O ouro de Saint Laurent: um adeus em tom de sol
Em Paris, a Saint Laurent vestiu-se de ouro e deixou no ar a pergunta que atravessou a semana: foi este o último desfile de Anthony Vaccarello?
Debaixo da Torre Eiffel, numa passerelle iluminada por candeeiros gigantes, a Saint Laurent apresentou em Paris a coleção Primavera/Verão 2027 quase inteiramente em ouro. O desfile, assinado por Anthony Vaccarello, está a ser lido pela imprensa internacional como uma possível despedida: a casa não fez qualquer anúncio oficial, mas o criador terminou o espetáculo a entregar simbolicamente as chaves da casa ao filho, Luca. Num calendário de moda marcado por mudanças de direção criativa, este foi o momento que mais conversa gerou. E a pergunta fica: o que significa vestir um adeus de ouro?
O momento: uma semana de dúvidas e de despedidas
A Semana de Moda de Paris deste outubro foi, em larga medida, um debate sobre o que deve uma casa de moda representar hoje. Houve estreias, como a de Drew Henry na Courrèges e a de Kai Nesselrath na Carven, aniversários, como o de Matthieu Blazy na Chanel, um ano depois da estreia, e muita especulação nos bastidores. No centro dessa conversa esteve a Saint Laurent.
Segundo a Wallpaper*, a saída de Vaccarello era “amplamente rumorejada” antes do desfile; a The National vai mais longe e afirma que os rumores são verdadeiros e que o criador deixa a casa ao fim de uma década. Do lado da marca não houve confirmação oficial, e é por isso que convém falar em possível despedida. O que ninguém contestou foi o tom: um desfile de encerramento no estilo, mesmo que o título ainda não esteja escrito.
A estética: o ouro como matéria e como metáfora
A decisão estética foi radical na sua simplicidade: toda a coleção em ouro, com exceção de alguns vestidos pretos no final. A referência assumida é o desfile Rive Gauche de 1991 de Yves Saint Laurent, também ele inteiramente dourado, e as notas do desfile recordavam a frase do fundador sobre o ouro ser a cor do sol. Vaccarello disse que o ouro “pode transformar alquimicamente tudo o que toca”.
No guarda-roupa apareceram trench coats metalizados, casacos de safari, alfaiataria em brocado, blusas de folhos, drapeados e laços, vestidos de cocktail, brocados com fio dourado e rendas de fio metálico. As silhuetas de ombros marcados e linhas cortantes que definiram a Saint Laurent de Vaccarello deram lugar, como nota a Wallpaper*, à cor. Os lenços de musselina em absinto, âmbar e conhaque quebraram o monocromatismo. Nos acessórios, brincos enormes, saltos altos vertiginosos, sandálias com saltos em forma de serpente e, curiosamente, nenhuma mala.

O porquê agora: quando uma casa se despede de si própria
Há um fio que liga este desfile ao de 1991: o de um criador a escrever o seu próprio capítulo final em forma de coleção. Mas o contexto de 2026 é outro. Vivemos uma era de rotatividade acelerada nas direções criativas, em que as casas se perguntam constantemente quem são sem o rosto que as define. A The National resumiu a semana toda nessa pergunta, e a Saint Laurent respondeu com glamour sem pedir desculpa, no que descreveu como uma ode orquestrada ao brilho.
O final reforçou a carga simbólica: Charlotte Gainsbourg cantou uma canção cujo refrão repete “You are so much, Yves Saint Laurent”. Vaccarello deixou uma frase que serve de epitáfio possível: “O que passa deixa por vezes mais luz do que o que fica.” Num momento em que a moda se questiona sobre a sua herança, o ouro funciona como memória e como declaração de continuidade.

Quem está a usar (e como)
Como em tantos desfiles de passerelle, a pergunta prática é como se traduz o ouro para a rua. A coleção sugere duas leituras. Uma é a do total look, com trench, casaco de safari ou vestido de cocktail em tom metalizado, que exige atitude e luz natural. A outra, mais acessível, passa por eleger uma só peça dourada, por exemplo um trench ou uma blusa de folhos, e deixar o resto do guarda-roupa em tons neutros ou no preto que fechou o desfile.
Os lenços de musselina e os brincos de grandes dimensões também mostram como o ouro pode entrar no quotidiano em pequenas doses. Em contexto português, onde o clima de primavera e verão pede tecidos leves, o brilho funciona bem de dia quando é contido e de noite quando é assumido.

Onde encontrar — e a que preço
Os preços das peças da coleção Primavera/Verão 2027 não foram divulgados no momento dos desfiles, e a Saint Laurent não costuma comunicá-los antes da chegada às lojas. As peças devem chegar às boutiques da marca e a retalhistas de luxo na estação própria; convém consultar o site oficial e as lojas para confirmar datas e valores.
Para quem procura a ideia sem o investimento, a tendência do ouro e dos metalizados pode ser interpretada em marcas contemporâneas e de preço médio, que costumam responder rapidamente às grandes tendências de passerelle. O truque está em escolher tecidos de boa qualidade e cortes limpos: o ouro perdoa pouco o excesso.
Conclusão editorial
No panorama da moda contemporânea, este desfile da Saint Laurent não é apenas uma coleção: é uma pergunta sobre o tempo de uma casa e de quem a desenha. O ouro, que podia ser ostentação, tornou-se despedida, citação e celebração. Se foi mesmo o último capítulo de Vaccarello, só a casa o dirá. Mas as tendências de moda deste outono em Paris apontam para uma ideia clara: num mundo de mudanças rápidas, as marcas voltam ao arquivo para saber para onde ir. Esta nova coleção fica como um dos momentos que se vão recordar em 2027.
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