“Longe de Veracruz” de Enrique Vila-Matas

“Longe de Veracruz” de Enrique Vila-Matas

A melhor das viagens é feita através dos sentimentos

Uma das vozes mais proeminentes da literatura espanhola, o catalão Enrique Vila-Matas é dono de um universo que mescla ensaio, crónica jornalística e uma aproximação novelística assente em várias camadas surrealistas que, por vezes, surgem alicerçadas em fragmentos de algum ironia filtrados entre a realidade e uma particular ficção.

Desde que publicou o seu primeiro livro em 1977, “A Assassina Ilustrada”, Vila-Matas não mais parou de surpreender os amantes da literatura tendo sido através de “História Abreviada da Literatura” que, definitivamente, colocou o seu nome entre os mais reconhecidos autores contemporâneos.

A sua mais recente aventura em forma de livro é “Longe de Veracruz” (Assírio e Alvim, 2014), um relato deliciosamente “tóxico”, sinónimo de um constante estado de alerta intelectual dentro de uma galáxia onírica que desafia a fronteira entre a realidade e a aparente sensação ilusória.

No epicentro do romance está Enrique, o mais novo dos três irmãos Tenorio, narrador deste fascinante livro que aposta na literatura como seu último refúgio. Aos 27 anos, Enrique, enquanto um jovem maneta derrotado pela vida, quer afastar um sentimento de ócio aburguesado através do ato da escrita cujo tema versa sobre o ódio face a Sant Gervasi, um edifício de três andares herança do seu falecido pai, assim como à incapacidade de amar e ser amado.

Enrique pensa um romance que reúne laivos de uma figuração moderna da desgraça tendo como pano de fundo o distante porto de Veracruz, polo inspirador e trágico de uma dramática tradição de espelhar a existência através do conveniente, lógico e apaixonado dom de escrever ainda que sob o espetro de um omnipresente pânico.

É sob esse sentimento mutilado que pretende ocupar o lugar deixado vago pelo seu irmão Antonio, um escritor de viagens que nunca viajou, decidindo ele sim palmilhar mundo e viver uma vida tomada de empréstimo. Repentinamente, Enrique molda a sua vida ao romance e interioriza um misto de segmentação temporal conjugada entre fatias de presente e passado na tentativa de resgatar algo (ir)recuperável.

Esse romance é o reflexo de uma relação amor-ódio com a vida, os seus irmãos e a figura (ausente) do seu pai. Para além disso, Enrique verbaliza um misto de frustração e descrença que apenas encontra antídoto no amor pelas terras distantes que conhece enquanto viaja e mesmo o pavor ao continente africano não ofusca o prazer de conhecer mundo.

É assim que vai construindo uma obra de perfil improvisado, arrancado a ferros, de semblante diário romanceado cujo herói é uma improvável figura quebrada pela impotência de se sentir um ser humano e finito face ao normal curso dos dias, um após outro.

Pelo meio há espaço para canções que passam na rádio como metáforas da vida, anotações em um caderno cuja capa anuncia um trio de tucanos, reflexões face à presença de um obeso anjo que decora uma tapeçaria, uma cantora de bolero assassina, um dentista entregue ao álcool, um cabeleireiro fascista, roubos de objetos pessoais em noites de desvario e um enorme rol de situações rocambolescas.

Tal como em outras obras de Vila-Matas, “Longe de Veracruz” é um típico e admirável exemplo da sua genialidade enquanto escritor. A narrativa obriga o leitor a entrar na trama e assumir um papel expectante face ao que vai acontecer na página seguinte, sem pressas. As palavras fluem dolentemente e as ideias viajam, literalmente, até à nossa mente através de um processo íntimo de cumplicidade pois a escrita de Enrique, que não Tenorio, é uma eterna lufada de ar fresco.



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