“As Primas” de Aurora Venturini
Na cauda da alma.
Carina, Petra, Betina e Yuna. Quatro nomes que ocupam um lugar maior em As Primas (Alfaguara, 2023), romance de Aurora Venturini, desaparecida em 2015, e um livro sinónimo de uma sucessão de murros no estômago e na alma, e que nos transporta até à década de 1940, mais propriamente à cidade argentina de La Plata.
E é num cenário pouco convencional, à imagem da própria escrita de Venturini, que deambulamos pela vida das quatro referidas primas, e à boleia de Yuna, personagem e narradora de uma trama que mescla, de forma bela e íntima, arte, grotesco, amor, raiva, inveja, abusos, abortos espontâneos ou nem tanto, e aberrações de várias naturezas, que tornam, por vezes, a leitura deste livro num exercício de resistência.
Assim, no seio de uma família matriarcal, onde os homens estão ausentes ou representam o próprio vazio, é Yuna que tenta encontrar um caminho, um sentido, uma razão para continuar a (sobre) viver, num estranho mundo como o seu, onde a falta de respeito e os sucessivos abusos e atos de violência a tornam numa pessimista por natureza. No entanto, valendo-se da sua arte e capacidade de expressar os seus sentimentos através da pintura, capacidade desprezada pela família, Yuna vai superando a sua deficiência intelectual, assim como as deformidades físicas, cognitivas e/ou emocionais tanto de Betina, sua irmã, como das suas primas, procurando uma luz que tarda em aparecer.
Outras das suas lutas é a expressão escrita, veículo que nos serve de guia (com o dicionário como um precioso aliado) enquanto leitores, mas também enquanto forma de articular pensamentos, medos e dúvidas, usando uma pontuação muito peculiar, onde as vírgulas são elementos (quase) permanentemente ausentes, mas que, passadas poucas páginas, assumimos como uma prosa gulosa e que nos leva a devorar as páginas com a avidez de quem quer saber o que o final nos reserva.

Não sendo um livro fácil, As Primas, que tem a particularidade de ter sido escrito por Aurora Venturini aos 85 (!) anos, é uma obra indispensável e obrigatória, e claro, sombria, agressiva e bizarra, mas também comovente, aconselhada a quem assume a literatura como uma catarse, uma terapia contra as injustiças e os fantasmas que, tantas vezes, assombram a mente.
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