palais, Matthieu Blazy transformou a biografia de Gabrielle Chanel num conto de fadas de alta-costura — e assinou o desfile que definiu a semana em Paris.

Foi a 7 de julho, no Grand Palais, que Matthieu Blazy apresentou “Gaby and the Beanstalk”, a sua segunda coleção de alta-costura para a Chanel, no arranque da semana de Alta-Costura de Paris. O designer franco-belga, que chegou à maison vindo da Bottega Veneta, transformou o desfile Outono-Inverno 2026/27 num conto de fadas costurado à mão, inspirado num livro de contos que encontrou na biblioteca pessoal de Gabrielle Chanel. Numa semana em que Paris concentrou todos os olhares da moda mundial, foi este o desfile que definiu a conversa — e que confirma Blazy como o autor do novo capítulo da casa da dupla C.

O momento: o Grand Palais engolido por um jardim impossível

A semana de Alta-Costura de Paris decorreu de 6 a 9 de julho e não faltaram candidatos ao desfile do momento: a Schiaparelli abriu com “The Call of the Void”, uma coleção construída com látex, silicone e flores secas, e Jonathan Anderson apresentou a sua segunda costura para a Dior inspirado nas esculturas de Lynda Benglis. Mas foi na tarde de terça-feira que a semana encontrou o seu centro de gravidade. A Chanel deixou que o seu salão fosse engolido por um jardim descontrolado: caules de feijoeiro gigantes a trepar até ao teto do Grand Palais, flores enormes a desabrochar com um brilho quase inquietante.

A origem da coleção é, ela própria, digna de conto: numa visita ao apartamento de Gabrielle Chanel na rue Cambon, Blazy encontrou numa estante um pequeno livro encadernado em pele — “Les Fées”, de Charles Perrault. A partir daí, construiu uma tese elegante: a ascensão de Coco, do orfanato num convento ao topo da moda mundial, é a sua própria versão de “João e o Pé de Feijão”. Daí o título, “Gaby and the Beanstalk” — Gaby era um dos diminutivos de Gabrielle.

Na primeira fila, o elenco confirmava a dimensão do acontecimento: Tilda Swinton, Michelle Yeoh, Catherine Deneuve, Pedro Pascal, Teyana Taylor e Alexa Demie assistiram à história a desenrolar-se entre os caules.

Chanel Alta-Costura Outono-Inverno 2026/27 — look de abertura no Grand Palais
Chanel Alta-Costura Outono-Inverno 2026/27, Grand Palais, Paris. Fotografia: Estrop/Getty Images.

A estética: tweed que engana o olho e saltos com ovos dourados

O desfile abriu com uma modelo de bob muito “à Coco” num conjunto trompe l’oeil em roxo e vermelho — um falso tweed construído em bordado de contas, com rebentos de feijão minúsculos a germinar na superfície. Foi a declaração de intenções de toda a coleção: os códigos da casa estão todos lá, mas ampliados, aligeirados, reinventados. O tweed surge quase sem peso, em versões gasosas; o icónico fato Chanel aparece em mousseline de seda, trocando a autoridade estrutural pela fluidez.

Depois, o jardim floresceu literalmente sobre os corpos: vinhas e pétalas a trepar por vestidos, bordados de vegetação a evocar uma princesa fechada na torre, um vestido de rede que trazia a Pequena Sereia à memória, três looks de ráfia desfiada em referência direta ao espantalho de “O Feiticeiro de Oz”. Nos detalhes, Blazy foi ainda mais longe: saltos esculpidos em forma de vagens de ervilha, borboletas e ovos dourados; minaudières em forma de feijões coloridos, galinhas gordas e ursos adormecidos.

Chanel Alta-Costura FW26/27 — tweed trompe l'oeil com bordado de rebentos
O falso tweed em bordado de contas, um dos gestos-chave da coleção. Fotografia: Stephane Cardinale/Corbis via Getty Images.

