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“Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical

“Sr. Engenheiro” é o espetáculo que Portugal precisava e, durante anos, não teve coragem de fazer. Ri-se muito — mas é um riso amargo, que fica cá dentro muito depois de o pano cair. Fica no Tivoli BBVA até 10 de maio antes de rumar ao Coliseu Porto AGEAS. Corram a ver — e levem quem ainda acredita que tudo não passa de uma cabala.

Há espetáculos que nos fazem rir. E há aqueles em que o riso é a única resposta possível — porque chorar seria demasiado “triste”. “Sr. Engenheiro” Alegadamente Um Musical, que estreia no dia 1 de Abril no Teatro Tivoli BBVA, pertence inequivocamente a esse segundo grupo: um espetáculo que nos faz rir para não chorar, que nos recorda, com uma clareza desconfortável, como é possível que uma situação destas se passe no nosso país — e como a corrupção parece sair sempre impune.

Um inédito histórico: satirizar o poder em tempo real

Comecemos pelo elefante na sala — ou, melhor dizendo, pelo engenheiro nela. “Sr. Engenheiro” é, tanto quanto me recordo, a primeira vez que um espetáculo satírico de grande formato é apresentado em Portugal sobre um politico ainda vivo e, quem sabe, ainda com aspirações de voltar ao ativo. A peça não se esconde atrás de eufemismos: inspira-se declaradamente em José Socrates, ex-primeiro-ministro português envolvido num processo de corrupção que se arrasta há mais de uma década entre recursos, adiamentos e artimanhas judiciais.

“As pessoas com poder não são investigadas, são vitimas de cabalas”

Que isto aconteça num palco nacional, com bilheteira aberta ao público, com nome e apelido (alegadamente) à vista, é em si mesmo um ato de coragem cultural que merece ser sublinhado. Noutros países, este espetáculo seria uma instituição. Em Portugal, é uma estreia.

Uma vida inteira em palco — da infância ao banco dos réus

A estrutura dramática acompanha o percurso do protagonista desde os seus modestos começos nas Beiras até à vida dourada em Paris, passando por todos os capítulos que o imaginário coletivo nacional conhece de cor: o Magalhães, o Freeport, o FMI, o PEC4, os encontros com Lula da Silva e Hugo Chavez, e, claro, os amigos muito amigos. A entourage está toda presente — o grande amigo generoso, a namorada, a assessora que acredita piamente nele (ou talvez não), o motorista que sabe demais e a procuradora que insiste em querer perceber onde acaba a amizade e começa o favor. É uma tragicomédia no sentido mais rigoroso do termo: há momentos de comédia pura e desenfreada, mas há também instantes em que o riso congela na garganta porque o que se passa em palco é demasiado parecido com o que aconteceu na realidade — e a impunidade que transparece é, essa sim, de partir o coração.


Fotografias de cena de Pedro Sadio

 

Manuel Marques: a melhor performance da sua carreira?

Num espetáculo desta dimensão e ambição, seria fácil que tudo gravitasse em torno da figura central e acabasse por esmagar o resto. Mas Manuel Marques faz algo mais difícil: eleva o espetáculo sem o sequestrar. O ator entrega uma performance fisicamente extenuante — está em palco praticamente o tempo todo, em constante transformação, exigindo ao corpo e à voz um esforço que se vê e se sente. Constrói um retrato que oscila entre o ridículo e o patético com precisão cirúrgica, sem nunca cair no caricaturesco fácil. Há momentos de pura genialidade cómica — uma pausa calculada, um olhar de cumplicidade para a plateia, um gesto aparentemente inocente — que provocam gargalhadas incontroláveis. É, sem hesitação, uma das melhores interpretações da sua carreira.

O humor de “Pôr do Sol”, agora com dentes políticos

Quem conhece o trabalho de Henrique Dias e Rui Melo reconhece imediatamente a assinatura: um humor que parte do absurdo do quotidiano para revelar verdades mais ou menos retorcidas (depende do receptor). Em “Sr. Engenheiro”, essa mesma voz criativa ganha uma dimensão acrescida — está agora ao serviço de uma sátira com alvo declarado, e o resultado é devastador. A encenação de Rui Melo imprime ao conjunto um ritmo cerrado, sem pausas desnecessárias. O riso é constante, a alternância entre os momentos musicais e o desenrolar da história e a simplicidade dos adereços e cenários imprimem uma cadência ao espetáculo que o torna demasiado curto e os 90 minutos passam num abrir e fechar de olhos.

Música ao vivo e uma produção de primeira linha

A componente musical, sob direção de Artur Guimarães — maestro e pianista em palco —, é uma das grandes revelações da noite. Os músicos em cena conferem ao espetáculo uma outra dimensão, elevando-o mas sem retirar ao espectador o foco do mesmo. Com mais de 75 profissionais envolvidos e 216 horas de ensaios ao longo de 36 dias, a produção da UAU é das mais ambiciosas desta temporada em Lisboa. A cenografia e figurinos de Marta Carreiras criam um universo visual coerente e expressivo, e o elenco — Alexandre Carvalho, Brienne Keller, Jorge Mourato, Marta Andrino, Miguel Raposo, Samuel Alves, Sílvia Filipe, Sissi Martins e Rita Cruz — funciona com uma generosidade de conjunto que raramente se vê.

Bilhetes disponíveis na Ticketline  ·  Em cena até 10 de maio no Teatro Tivoli BBVA, Lisboa  ·  Coliseu Porto AGEAS: 14 a 17 de maio



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