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Em Leiria, a cultura também ajuda a reconstruir o que é comum

VERSÁTIL – Feira do Livro de Leiria decorre até 8 de novembro e reúne escritores, artistas e leitores em torno do tema «O Comum».

Leiria recebe até 8 de novembro a terceira edição da VERSÁTIL – Feira do Livro, este ano dedicada a «O Comum». Mais do que um encontro em torno dos livros, a iniciativa propõe uma reflexão sobre a vida em comunidade, a relação com o território e aquilo que partilhamos — uma conversa que ganha particular significado numa região recentemente atingida por tempestades e ainda envolvida no processo de recuperação.

A edição arrancou a 31 de outubro, na Biblioteca Villa Portela, com uma sessão de abertura que reuniu o filósofo Paulo Pires do Vale e a socióloga Luísa Schmidt. A música marcou também o primeiro dia, com Sérgio Godinho, acompanhado pelo pianista Júlio Resende, num concerto na Black Box. Pensamento, literatura e música deram assim o mote para uma programação que procura aproximar diferentes formas de olhar o mundo.

Com curadoria de Isabel Lucas e Nuno Artur Silva, a VERSÁTIL reúne mais de 40 escritores e artistas. José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Isabela Figueiredo, Helena Roseta, Patrícia Portela e Hugo Gonçalves estão entre os nomes que passam pelo Mercado de Sant’Ana e por outros espaços culturais da cidade.

A escolha do tema não é alheia ao que aconteceu na região. As tempestades deixaram marcas materiais, mas também tornaram mais visíveis os laços de entreajuda e as relações que sustentam uma comunidade. É dessa experiência que parte a programação: da necessidade de escutar, compreender diferentes perspetivas e encontrar formas de agir em conjunto. Num momento em que a reconstrução exige concentrar recursos e responder a necessidades imediatas, manter um espaço de encontro cultural é também uma forma de preservar a participação e a identidade coletiva.

Livros para pensar o lugar de todos
A literatura ocupa o centro da programação, com conversas que cruzam a criação literária e as questões do quotidiano. A 7 de novembro, Helena Roseta conversa com Isabel Lucas em «O Lugar de Todos», encontro que coloca o espaço comum no centro da reflexão. No mesmo dia, José Luís Peixoto e Paulo Moreiras, Filipa Martins e Teolinda Gersão encontram-se em conversas dedicadas aos livros. André Pereira e Rui Zink trazem o humor para a discussão em «Continuar a Rir».

No dia 8, Patrícia Portela e Anabela Mota Ribeiro partilham uma conversa a partir dos livros, enquanto Isabela Figueiredo e Hugo Gonçalves falam dos seus percursos de escrita e leitura. A programação alarga-se ainda à atualidade internacional, com encontros sobre os Estados Unidos depois das eleições, com Gonçalo M. Tavares e José Gomes André, e sobre o Brasil, com Alexandre Vidal Porto e João Gabriel de Lima.

A poesia também tem lugar, com encontros dedicados a diferentes vozes e obras, incluindo uma sessão a 6 de novembro que reúne Adélio Amaro, Cristina Nobre, Trindade Pereira, Paulo José Costa e Fernando Brites.

Uma feira que atravessa as páginas
Desde a sua criação, em 2024, a VERSÁTIL procura alargar a experiência tradicional de uma feira do livro, aproximando a literatura de outras linguagens artísticas. Esta edição mantém essa aposta, com concertos, cinema, dança e propostas que cruzam palavra e música. Entre os destaques estão a atuação da Orquestra Jazz de Leiria com Christian McBride, a 7 de novembro, e «As palavras escrevem-se com música», com Luísa Cruz, Nicolau Santos e Manuel Lourenço, no dia seguinte.

A programação inclui ainda a apresentação de Coreografias: Ensaios sobre Dança e Filosofia, de Né Barros, o Festival Letra, cinema com Sophia, o cine-concerto Sakamoto e o espetáculo de dança Over our Heads, da Companhia Marta Cerqueira.

Os leitores mais novos não ficam de fora. Entre 3 e 6 de novembro, autores e ilustradores como Maria Inês Almeida, António Mota, David Machado, Catarina Sobral e Nuno Bernardo encontram-se com alunos e jovens leitores. Conhecer quem escreve e ilustra, perceber como nasce uma história e ganhar confiança para fazer perguntas são experiências que ajudam a formar leitores, mas também a desenvolver a capacidade de imaginar outras vidas e escutar diferentes perspetivas.

Entre livros, conversas e espetáculos, a VERSÁTIL propõe, assim, pensar o que nos une. Num território que procura recuperar do impacto das tempestades, a cultura afirma-se como lugar de encontro, memória e participação — um espaço onde a comunidade pode voltar a reunir-se para partilhar histórias e imaginar o futuro.



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