Reposição do espetáculo “A Reconquista de Olivenza”
Salada de Referências de um Subconsciente Consciente.
A família real volta a ocupar o Teatro Municipal de São Luiz até dia 16 de outubro para nos contar a mirabolante história da Reconquista de Olivenza – avisam-se os leitores e futuros espectadores de que qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. É provável que saiam deste espetáculo com a sensação de que adormeceram e tiveram um sonho muito viajado.
Mesmo para quem nunca teve boas notas à disciplina de História é sabido que Portugal e Espanha nem sempre se encararam como bons vizinhos. A premissa deste enredo parte desse conflito histórico com a particularidade de meter bolas de dragão à mistura, bolas de Berlim do Califa, e ainda trotinetes e um carrinho de golfe a circular em cena – ora, os cavalos e o coche da era moderna. As ações chegam a ser narradas por uma voz bastante familiar, como se estivéssemos a assistir a um documentário da BBC Vida Selvagem. Porém, atrevo-me a dizer que o melhor é ver como o elenco se diverte nesta lógica do onírico encenada sem nunca desfazer a personagem. Destaco especialmente as figuras monárquicas: a rainha-mãe desbocada e destravada interpretada por Teresa Faria, e a Rainha interpretada por Sílvia Filipe que, para além da magnífica interpretação, revela dotes vocais admiráveis.
Voltando às referências, e sendo que é uma reposição, não faltaram as atualizações em relação ao que se tem passado no mundo, como a guerra na Ucrânia ou as eleições no Brasil, trazidas pelas Santas cujo arquétipo de sagrado ficou nas imagens da igreja. Aliás, não há arquétipo que não seja desconjuntado nesta encenação musical, com belíssimas vozes, mas palavras de uma verdade e comédia acutilantes. Vamos assistindo a um malabarismo de opostos entre o elitista e o brejeiro que testam o limite do comum ultrapassando a barreira do politicamente aceitável alcançando por fim o nonsense. Esta manipulação do que é sem sentido, ridículo até, como modo de parodiar o ser pensante tem-se revelado uma característica frequente das encenações de Ricardo Neves-Neves. Já em Transatlântico e Hamster Clown isso foi facilmente detetável e é sempre divertido. Em A Reconquista de Olivenza a criação resulta de uma parceria com Filipe Raposo, que tem vindo a crescer e a tornar-se mais espontânea, menos planeada e por isso mais frequente. Banda Sonora foi o antecessor em 2018 e tudo indica que regressem com uma criação conjunta em 2023 com O Livro de Pantagruel explorando histórias de cariz mais sombrio que certamente terão o seu q.b. de cómico.
Esta parceria reúne fatores muito apelativos. Apesar da comédia do ridículo acompanhada por orquestra, o público é engolido por cenários e efeitos visuais hipnotizantes com profundidade e sombras. Isto traz a palco um imaginário muito cinematográfico e que julgamos só ser possível de recriar com todas as tecnologias de edição e captura de imagem e que dificilmente esperamos ver ao vivo. Este é o tipo de espetáculo que resgata a alegria da experiência de assistir ao trabalho dos atores. As tecnologias também fazem parte do teatro contemporâneo. No entanto, os filtros são meramente a interpretação do espectador que é sempre livre de ler como bem entender. Certo é que a diversão é garantida e muitos são os espectadores para os quais uma récita não é suficiente.
Até dia 16 podem ver ou rever na sala Luis Miguel Cintra do Teatro Municipal São Luiz este real escape às tormentas da realidade mundana orquestrada por estes dois mestres da ficção teatral.