O porquê agora: a moda precisa de voltar a contar histórias

Este desfile chega num momento muito particular da moda. A indústria vive a maior dança de cadeiras criativas da sua história recente, e as grandes casas procuram menos um estilista do que um narrador — alguém capaz de dar sentido, e não apenas produto, a um património centenário. Blazy respondeu com storytelling puro: em vez de reverência ao arquivo, uma leitura biográfica e quase literária da fundadora.

Há também um sinal de época no próprio registo do imaginário. Depois de anos dominados pelo minimalismo silencioso do “quiet luxury”, a alta-costura está a reabilitar a fantasia, o ornamento e o humor — mas ancorados em técnica de atelier, não em espetáculo vazio. O maximalismo emocional de Blazy, tal como o surrealismo material de Roseberry na Schiaparelli, sugere que o pêndulo está a virar para uma moda que volta a querer fazer sonhar.

Chanel Alta-Costura FW26/27 — vestido com vinhas e pétalas bordadas
O jardim de conto de fadas a florescer sobre os corpos. Fotografia: Stephane Cardinale/Corbis via Getty Images.

Quem está a usar (e como)

A primeira fila deu imediatamente pistas de como este universo se traduz fora da passerelle. Tilda Swinton e Catherine Deneuve representam o eixo clássico da casa; Alexa Demie e Teyana Taylor mostram como os códigos Chanel se cruzam hoje com uma sensibilidade mais jovem e pop. E a presença de Pedro Pascal confirma a alfaiataria Chanel como território cada vez menos exclusivamente feminino.

No dia-a-dia, a lição do desfile não está em vestir um conto de fadas da cabeça aos pés, mas nos gestos: um tweed usado com leveza sobre transparências, acessórios com humor — uma mala escultural, um salto inesperado —, correntes e cintos sobrepostos com aparente descuido, como se tivessem sido “atirados à pressa”, tal como Blazy fez nos looks mais simples da coleção. O fairycore encontra aqui a sua versão adulta e sofisticada.

Chanel Alta-Costura FW26/27 — detalhe de acessórios e sobreposições
Correntes e cintos sobrepostos “como se atirados à pressa”. Fotografia: Stephane Cardinale/Corbis via Getty Images.

Onde encontrar — e a que preço

Convém dizer o óbvio: alta-costura não se compra, encomenda-se. Cada peça é feita por medida nos ateliers da rue Cambon, para uma clientela de poucas centenas de pessoas em todo o mundo, com valores que começam habitualmente nas dezenas de milhares de euros e podem ultrapassar as centenas de milhares nas peças mais trabalhadas. É o laboratório da casa, não a sua montra comercial.

Mas o espírito da coleção vai escorrer, como sempre, para o prêt-à-porter Chanel das próximas estações — em Portugal, disponível em Lisboa, na Avenida da Liberdade — e, mais democraticamente, para as tendências que as marcas acessíveis vão absorver: o tweed descontraído, os bordados botânicos, os acessórios figurativos com humor. Quem quiser a versão imediata do imaginário encontra-a no vintage e no mercado de segunda mão, onde o tweed Chanel de outras décadas continua a ser das compras mais seguras da moda.

Chanel Alta-Costura FW26/27 — silhueta final
A alta-costura como laboratório: peças por medida dos ateliers da rue Cambon. Fotografia: Estrop/Getty Images.

Conclusão editorial

“Gaby and the Beanstalk” fica como o desfile que confirmou aquilo que a estreia de Blazy tinha prometido: a Chanel voltou a ter um autor. Ao transformar a biografia de Gabrielle num conto de fadas — a órfã que trepou o seu próprio pé de feijão —, Blazy fez algo raro na moda contemporânea: usou o arquivo não como museu, mas como matéria viva de narrativa. Numa indústria ansiosa, saturada de lançamentos e de diretores criativos em rotação permanente, esta coleção lembra que a moda, no seu melhor, continua a ser uma máquina de contar histórias. E que, de vez em quando, ainda é capaz de um final feliz.



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