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Rock & Dão 2026 | Dia 1 (18.09.2026)

Decorreu a 18 e 19 de Setembro a primeira edição do Rock & Dão, um novo festival no coração da Beira Alta que, para além da música, mostrou que a gastronomia e o vinho regionais são água viva que importa preservar. 

O Parque de Santiago, em Viseu, foi o palco deste evento, um espaço radiante e muito bem escolhido, diria eu. O recinto estaria aberto entre as 18h e as 02h30, e a Rua de Baixo esteve presente no primeiro dia de concertos. 

Chegamos assim que o recinto abre, tal o entusiasmo para conhecer este mais recente paradigma de celebração e de amizade.  Deparamo-nos com um espaço ainda por preencher (de humanos), mas nem por isso menos cheio em saber, memória e novidade. Esperáva-nos uma noite de boa música e de gargalhadas boas, daquelas que fazem doer a barriga e nos tiram o ar. Um ar familiar, aquele que surge quando sabemos que estamos em casa e com as nossas pessoas – aí, não há ar que nos falte, e ainda bem. 

Um recinto muito bem organizado, comedido mas nem por isso menos apetecível. No que diz respeito aos “comes e bebes”, havia alguns pontos de venda de comida, uma correnteza de bancas para vender e provar vinho e, no topo, como se fossem quiosques, espaços onde chefes cozinhavam e davam a conhecer os melhores pratos com as melhores tradições da região. Por outro lado, havia “locais de repouso”, acessíveis e bem recheados de espanto. Ao mesmo tempo, e sob o epíteto de «o rural também é rock», um lugar onde o louvor à agricultura não nos deixou indiferentes. Acessível e irreverente, o Rock & Dão alimentou a vontade de viver Viseu por mais tempo, como um refúgio imaculado. 

O festival contou com dois palcos, sendo que um deles era de 360 graus, uma estrutura circular, sem “fundo”, infinito, com firmeza. Nesse “segundo” palco actuaram vários DJs e bandas como os The Middletones (isto no dia 18). Esta banda, por seu turno, tem um repertório mormente de covers, nomeadamente associados ao Britpop. Nostálgicos, surpreendentes e compenetrados, ficámos a «chorar por mais». 

No palco maior, a banda Os Pontos Negros deu o mote de partida. De seguida, às 19h30, fizeram-se escutar Cassete Pirata. Confesso que, no início, era pouco o calor humano; porém, e à medida que o entusiasmo crescia, mais gente se juntou e ficou um recinto bem composto.

Cassete Pirata, cinco (pessoas) em palco e na vida, têm o dom de nos levar ao céu e trazer de volta, como uma reinvenção da vida que nos conserva a paz e a serenidade. Entoaram admiráveis canções como “Portas do Céu”, “A Próxima Viagem”, “A Semente”, “Ferro e Brasa”, “Pó no Pé”, “Só Mais uma Hora”, “Abismo” e “Sou Gente Outra Vez” (os mais recentes singles), entre outras igualmente exemplares. Extraordinário é também o trabalho instrumental da banda, como se fosse o princípio e o fim de algo, o fruto mais apetecido e em nada proibido. Experimentam, levantam o pé do chão e, acima de tudo, transmitem uma sintonia que é fascinante de ver. Quase a lançar o novo disco já este mês, com um concerto em nome próprio no Capitólio em Novembro para celebrar dez anos de vida, os Cassete Pirata são intemporais. Alegres e desafiados, contentes e ampliados – uma banda que é como o nosso gelado favorito numa tarde quente de verão, refrescantes e deliciosos. 

David Bruno sobe ao palco pelas 21h30; a noite já instalada, uma camada populacional em força, e aquilo que seria a conversa íntima mais engrandecida que teríamos. Um cruzamento bem terra-a-terra entre uma estética inusitada e o “corriqueiro” criativo. Do humor e da sátira transformados em acto, sem desacato, a actuação do artista é inovadora. Não só porque da rima, do verso e da repetição se faz a canção sem medo, sem pretextos e sem “pruridos”; mas também porque da aparente matéria esquecível surge poesia e reflexão. Um verdadeiro contador de histórias acerca de pessoas e momentos o que, e contrariamente à água quando se “mistura” com o azeite,  se metamorfoseia num lugar de partilha, de intenção e de entendimento mútuo. David Bruno surge inspirado pelas «coisas da vida real», o que pode ser, simplesmente, uma travessa em inox. E é este lado menos metódico e, ainda assim, mais ritmado, que o torna tão relevante no panorama da música nacional. Afinal, somos todos «intervenientes acidentais». Rosas vermelhas, público, David Bruno e companheiros foram um só. 

Enfim, Mika, o artista mais ansiado da noite. Como uma verdadeira máquina do tempo, atravessámos a existência caduca, fizemos dela algo perene, saltitantes num mundo imaginário que é passado, presente e futuro. Naquele momento, o recinto já estava muito bem recheado – ali servir-se-ia a cereja no topo do bolo. O público envergava tiras de papel a dizer “welcome back”, para além da haver balões amarelos. Há dez anos que Mika não pisava palcos portugueses. Há dois anos e meio que andava em digressão. Neste dia 18, memorável, este concerto marcava o final dessa mesma tour. Um cartoon em modo operante, eternizante. A verdade é que o universo visual e musical do artista não nos deixa indiferentes – sermos Peter Pan; sem medo do sonho, da cor, ser risonho e sentir dor. Quase uma estética infantil, sem que seja infantilizada. Quase uma estética distópica, sem que perca a verdade. Somos robôs e, ainda assim, dançamos. Somos peças desencaixadas e, ainda assim, cantamos. Fez-se magia no meio do caos, fez-se silêncio no meio do barulho. «Tonight, I am free!». Falou-se de felicidade, de sorte, de aceitação. Cantou-se a amizade, o prazer comum, a liberdade. Como um relógio sempre determinante, Mika brindou-nos com várias mudanças de roupa, com muita energia e “choques eléctricos” e, até, uma impressionante e estimada mesclagem com o público, como se todos fôssemos rodas em bom estado e capazes de andar pelas estradas todas (da vida) – uma entusiasmante dance party. «Where have you been, Portugal?» E, nós, perguntamos o mesmo – onde é que andaste este tempo todo, Mika? Mal sabíamos nós que precisávamos desta cápsula-inspiração. 

Obrigada Rock & Dão. Até para o ano! 

 



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