Obama em Lisboa: «Ninguém está mais qualificado do que tu para fazer alguma coisa»
Barack Obama subiu ao palco da MEO Arena na noite de sábado para fechar a sexta edição do Game Changers Forum, e fê-lo perante uma sala que, segundo a organização, ultrapassou as 10 mil pessoas. Foi uma hora de conversa sobre inteligência artificial, democracia, liderança e o poder de quem decide fazer o primeiro passo.
O Game Changers apresenta-se como uma comunidade de líderes que quer “crescer pessoas” através de programas de formação, inspiração e networking. O objetivo declarado é colocar a Europa no centro da conversa sobre liderança e inspirar uma nova geração de líderes. O fórum é a face mais visível dessa comunidade: um dia inteiro de conversas, em que gestores, empresários, autarcas e governantes falam sobre o que está a mudar em Portugal e no mundo.
O crescimento conta-se depressa. No arranque do dia, o fundador Miguel Pina Martins lembrou, do palco, que tudo começou há sete anos com 25 cadeiras e que a sala tem agora mais de 10 mil lugares ocupados. Esta sexta edição decorreu a 10 de outubro, teve mais de 30 oradores portugueses e internacionais, dois formatos em paralelo (o palco principal e as roundtables, estas com transmissão em direto) e Carolina Patrocínio como mestre de cerimónias. A abertura ficou a cargo do presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, e do ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, ao lado de Miguel Pina Martins.
Os outros painéis
Antes de Obama, o palco principal teve sete sessões de 20 a 30 minutos, quase todas construídas à volta de uma pergunta sobre o país. O fio condutor foi a ideia de que Portugal pode mudar de patamar, e que a mudança passa por empresas, tecnologia e liderança.
- “Can Unicorns Change Portugal?” juntou Diogo Mónica (Anchorage Digital), Marcelo Lebre (Remote) e Ricardo Mendes (Tekever), com Andrea Nunes (Wellow) e Miguel Farinha (EY) como “speaker challengers”.
- “Humans + AI: Working Better Together” foi sobre como a IA muda o trabalho nas empresas, com Maria João Carioca (Galp), Jorge Amar (Teleperformance) e Paulo Carvalho (Cegid).
- “One Vision, Many Voices”, o painel em inglês, perguntou se trabalhar melhor em conjunto pode mudar Portugal, com Julien Haex (Central de Cervejas), Chitra Stern (Martinhal), António Cunha Vaz, Ricardo Costa, Inês Odila (Coverflex) e Fred Canto e Castro (Seekers).
- “AI as a Game Changer” voltou à IA, agora na escala do país, com Ana Figueiredo (MEO), João Pedro Oliveira e Costa (BPI), Miguel Stilwell (EDP) e Pedro Carvalho (Generali Tranquilidade), desafiados por Pedro Brito (Nova SBE).
- “Change Portugal – Change the Games” reuniu Carlos Moreira da Silva (Teak Capital), Roberta Medina (Rock in Rio), Rui Miguel Nabeiro (Delta Cafés), Joana Pina Pereira (Generali Tranquilidade) e Bruno Mota.
- “Innovation as a Game Changer” teve Fernando Daniel Nunes (Visabeira), Joaquim Cabaço (Trivalor), Marcelo Nico (Philip Morris International), Bárbara Barroso (MoneyLab) e Henrique Handel (Dental Light).
- “Is Leadership a Game Changer?” fechou o dia antes de Obama, com Filipe de Botton (Logoplaste), Frederico Varandas (Sporting CP) e Bruno Mota.
Em paralelo, as roundtables, moderadas por Catarina Caria, cobriram tecnologia, crescimento, territórios inteligentes (com o presidente do Governo Regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, e a presidente da Câmara de Matosinhos, Luísa Salgueiro), empreendedorismo, investimento em Portugal, execução de ideias e infraestruturas, com nomes como Sara do Ó, Gil Azevedo (Unicorn Factory Lisboa), Filipe Ramos (Science4you), Vasco Antunes Pereira (Lusíadas Saúde), Paulo Carmona (Infraestruturas de Portugal) e o ator Ricardo Pereira.