FICHA TÉCNICA
TEXTO E ENCENAÇÃO Ricardo Neves-Neves
COMPOSIÇÃO E ORQUESTRAÇÃO Filipe Raposo
INTERPRETAÇÃO Ana Valentim, André Magalhães, António Ignês, Bruno Huca, David Mesquita, Diana Vaz, Joana Campelo, João Tempera, José Leite, Juliana Campos, Katrin Kaasa, Márcia Cardoso, Maria Leite, Rafael Gomes, Rita Cruz, Rita Carolina Silva, Ruben Madureira, Sandra Faleiro, Sílvia Filipe, Sissi Martins, Tânia Alves, Teresa Faria, Tiago da Cruz e David Pereira Bastos (voz)
MÚSICOS Jenny Silvestre (Cravo), Nelson Nogueira (1ºViolino), Cristiana Herculano (2ºViolino), Eurico Cardoso (Viola), Sara Abreu (Violoncelo), Margarida Ferreira (Contrabaixo), Natália Grossmannova (Flauta), Filipe Freitas (Oboé), Marta Xavier (Clarinete), Gonçalo Pereira (Fagote), Ricardo Alves (Trompa I), Luís Mota (Trompa II), Óscar Carmo (Trompete), Helder Rodrigues (trombone), Tânia Mendes (Percussão), Marco Fernandes (Percussão)
MAESTRO Cesário Costa
DIREÇÃO VOCAL João Henriques
COORDENADORA DE ORQUESTRA Paula Meneses
ADAPTAÇÃO E LOCUÇÃO DA NARRAÇÃO Eduardo Rêgo
SONOPLASTIA Sérgio Delgado
DESENHO DE LUZ José Álvaro Correia
ASSISTENTE DE LUZ António Pedra
CENOGRAFIA Catarina Barros
ASSISTENTE DE CENOGRAFIA E CONSTRUÇÃO DE ADEREÇOS Cristóvão Neto
ASSISTENTE DE CENOGRAFIA António Muralha e Susana Paixão
CONSTRUÇÃO DE CENOGRAFIA Móveis Maia, Sign-Wide Format Print e Thomas Kharel
COSTUREIRAS DE CENOGRAFIA Ana Maria Fernandes, Maria Costa
FIGURINISTA Rafaela Mapril
CONFEÇÃO Carla Geraldes, Helena Jardim, Lígia Garrido, Maria Afonso, Mónica Fortes, Shabbir Hussain, Esboços Ilimitados Lda, Ana Sabino Atelier: Celeste Sacramento, Sandra De Arez, Anabela Oliveira
ASSISTÊNCIA DE FIGURINOS Ana Caetano, Eliana Lima e Patrícia Margarida Silva
CARATERIZAÇÃO E CABELOS Cidália Espadinha e Dennis Correia
ADEREÇOS DE CARACTERIZAÇÃO Beatriz Pessoa
ASSISTENTES DE CARACTERIZAÇÃO Marco Santos, Guilherme Gamito, Bruno Saavedra, Catarina Félix, Moon e Rita Rosa Pico
COREOGRAFIA DE COMBATES Tiago da Cruz
VÍDEO, ANIMAÇÃO, ILUSTRAÇÃO Temper Creative Agency
TEASER PROMOCIONAL Eduardo Breda
ART DESIGNER José Pinheiro @O_Pinheirojose
APOIO À DRAMATURGIA E ASSISTÊNCIA DE ENCENAÇÃO Rafael Gomes
ASSISTÊNCIA DE ENCENAÇÃO Diana Vaz e Ana Valentim
PRODUÇÃO E COMUNICAÇÃO TDE Mafalda Simões
PRODUÇÃO TDE Andreia Alexandre
PRODUÇÃO EXECUTIVA TDE Adriana Gonçalves
PRODUÇÃO Culturproject Nuno Pratas
DIFUSÃO José Leite
COPRODUÇÃO Cineteatro Louletano, Teatro do Eléctrico, Culturproject e São Luiz Teatro Municipal
APOIOS Antena 1, BIRD, BalletShop, Golfe Jardim, Fresco Produções, Make It Happen, Mascarilha, Pecosita Pepito, Polo Cultural Gaivotas/ CML, Ouro Têxteis, RTP2, TBA, Vidal Tecidos
AGRADECIMENTOS Artistas Unidos, Cineteatro São Pedro (Alcanena), Teatro do Bairro Alto – TBA, Dra. Guilhermina Augusta Pelicano Jorge, Ofélia Meiyu e Helena Deng Yuanying /// O Teatro do Eléctrico é uma estrutura apoiada pela República Portuguesa – Cultura / Direção Geral das Artes, pelo Cineteatro Louletano/Câmara Municipal de Loulé e pela Câmara Municipal de Lisboa / Polo Cultural Gaivotas | Boavista
M12/90 MIN
O Livrinho de Teatro nº160, A Reconquista de Olivenza, texto de Ricardo Neves-Neves, foi publicado pelos Artistas Unidos/Snob, em Junho de 2022, disponível em https://artistasunidos.pt/livrariaonline/produto/a-reconquista-de-olivenza/
Bilheteira: 213 257 650 | bilheteira@teatrosaoluiz.pt
Apresentações
Lisboa, São Luiz Teatro Municipal, 1 a 16 OUT, 2022
LGP: 16 OUT, domingo, 17h30
AD: 14 OUT, sexta, 20h, e 16 OUT, domingo, 17h30
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