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Festival Bons Sons 2026

20 anos de Bons Sons: da comunidade para o Mundo

São duas décadas de Festival Bons Sons, uma experiência que tem tanto de vanguardista e original como de ancestral, pelo seu carácter comunitário e participativo. A verdade é que reconhecer Cem Soldos na época dos Bons Sons é reconhecer um novo espaço cultural criado por e pela comunidade local. É um exemplo de como a cultura ao dar mãos à comunidade e integrada na natureza pode ser um melting pot intensamente criativo, inesquecível e inspirador. 

O BONS SONS nasce em 2006, em Cem Soldos, no concelho de Tomar, a partir do Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS), uma associação local fundada em 1981 com uma missão que ultrapassava largamente o desporto: promover o desenvolvimento social, cultural, recreativo e desportivo da comunidade.

Naquele momento, a associação preparava as comemorações dos seus 25 anos. A ideia inicial era criar um programa cultural alargado, chamado “Acontece Cem Soldos”, que procurava revitalizar a vida cultural da aldeia e envolver diferentes gerações. Havia workshops, teatro, dança, exposições, debates, atividades desportivas e outras iniciativas. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de fazer um festival de música.

Mas há aqui um detalhe muito importante: o festival não nasceu como um grande festival profissional que procurava uma aldeia onde se instalar. Nasceu como uma iniciativa de dentro da aldeia. A primeira edição aconteceu nesse mesmo ano, 2006.

E a ideia era extraordinariamente simples e, ao mesmo tempo, radical: em vez de construir um recinto para o festival, utilizar a própria aldeia como recinto.

As ruas, largos, praças, igreja, e outros espaços quotidianos de Cem Soldos passaram a ser palcos de música. A aldeia não era uma decoração ou um cenário: era a infraestrutura do festival.

De festa local a projecto de território

Nas primeiras edições, o BONS SONS ainda era bastante diferente daquilo que conhecemos hoje.

A edição de 2006 era de entrada livre e a aldeia não estava ainda completamente fechada ao público como recinto. O festival tinha uma dimensão sobretudo local e regional.

Mas a experiência revelou uma possibilidade.

A música portuguesa podia ser apresentada fora dos circuitos habituais e, simultaneamente, a própria aldeia podia tornar-se um lugar de produção cultural contemporânea.

O festival foi crescendo: em 2008 dezenas de milhares de visitantes chegavam e o festival começava a adquirir uma dimensão nacional.

E é aqui que acontece uma das características mais interessantes da sua construção: o crescimento não significou abandonar a comunidade que o criou. Pelo contrário.

A população continuou a participar na organização, acolhimento, montagem, produção, alimentação, limpeza, decoração e funcionamento do festival. Os habitantes tornam-se parte da experiência e anfitriões de quem chega.

É por isso que o próprio festival se define através da ideia de “Vem Viver a Aldeia”.

20º aniversário do BONS SONS

 

Este ano celebrou-se um marco especial e a alegria manifestou-se nos semblantes dos anfitriões do festival assim como nos dos visitantes. 

Na sua 20.ª edição, o BONS SONS voltou a transformar Cem Soldos, no concelho de Tomar, num recinto de festival onde a fronteira entre aldeia e espaço cultural se dissolve. Entre 6 e 9 de agosto, as ruas, largos e edifícios da aldeia foram ocupados por diferentes palcos, espaços de encontro, instalações, actividades e serviços, mantendo a estrutura urbana quotidiana como elemento central da experiência.

O recinto distribui-se por vários palcos — Lopes-Graça, Aguardela, Giacometti, Amália, António Variações e Zeca Afonso — aos quais se juntam o Palco/Largo MPAGDP, o Palco Garagem e o Auditório Agostinho da Silva. Esta diversidade de espaços permite uma programação simultânea e descentralizada, levando o público a percorrer a aldeia entre diferentes ambientes, escalas e propostas artísticas.

Para além dos palcos principais, a programação estendeu-se por ruas, largos e espaços menos convencionais, criando momentos de descoberta e surpresa. Concertos como os de Calcutá, e A Sul, no Palco Rosa Ramalho, que era um local surpresa, localizado num terreno privado, exemplificam esta vontade de levar a criação artística para diferentes lugares e escalas do território.

Esta relação entre arte e espaço manifesta-se também na diversidade das propostas performativas. No Auditório Agostinho da Silva, o músico Iuri Oliveira apresentou o seu trabalho a solo Manifesto, enquanto Rui Paixão levou ao festival Febre de Burro, um solo construído a partir de uma pesquisa sobre o universo rural e desenvolvido em parceria com a AEPGA – Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino. A presença destas criações reforça a dimensão interdisciplinar do festival e a sua atenção às relações entre corpo, território, memória e ruralidade.

Esta dimensão de encontro estende-se também à programação não musical. Ao longo dos quatro dias, o Largo do Rossio acolheu um ciclo de Conversas Gerador, dedicado ao conceito de lugar e às relações entre futuro, liberdade artística, diversidade de vozes e comunidades. O espaço público transforma-se, assim, num lugar de escuta e reflexão colectiva, onde o festival não só apresenta propostas artísticas, mas cria condições para pensar sobre o território que o acolhe e sobre as formas de o habitar.

Também a oficina “Okupamos Cem Soldos – Oficina de Criação de Lugares para se estar Junt*s”, da Oficina Fritta, parte dessa ideia de ocupação e transformação do espaço. Através da criação colectiva de estruturas e lugares de encontro com materiais modulares, a proposta convida participantes dos 3 aos 103 anos a imaginar e construir espaços para estar em conjunto. O gesto é simples, mas significativo: em vez de apenas ocupar os espaços existentes, os participantes são convidados a criar novos lugares de convivência dentro da própria aldeia.

Estas propostas reforçam uma característica fundamental do BONS SONS: o recinto não é pensado apenas como uma sucessão de palcos, mas como uma rede de lugares de relação. Ouvir música, assistir a uma performance, conversar, construir, brincar ou simplesmente permanecer tornam-se diferentes formas de habitar temporariamente Cem Soldos. 

O festival cria, deste modo, uma espécie de dramaturgia colectiva do espaço, em que a experiência cultural acontece tanto através dos espectáculos como das relações que se estabelecem entre pessoas, corpos e território.

Agora aguardamos com saudade e entusiasmo a edição de 2028!

Viva o BONS SONS!

 



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