Às 19h00, depois do último intervalo, começou a conversa com o antigo presidente norte-americano. A condução coube a Ricardo Parreira.

Obama: a IA, a democracia e o primeiro passo
Obama arrancou com uma declaração de afeto a Portugal. Agradeceu em português, brincou com o facto de ter tido na administração mais luso-americanos do que qualquer outro presidente e confessou que a vida pós-Casa Branca não tem dia típico: divide-se entre a Fundação Obama e a formação de jovens líderes, terminar o segundo volume das memórias e, neste momento, a política para a inteligência artificial.
A IA em dez anos, não em trinta
Foi aí que a conversa ficou mais séria. Para Obama, o que as fábricas viveram com a automatização nos anos 70 e 80 vai acontecer ao trabalho do conhecimento: advogados, contabilistas e médicos vão ver muitas tarefas feitas por modelos que “não precisam de dormir nem de uma sesta”. A diferença é o ritmo, uma década em vez de várias, com governos e sociedades a mover-se mais devagar do que a tecnologia.
O alerta maior foi de segurança. Os modelos melhoram a cada três meses e alguns são “abertos”, o que significa que qualquer pessoa os pode descarregar e adaptar, para um ciberataque ao sistema financeiro ou, no pior cenário, para criar um agente patogénico. Faltam proteções, disse, e será preciso coordenar com a China, apesar da pouca confiança entre os dois países.
O que fica para as pessoas
O que as máquinas não substituem, defendeu, é o cuidado e o juízo. Professores e enfermeiros fazem mais do que transmitir informação ou calcular doses, e são profissões subvalorizadas porque o seu benefício não se mede em lucro e porque são historicamente ocupados por mulheres. Quanto ao juízo, deu o exemplo da Síria: decisões em que se pesam sofrimento, direito internacional e limites constitucionais não se “correm num algoritmo”, e a decisão de lançar uma arma nuclear nunca pode sair das mãos humanas. Os grandes líderes tecnológicos, acrescentou, são brilhantes mas “limitados”, e daí o apelo às artes e às humanidades.
Na política, o diagnóstico foi parecido. Em tempos de incerteza as pessoas refugiam-se na tribo, e a democracia, que na história é “um piscar de olhos”, precisa de ser constantemente renovada. Pediu líderes seguros que não precisem de se sentir superiores aos outros e instituições que entreguem resultados: quando a habitação é cara e a Europa precisa de dezenas de reuniões para fazer o mais simples, os autoritários ganham terreno.
De Chicago a Lisboa
O fio condutor veio dos bairros de Chicago, onde foi organizador comunitário: a mudança começa quando as pessoas são ouvidas e participam, e os políticos costumam ir atrás. Contou que, logo nas primeiras semanas como presidente, interpelou um jovem assessor que passava um bilhete ao chefe, porque percebeu que era ele quem fazia o trabalho, e que ganhou eleições enviando jovens a viver como voluntários em comunidades desconhecidas. No fim, as pessoas votavam menos nele e mais nesse jovem que tinham visto a carregar compras a uma vizinha. Hoje, lamentou, o mundo virtual simplifica tudo em esquerda e direita; pessoalmente, as pessoas são mais complicadas.
Pediu por isso “um pouco mais de fricção” no dia a dia, desde ir ao mercado a cozinhar com amigos, e avisou, com humor, que a IA não deve acabar relações por nós. Aos game changers deixou um conselho prático: escolher uma coisa que importa, agir com outros e não esperar que seja outra pessoa, sem esquecer a experiência e o estudo.
Fechou com a sua própria história: o primeiro discurso, num comício contra o apartheid na universidade, depois de ouvir dois jovens do ANC que percorriam os Estados Unidos sem dinheiro. Não mudou o mundo, mas foi o primeiro passo. “Qual é o vosso?”, perguntou à plateia.
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