“O Impostor” de Javier Cercas

“O Impostor” de Javier Cercas

O passado é uma dimensão do presente

A pergunta impõe-se: Quem é Enric Marco? A consciência dita que se questione, e reza o mantra criado pelo catalão Javier Cercas, se repita essa dúvida até se conseguir uma resposta esclarecedora, mesmo que a mesma esteja envolta de um logro, uma enorme mentira longe de qualquer enquadramento piedoso.

É sob essa premissa que evoluiu “O Impostor” (Assírio & Alvim, 2015), um relato, sob o desígnio de um thriller psicológico, que tem como figura maior, e única, o agora nonagenário barcelonês Enric Marco, símbolo máximo de um panorama crítico, criticável e criticado da história recente de uma Espanha que ainda resguarda, a memória (fresca) do que realmente foi o Holocausto.

A origem deste livro – que demorou cerca de sete anos a chegar até aos escaparates e foi mantido na gaveta enquanto Cercas apostava noutros projetos – remonta a 2005, ano que se deu a conhecer a mentira que foi a vida do, na altura, octogenário Marco, alguém que se dizia um sobrevivente aos campos de concentração nazis.

A maturação de “O Impostor” foi alvo de muitas reservas e nas primeiras páginas da obra Cercas não resiste em confessar: «Eu não queria escrever este livro. Não sabia exatamente porque não queria escrevê-lo, ou sabia que não queria reconhecê-lo ou não me atrevia a reconhecê-lo; ou não totalmente; O facto é que, ao longo de mais de sete anos, resisti a escrevê-lo».

A partir daí, dessa génese algo forçada, Javier Cercas interiorizou o assunto de forma obsessiva e quis contar a verdadeira história de Enric Marco a todos, para lá da ficção de quem quis passar-se por uma espécie de D. Quixote com uma história para contar e encantar o mundo, mas cujo passado estava envolto de um falacioso heroísmo bacoco que era devorado por uma triste realidade que teimava, perigosamente, ocultar.

O maior propósito do escritor catalão foi entender, e partilhar, o que terá feito Marco antes de escrever este pedaço literário de não-ficção. Assim, desprovido de um registo baseado numa vertente erudita, o autor de “Anatomia de um Instante” e “Soldados de Salamina” constrói a sua narrativa entre a alternância de fragmentos da vida real do “impostor” para, de facto, desmontar as suas deceções, verdades (muito cuidado ao cogitar esta palavra e conceito dentro deste contexto) e reflexões sobre a sua própria obra enquanto romancista.

Esta dicotomia entre realidade e imaginação, veracidades e falsidades, faz-nos desaguar num leito realista e, em determinados momentos, cru. Cercas destila o enquadramento de um passado que teima em trazer a palco o regime franquista, algumas fações opostas a este “ideal” e o pseudo-sobrevivente do campo de concentração de Flossenburg que, até ao início do século XXI, se mascarou de presidente da primeira associação espanhola que reunia os deportados para os campos de concentração nazis durante a Segunda Guerra, dava entrevistas e fazia palestras emotivas sobre as suas “façanhas” heroicas. Chegou mesmo a assumir um papel importante no sindicalismo espanhol no início do processo democrático do país, invocando o seu passado anti-Franco, até que o historiador madrileno Benito Bermejo revelou todo este logro em 2005.

Longe de ser uma biografia, “O impostor” não é também uma perspetiva exagerada de um personagem. Aquilo que se pretende é chegar ao fundo de toda a sua trapaça, nem que para isso Cercas tenha de escarafunchar dentro da sua literatura. Tendo essa bitola como ponto de partida, o catalão centra-se nas referências continuas a vários escritores sobre a “nobre” arte de mentir dentro do universo definido como “romance”. Mais vai mesmo mais longe, chegando a reconhecer que, eventualmente, ou não, todos nós temos um lado enganador e que o fazemos para que os outros nos amem e aceitem.

No entanto o caminho que Javier Cercas trilha para chegar a esse fim acaba por roçar a monotonia, e a repetição é, infelizmente, a figura mais recorrente. As frases, as ideias, repetem-se, e a causa da sua escrita cai no cúmulo do exagero, justificado por um ataque cerrado a esquerda e direita, direções políticas e democráticas que acabam por implodir.

No cerne da questão poderá estar no fascínio, aqui sinónimo de obsessão, que Cercas confessa sentir por Marco depois de se saber da sua perversa e mentirosa história. E é esse deliberando “enamoramento” que serve de base a um livro que se situa, poeticamente, num limbo entre o racional e o emocional, entre a objetividade e a literatura.



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