«Calle Málaga» e a casa que se recusa a esquecer
Há casas que não se vendem — vivem-se, e por isso resistem.
Maryam Touzani, a realizadora marroquina de “O Kaftan Azul”, regressa à cidade onde nasceu para rodar a sua primeira longa-metragem em espanhol. “Calle Málaga” estreia esta quinta-feira, 6 de agosto, no Cinema Medeia Nimas, em Lisboa, depois de ter conquistado o Prémio do Público na secção Venezia Spotlight da 82ª Mostra de Veneza. É um retrato de uma mulher de 79 anos que se recusa a deixar a casa onde construiu a vida inteira — e, com isso, um dos filmes mais sentidos deste ano sobre envelhecer sem pedir licença. Numa semana de cartazes dominados por animações e sequelas, esta é a proposta mais interessante do circuito de cinema independente em Portugal.
O ponto de partida: uma casa em Tânger
María Ángeles tem 79 anos e vive sozinha num apartamento em Tânger, na rua que dá título ao filme. É espanhola, mas Marrocos é a única casa que conhece: chegou ainda criança, como tantos outros da comunidade espanhola que se instalou na cidade ao longo do século XX, e nunca mais saiu. A sua rotina — o café da manhã, os vizinhos, o ritmo da luz sobre as paredes — é interrompida quando a filha chega de Madrid com uma notícia que muda tudo: o apartamento vai ser vendido. Para María Ángeles, isso não é apenas perder um teto. É perder a prova física de uma vida inteira, e ela decide, contra tudo e contra todos, reconquistar a casa e os pertences que já foram vendidos a um antiquário.
Touzani não esconde a origem pessoal desta história: a sua avó espanhola viveu em Tânger a vida toda e está sepultada num cemitério praticamente esquecido da cidade, ao lado de outros que, como ela, escolheram aquela terra como sua. É esse apego visceral — e o modo como foi muitas vezes incompreendido pelas gerações seguintes — que a realizadora quis explorar, e que dá a “Calle Málaga” uma textura de memória vivida, não inventada. O filme é também a primeira longa-metragem que Touzani roda em espanhol e a primeira que filma na sua própria cidade, o que confere à narrativa um peso autobiográfico raramente disfarçado.
A linguagem do filme: a luz do Mediterrâneo e a textura da memória
Filmada pela diretora de fotografia Virginie Surdej, “Calle Málaga” constrói-se sobre uma luz quente, quase tátil, que baila entre o interior gasto do apartamento e as ruas de Tânger lá fora. Touzani não procura o exotismo fácil da cidade marroquina como pano de fundo pitoresco: a câmara fica junto do corpo de María Ángeles, acompanha as suas mãos a tocar móveis, tecidos, objetos que carregam décadas de uso, e deixa que seja o gesto — mais do que o diálogo — a contar a história.
Há uma opção estilística clara por um ritmo pausado, quase contemplativo, que respeita o tempo de uma personagem idosa sem nunca a tornar lenta ou passiva. É um cinema de proximidade física e emocional, herdeiro direto da sensibilidade que já se via em “O Kaftan Azul”: mais interessado em texturas, silêncios e olhares do que em explicações. A montagem de Teresa Font evita cortes bruscos que quebrem essa intimidade, e a música de Freya Arde entra com moderação, quase sempre a sublinhar em vez de conduzir a emoção.
As personagens e o que carregam
Carmen Maura — musa de Almodóvar, rosto incontornável do cinema espanhol das últimas quatro décadas — encarna María Ángeles com uma mistura de teimosia e vulnerabilidade que evita qualquer sentimentalismo fácil. É uma personagem que se recusa a ser definida pela idade que os outros lhe atribuem, e Maura dá-lhe um corpo que ainda deseja, ainda se irrita, ainda flerta. A crítica internacional tem sublinhado precisamente isso: uma interpretação que convence pela energia e pela recusa em pedir desculpa por continuar viva e inteira.
À sua volta, Marta Etura interpreta a filha que regressa de Madrid com boas intenções e uma lógica prática que colide, inevitavelmente, com o apego emocional da mãe — um conflito geracional que Touzani trata sem vilanizar nenhuma das partes. Ahmed Boulane surge como o antiquário que comprou os móveis da família, figura que se torna, de forma inesperada, o território onde María Ángeles reencontra algo parecido com desejo. María Alfonsa Rosso completa o quarteto principal, ajudando a desenhar a comunidade espanhola de Tânger que serve de coro silencioso a esta história.
O que o filme diz (e o que cala)
Por trás da história pessoal de María Ángeles está uma reflexão mais vasta sobre o que significa envelhecer numa sociedade que trata a velhice como um problema a gerir e não como uma fase de vida a habitar. Touzani já disse que quis “confrontar o olhar da sociedade sobre o envelhecimento — as expectativas, os preconceitos, as barreiras” e devolver a María Ángeles a liberdade de envelhecer como bem entender. É um discurso que atravessa o filme sem nunca se tornar tese ou discurso explícito: fica nas escolhas de encenação, na forma como a câmara nunca infantiliza a personagem.
Há também, por baixo da superfície, uma reflexão sobre pertença e desenraizamento que ressoa longe de Tânger — sobre comunidades que se formam em terra alheia até deixarem de ser alheia, e sobre o que resta quando essa terra deixa de reconhecer quem lá ficou. O filme cala, deliberadamente, juízos fáceis sobre quem tem razão — a mãe que se agarra ou a filha que quer proteger — preferindo deixar essa tensão em aberto, como acontece, de resto, na maioria das famílias reais.
Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal
“Calle Málaga” é para quem gosta de cinema de autor que não tem pressa, para os que apreciam interpretações de atores veteranos a trabalhar longe dos automatismos do cinema comercial, e para quem se interessa por histórias sobre memória, casa e comunidades diaspóricas no Mediterrâneo. Não é um filme de grandes reviravoltas nem de espetáculo visual — é uma obra de câmara, íntima, que pede ao espectador paciência e atenção ao detalhe.
Em Portugal, “Calle Málaga” estreia esta quinta-feira em exclusivo no Cinema Medeia Nimas, em Lisboa, um dos últimos redutos de programação de autor e cinema independente na capital, com legendas em português. É também mais uma oportunidade de ver Carmen Maura num papel construído à medida da sua presença cénica, quatro décadas depois de se ter tornado um dos rostos mais reconhecíveis do cinema espanhol.

“Calle Málaga” chega a Portugal num momento em que o cinema de autor tem cada vez menos espaço nas salas comerciais, e por isso a sua estreia no Nimas merece atenção redobrada. Sem inventar fórmulas novas, Maryam Touzani confirma-se como uma das vozes mais consistentes do cinema de autor mediterrânico contemporâneo, capaz de transformar uma história pessoal — quase familiar — num filme que fala a qualquer pessoa que já tenha sentido uma casa escapar-lhe das mãos. Não é cinema de urgência, mas de permanência: fica connosco bem depois de as luzes da sala se acenderem, como as melhores histórias sobre o que significa pertencer a um lugar.
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