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fimp’26: Marionetas do Porto arrancam com camiões e grandes clássicos

A 37.ª edição do Festival Internacional de Marionetas do Porto junta Dostoiévski, Victor Hugo, Cervantes e o tráfego global de mercadorias.

O Festival Internacional de Marionetas do Porto chega à 37.ª edição e arranca já esta sexta-feira, 9 de outubro. Sob o tema “Narrativas – Ficções e Realidades”, o fimp’26 decorre no Porto e em Matosinhos de 8 a 25 de outubro, com artistas da Lituânia, Polónia, Eslovénia, Bélgica, França, Espanha e Portugal. O primeiro fim de semana junta clássicos de Dostoiévski, Victor Hugo e Cervantes a peças que olham diretamente para a atualidade, como o tráfego global de mercadorias ou o turismo espacial de luxo.

Narrativas – Ficções e Realidades

“Uma história bem contada continua a ser uma coisa à volta da qual faz sentido juntarmo-nos”, escreve o diretor artístico Igor Gandra no texto de apresentação. Cervantes, Gogol, Victor Hugo, Dostoiévski, Heiner Müller, José Luís Peixoto e Regina Guimarães estão entre os autores que se encontram nas fichas dos espetáculos desta edição, a par de projetos que trazem para palco inquietações muito ligadas ao presente.

O festival mantém uma programação maioritariamente dirigida a adultos, mas com propostas para os mais novos e as famílias, e uma oferta formativa para profissionais e curiosos. Parte da programação tem entrada gratuita, e haverá sessões legendadas e com interpretação em Língua Gestual Portuguesa.

Transport: camiões, aviões e foguetões

Um dos destaques do arranque é Transport: Cargo, do Teatro de Marionetas de Maribor, da Eslovénia, que se estreia em Portugal. A peça põe em evidência o crescimento do tráfego rodoviário de mercadorias, que nos últimos anos aumentou até 30% — entre 20 e 50 milhões de camiões circulam diariamente pelas estradas de todo o mundo. A história segue um camionista que corre contra o tempo, pressionado pelo empregador, num percurso que culmina num acontecimento chocante e numa reflexão sobre a nossa responsabilidade num mundo hiperconsumista. O tema ganha eco especial no Porto, cidade que interditou a VCI à circulação de pesados. A encenação é de Tin Grabnar, que regressa ao fimp depois de Still Life, em 2021. Apresentado em inglês com legendas em português, no Teatro Rivoli, a 9 de outubro às 19h30 e a 10 de outubro às 16h00 e 19h30.

Transport: Cargo, Teatro de Marionetas de Maribor
Transport: Cargo, Teatro de Marionetas de Maribor. Foto: © Boštjan Lah

Cargo faz parte do projeto europeu Transport, que reúne seis teatros da Eslovénia, Polónia, Estónia, Lituânia e República Checa em torno do duplo papel dos transportes como motor da globalização e fonte de danos ambientais. O fimp apresenta três dessas peças. Uma delas é Fasten Your Seat Belts!, do Teatro de Marionetas de Klaipeda, da Lituânia — uma sátira irónica que olha o mundo e as suas fraturas lá de cima, questionando o turismo espacial de luxo quando na Terra há tantas desigualdades por resolver. Sobe ao palco do Teatro Campo Alegre a 10 de outubro, às 21h00, e a 11 de outubro, às 15h00 e às 17h00. A trilogia completa-se com Connecting Flights, do Teatro de Marionetas de Białystok, da Polónia.

Dostoiévski, Victor Hugo e Cervantes em palco

Os clássicos da literatura atravessam a programação. A belga Compagnie Karyatides apresenta Crime e Castigo, a partir de Dostoiévski, centrado na tensão psicológica de Raskolnikov, dividido entre a culpa e a procura desesperada de uma justificação. O espetáculo, cheio de ritmo, música e algum humor, valeu à companhia de Bruxelas o Prémio do Ministério da Cultura belga no Rencontres Théâtre Jeune Public 2026. Pode ser visto no Teatro Carlos Alberto a 9 de outubro, às 21h00, e a 10 de outubro, às 16h00.

Crime e Castigo, Compagnie Karyatides
Crime e Castigo, Compagnie Karyatides. Foto: © Marie-Françoise Plissart

A mesma companhia regressa ao TeCA com Os Miseráveis, de Victor Hugo — a história do homem condenado a 19 anos de prisão e trabalhos forçados por roubar um pão para alimentar a família. Esta versão já foi apresentada mais de 700 vezes e pode ser vista a 11 e 13 de outubro, às 19h00.

Já a Limite Zero leva ao Teatro do Bolhão O Cavaleiro da Triste Figura – As Aventuras de Dom Quixote, inspirado na obra de Cervantes, a 10 e 11 de outubro, às 16h30. “Mas quem escreve a história? Os vencedores ou os vencidos?”, pergunta a companhia, lembrando que “os limites entre o real e fantasia esbatem-se todos os dias”.

Os Miseráveis, Compagnie Karyatides
Os Miseráveis, Compagnie Karyatides. Foto: © Yves Gabriel

Lua, lágrimas e quintais da memória

Para os mais novos, e para as famílias, a companhia lisboeta Partículas Elementares regressa ao fimp com Eu Quero a Lua!, a história de Alice, uma menina que vive num país à beira-mar e tem tudo o que pode desejar — menos a Lua. Quando adoece, o pai tenta satisfazer-lhe o desejo. Mas será mesmo a Lua que Alice quer? No Teatro Campo Alegre (Café Teatro), a 10 de outubro, às 16h00.

Eu Quero a Lua!, Partículas Elementares
Eu Quero a Lua!, Partículas Elementares. Foto: © JP Martins

A Tarumba – Teatro de Marionetas, também de Lisboa, traz ao foyer do Teatro Carlos Alberto uma nova temporada de Crankies de fazer chorar as pedras da calçada, com musicópios e histórias-canções de fazer chorar baba e ranho, a 9 de outubro às 22h15 e a 10 de outubro às 17h15. No mesmo dia 10, às 18h30, o Pequeno Auditório do Rivoli acolhe A Abertura da Abertura, o pequeno filme que o festival produz todos os anos para marcar o arranque, seguido de conversa com os artistas.

A fechar esta primeira fase, Rui Oliveira e Ana Saltão apresentam Os Quintais da Memória, do projeto ArtePlusArs, uma revisitação da infância a partir do quintal da casa onde se cresceu, dos objetos que lá ficaram e das personagens peculiares da vizinhança. No Teatro de Belomonte, a 11 de outubro, às 21h00.

Um grande feito a uma pequena escala

Com o apoio da Câmara Municipal do Porto, do Teatro Municipal do Porto, do Teatro Nacional São João e da Câmara Municipal de Matosinhos, entre outros parceiros, o fimp’26 promete, nas palavras de Igor Gandra, “um grande feito a uma pequena escala”. A programação completa, com informações sobre reservas e bilhetes nos espaços de apresentação, está disponível em fimp.pt. Ao fim de 37 edições, a pergunta com que o diretor artístico fecha o seu texto continua a ter a mesma resposta: “Encontramo-nos todos no festival? Sim.”



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