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Big Tech vai gastar 700 mil milhões de dólares em IA em 2026

A maior corrida de investimento em infraestrutura tecnológica da história está em curso — e os efeitos chegam também à Europa.

As quatro maiores empresas tecnológicas do mundo — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — estão a caminho de investir quase 700 mil milhões de dólares em infraestrutura de inteligência artificial só em 2026. Os resultados financeiros do primeiro trimestre confirmaram uma escalada sem precedentes em centros de dados, chips de IA e capacidade computacional. O valor representa mais do triplo do que as mesmas empresas gastaram em 2024, quando o total rondou os 200 mil milhões de dólares. Para os analistas, estamos perante o maior ciclo de investimento concentrado da história da tecnologia — e ninguém sabe ainda onde vai parar.

Como chegámos aqui: a escalada que surpreendeu Wall Street

A corrida ao investimento em inteligência artificial não é nova, mas a sua dimensão em 2026 surpreendeu mesmo os analistas mais otimistas. No início do ano, as estimativas apontavam para um total próximo dos 600 mil milhões de dólares. Com os resultados do primeiro trimestre divulgados no final de abril, os números foram revistos em alta: o total combinado das quatro grandes empresas deverá ultrapassar os 700 mil milhões de dólares até ao final do ano.

O crescimento é exponencial. Em 2024, o mesmo grupo gastou pouco mais de 200 mil milhões de dólares em despesas de capital. Em dois anos, esse valor mais do que triplicou — uma aceleração que não tem paralelo na história da tecnologia. Mesmo o boom das telecomunicações nos anos 90 ou a expansão das redes de fibra ótica no início dos anos 2000 ficam aquém desta escala.

A razão é simples: a IA generativa e os modelos de linguagem de grande dimensão exigem quantidades massivas de poder computacional para serem treinados e para funcionar em tempo real. Para servir centenas de milhões de utilizadores simultaneamente, estas empresas precisam de construir data centers à escala de cidades inteiras.

Quanto gasta cada gigante em inteligência artificial — e o que planeiam

A Amazon lidera o grupo com um investimento projetado de cerca de 200 mil milhões de dólares em 2026, a maior fatia destinada à expansão da infraestrutura da AWS — a sua divisão de computação em nuvem — para suportar serviços de IA para empresas de todo o mundo. A Alphabet, empresa-mãe da Google, segue-se com entre 175 e 185 mil milhões de dólares, canalizados sobretudo para centros de dados e para o desenvolvimento dos chips TPU que alimentam o Gemini e outros modelos de IA.

A Microsoft, parceira estratégica da OpenAI, prevê gastar mais de 120 mil milhões de dólares, boa parte para expandir a infraestrutura Azure que suporta o Copilot e os serviços de IA integrados no Office 365. Já a Meta surpreendeu os mercados ao anunciar um aumento significativo das suas projeções, com um investimento entre 115 e 135 mil milhões de dólares destinado a construir centros de dados de nova geração para treinar versões futuras do modelo Llama.

Além das Quatro Grandes, empresas como a Oracle e a xAI, de Elon Musk, também estão a investir dezenas de milhares de milhões de dólares em infraestrutura dedicada à IA, reforçando a ideia de que este não é um fenómeno isolado de uma ou duas empresas, mas uma aposta generalizada do sector.

O que está a ser construído — centros de dados, chips e energia

Por detrás destes números está uma transformação física à escala planetária. Estão a ser construídos centros de dados em todos os continentes, incluindo na Europa, com consumos energéticos que rivalizam com os de países de média dimensão. Só a Microsoft anunciou planos para construir ou expandir instalações em mais de uma dezena de países europeus até 2027.

A procura por chips de inteligência artificial — dominada pela Nvidia — disparou a um ritmo que a própria empresa tem dificuldade em satisfazer. Os processadores gráficos de última geração tornaram-se o bem mais escasso e mais valioso do ecossistema tecnológico mundial. Em paralelo, as empresas apostam cada vez mais no desenvolvimento de chips proprietários — como os TPU da Google, os Trainium da Amazon ou os MTIA da Meta — para reduzir a dependência da Nvidia e otimizar a eficiência energética.

A energia é, aliás, um dos principais pontos de estrangulamento. Estima-se que os centros de dados dedicados à IA representem já uma parcela significativa do consumo elétrico nos Estados Unidos, e a construção de nova capacidade de geração — incluindo energia nuclear de pequena escala — tornou-se uma prioridade para as grandes tecnológicas.

Por que é que o investimento em inteligência artificial importa para Portugal

À primeira vista, estes números podem parecer distantes da realidade portuguesa. Mas os efeitos deste ciclo de investimento chegam à Europa — e a Portugal — de formas concretas. A União Europeia, através do AI Act e do programa Horizonte Europa, está a tentar posicionar-se nesta corrida, mas a distância para os investimentos americanos e chineses é considerável.

Em Portugal, o impacto faz-se sentir principalmente de duas formas. Por um lado, as empresas portuguesas que utilizam serviços de IA em nuvem — como ferramentas de produtividade, assistentes de código ou plataformas de análise de dados — beneficiam indiretamente desta infraestrutura. Por outro, o país tem atraído investimento em centros de dados graças ao clima favorável, à energia renovável disponível e à posição geográfica estratégica: Portugal é já um ponto de chegada de cabos submarinos transatlânticos.

O sector financeiro português também não fica indiferente: o Portugal Fintech Report 2025 revelou que 74% das fintechs nacionais já incorporam IA nos seus produtos, numa tendência que depende diretamente da infraestrutura que as grandes tecnológicas estão agora a construir.

Até onde pode chegar — analistas apontam para um bilião em 2027

Se 700 mil milhões de dólares em 2026 já parece um número impossível de visualizar, os analistas estão a fazer as suas estimativas para 2027 — e os números são ainda mais vertiginosos. Bancos como o Bank of America e a Evercore projetam que o total de despesas de capital em IA poderá ultrapassar o bilião de dólares em 2027, tornando este o maior ciclo de investimento em infraestrutura tecnológica de sempre.

A questão que ninguém consegue ainda responder é: quando é que o retorno chega? Os investidores mostram-se pacientes por enquanto — as ações das grandes tecnológicas mantêm valorizações elevadas — mas a pressão para demonstrar que estes gastos se traduzem em crescimento real de receitas vai aumentar. O investimento em IA representa já cerca de 0,8% do PIB dos Estados Unidos, abaixo dos picos de ciclos tecnológicos anteriores, o que sugere que há ainda espaço para crescer.

O que é certo é que a infraestrutura que está a ser construída agora vai moldar a economia digital da próxima década. Quem conseguir posicionar-se neste ecossistema — seja como fornecedor, utilizador ou regulador — terá uma vantagem determinante nos anos que se seguem.

O investimento em inteligência artificial de 700 mil milhões de dólares em 2026 não é apenas um número impressionante — é o sinal mais claro de que as grandes tecnológicas apostam tudo na IA como o principal motor de crescimento da próxima geração. Para Portugal, o desafio é duplo: acompanhar esta transformação enquanto empresa e utilizador de tecnologia, e ao mesmo tempo aproveitar as oportunidades que surgem na periferia deste ecossistema, desde a atração de centros de dados até à formação de talento especializado. O investimento em inteligência artificial de 2026 vai definir quem lidera — e quem fica para trás — na economia digital dos próximos dez anos.



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