«O Canto das Árvores Esquecidas»: a ternura filmada como assombro
Premiada em Veneza, a estreia de Anuparna Roy transforma um apartamento partilhado em Mumbai num mapa do que duas mulheres não conseguem dizer uma à outra.
Estreou esta quinta-feira, 16 de julho, no Cinema Medeia Nimas, em Lisboa, «O Canto das Árvores Esquecidas» (Songs of Forgotten Trees, 2025), primeira longa-metragem da realizadora indiana Anuparna Roy. O filme valeu-lhe o prémio de Melhor Realização na secção Orizzonti do Festival de Veneza de 2025, um feito inédito para uma cineasta indiana naquela competição, e passou ainda pelo LEFFEST, em Lisboa, e pelo Festival de Londres. Distribuído pela Leopardo Filmes, chega agora ao circuito de cinema independente português, com sessões em Lisboa e no Porto. É, discretamente, uma das estreias mais valiosas da semana em Portugal.
O ponto de partida: um quarto sublocado em Mumbai
A premissa cabe numa frase e engana pela simplicidade. Thooya, migrante e aspirante a atriz, trabalha secretamente como profissional do sexo em Mumbai; ao sublocar o apartamento onde vive a Swetha, também ela migrante, funcionária de um call center, nasce entre as duas uma ligação inesperada, que as feridas do passado virão pôr à prova. Sobre este esqueleto mínimo, Anuparna Roy constrói qualquer coisa de muito mais raro: um filme sobre a intimidade possível entre duas mulheres que a cidade — e o país — raramente vê.
Mumbai, aqui, não é o cenário vibrante do cinema popular indiano, mas uma máquina de anonimato. As duas protagonistas vêm de fora, de margens geográficas e sociais distintas, e é precisamente essa condição partilhada de estrangeiras dentro do próprio país que serve de argamassa à relação. Roy, nascida no Bengala Ocidental e estreante na longa-metragem, filma a metrópole a partir de dentro de um apartamento, como quem entende que as grandes cidades se medem melhor nos seus interiores exíguos do que nas suas avenidas.
A linguagem do filme: o intervalo como matéria-prima
Com apenas 77 minutos, «O Canto das Árvores Esquecidas» recusa a gramática da explicação. Roy prefere o intervalo, a pausa, o plano que se demora depois de a ação terminar. As cenas não se encadeiam por lógica causal; acumulam-se como fragmentos de uma memória que não se sabe bem se foi vivida. A fotografia de Debjit Samanta trabalha uma luz doméstica, quente e gasta, de candeeiros e fins de tarde, que embrulha as personagens numa espécie de âmbar — visível, aliás, no belíssimo cartaz português, com as duas mulheres à janela, banhadas em amarelo.
Há uma aposta formal arriscada nesta contenção. O filme avança devagar, quase sem música, e pede ao espectador que habite os silêncios em vez de os atravessar. A emoção chega fria e tardia, como um sentimento que não encontra lugar para sair. É um cinema de subtração, mais próximo de certas linhagens do cinema de autor asiático contemporâneo do que de qualquer tradição narrativa dominante — e é justamente essa singularidade que o júri de Orizzonti terá reconhecido ao premiar a realização.

As personagens e o que carregam
Naaz Shaikh e Sumi Baghel compõem as duas protagonistas com uma economia admirável. Thooya vive numa dupla clandestinidade: esconde o trabalho sexual que financia o sonho de ser atriz e esconde, sobretudo, a vulnerabilidade que esse arranjo lhe impõe. Swetha, presa aos horários noturnos do call center e às expectativas de uma família distante, carrega outra forma de invisibilidade, a de quem trabalha para uma voz sem rosto do outro lado do mundo.
O que se estabelece entre elas nunca é nomeado, e essa recusa é a decisão mais inteligente do filme. Amizade, cumplicidade, desejo, reconhecimento mútuo — a relação existe na zona indecisa entre todas estas palavras. Roy filma o afeto não como presença declarada mas como assombro: gestos que se evitam, olhares que se desviam, uma ternura coberta de distância. As feridas do passado, quando emergem, não produzem o melodrama esperado; produzem sobretudo a consciência de que cada uma delas sobreviveu até ali sozinha.
O que o filme diz (e o que cala)
Por baixo da superfície quieta, o filme é atravessado por uma leitura política precisa. As árvores do título — testemunhas esquecidas, presenças que permanecem quando tudo o resto se desfaz — funcionam como figura do que a modernização indiana deixa para trás: as mulheres migrantes, os trabalhos invisíveis, os afetos que não cabem na norma. A crítica internacional, da Sight and Sound à imprensa dos festivais, leu-o como uma ode à amizade feminina e à resiliência nas grandes cidades, e a leitura é justa, desde que não se lhe retire o gume.
Porque aquilo que o filme cala é tão eloquente como aquilo que diz. Roy não faz do trabalho sexual de Thooya um caso moral, nem da precariedade de Swetha uma tese sociológica. A câmara não julga, não resgata, não pede lágrimas. Essa recusa do sentimentalismo é, num cinema mundial saturado de dramas de denúncia, a sua forma mais funda de respeito pelas personagens — e o sinal de uma realizadora que confia no espectador.

Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal
«O Canto das Árvores Esquecidas» é um filme para quem procura no cinema independente aquilo que o multiplex não oferece: tempo, ambiguidade, uma relação humana filmada à escala real. Quem precisar de resolução narrativa ou de emoção sublinhada sairá inquieto; quem aceitar a proposta encontrará um dos primeiros filmes mais seguros do ano e uma voz nova do cinema indiano que importa seguir.
Em Lisboa, o filme está em cartaz no Cinema Medeia Nimas, com sessões ao longo das próximas semanas; no Porto, passa no Teatro Campo Alegre até 22 de julho. Nas estreias desta semana em Portugal, dominadas pelo grande espetáculo, é a alternativa de autor por excelência — e mais uma prova de que o circuito independente nacional continua a fazer chegar às salas o melhor dos festivais internacionais.
Conclusão editorial
Num momento em que o cinema indiano independente vive uma visibilidade internacional rara, a estreia de Anuparna Roy chega como confirmação e promessa. «O Canto das Árvores Esquecidas» não tem a ambição totalizante de outros vencedores de festivais; tem, em vez disso, a precisão de quem sabe exatamente o que quer filmar e o que quer omitir. É cinema de câmara, frágil e obstinado, que trata a amizade feminina como território político sem nunca o dizer em voz alta. Entre as estreias de julho no circuito independente português, é o filme que mais provavelmente ficará na memória — como as árvores do título, que permanecem mesmo quando ninguém sabe que ali estão.
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