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Comerás flores, de Lucía Solla Sobral

A mecânica da manipulação

E se uma história de amor acabam por revelar outra coisa? Essa é a premissa de Comerás flores (Porto Editora, 2026), da galega Lucía Solla Sobral, um romance que obriga a desconfiar daquilo que, à primeira vista, parece inofensivo. E mesmo que a violência típica de uma relação tóxica seja uma evidência, o desafio é tentar chegar ao momento-fronteira em que o controlo ainda se confunde com cuidado, o isolamento parece dedicação e a dependência emocional se mascara de felicidade.

Solla Sobral logra atingi-lo e conta a história de Marina que, aos 25 anos, perde o pai. É nessa fase da sua vida que, fragilizada pelo luto e pela incerteza de uma vida adulta que mal começou, conhece Jaime, um homem vinte anos mais velho, sofisticado, culto e aparentemente seguro de si. No entanto, essa diferença de idades nunca é apresentada como o verdadeiro problema. O que interessa a Lucía Solla Sobral é mostrar como as relações de poder instalam-se de forma subtil, quase invisível, até ocuparem todos os espaços da vida de alguém.

É precisamente essa recusa do sensacionalismo que faz de Comerás flores um romance tão desconcertante. Jaime nunca surge como um vilão de contornos fáceis, mas a normalidade das suas atitudes inquieta. As manipulações são “pequenas”, quotidianas, difíceis de identificar para quem as vive. E é nesse quadro que percebemos muito antes de Marina aquilo que está a acontecer, mas isso não gera superioridade moral, mas impotência.

Lucía Solla Sobral demonstra uma maturidade pouco comum para um romance de estreia. A sua escrita oscila entre o lirismo e a contenção, evitando transformar o sofrimento em espetáculo. Não procurando o choque, constrói um desconforto persistente através de páginas em que quase nada acontece, mas tensão cresce de forma insuportável.

Ainda assim, reduzir Comerás flores a uma narrativa sobre violência nas relações seria, dizemos nós, fazer uma má interpretação deste livro que traz um retrato geracional particularmente conseguido. Marina pertence a uma geração marcada pela precariedade, pela dificuldade em encontrar estabilidade e pela sensação constante de estar atrasada relativamente à vida. Jaime oferece-lhe exatamente aquilo que parece faltar: segurança, conforto, um apartamento elegante, restaurantes, viagens, um futuro aparentemente organizado. Além de ser um homem que a seduz, é um modelo de vida que promete resolver todas as fragilidades de quem ainda procura o seu lugar no mundo.

É por isso que a amizade desempenha um papel tão importante na narrativa. Diana, a companheira de casa de Marina, representa a possibilidade de um amor sem domínio, de uma relação construída na igualdade e na escuta. Num romance onde tantas ligações se tornam mecanismos de controlo, a amizade surge como a verdadeira força capaz de devolver identidade à protagonista.

Literariamente, Lucía Solla Sobral revela um domínio notável do ritmo narrativo. Não procura surpreender com reviravoltas, mas com a acumulação de pequenos gestos, silêncios e cedências que vão estreitando o horizonte da protagonista. Por isso, o leitor que tem na mão este livro não acompanha apenas a degradação de uma relação, assistindo à erosão lenta de uma identidade.

Quanto às páginas findam, fica a sensação de que este não é um livro sobre o amor, mas sobre tudo aquilo que podemos perder quando deixamos de reconhecer a nossa própria voz. E essa talvez seja a forma mais inquietante, e verdadeira, de falar sobre violência.



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