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“A Cozinheira do Ditador” de Afonso Cruz

A última ceia da turpíssima bestia

A literatura e o cinema são artes irmãs, muitas vezes siamesas. Por coincidência, ou talvez não, um exercício descomprometido de zapping fez com que surgisse no pequeno ecrã uma das obras maiores de Peter Greenaway, no caso O Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante, filme criado no já longínquo ano de 1989.

O enredo, completamente surrealista, versa sobre Albert Spica, marginal que tem por hábito jantar num extravagante restaurante francês na companhia de seus capangas e da esposa, Georgina. No entanto, esta, cansada do marido, inicia um caso com Michael, ávido leitor e frequentador do estabelecimento. E com a ajuda do chef Richard, encontram-se nos recantos do restaurante até Spica descobrir o romance.

A narrativa, bizarra, é marcada por uma dinâmica de cores e diálogos que tornam este filme num marco do cinema do final do século XX, tendo feito com que Greenaway se tornasse num dos nomes maiores da Sétima Arte. Mas o que é também sempre uma constante é a omnipresente referência à comida.

E é aí que encontra paralelismo com A Cozinheira do Ditador (Companhia das Letras, 2026), o mais recente livro de Afonso Cruz e um dos mais interessantes deste ano que vai a meio, que funciona com um jogo de espelhos, obrigando o leitor a desconfiar do que “vê”, do que lhe é contado e até da dimensão moral das personagens. Pois, o que parece ser a história de uma cozinheira submetida à vontade de um ditador transforma-se progressivamente numa reflexão sobre violência, poder, desejo, memória e, sobretudo, a capacidade da cultura para resistir à barbárie.

Afonso Cruz tem uma rara capacidade de combinar imaginação, profundidade filosófica e sentido alegórico, e, neste livro, volta a consegui-lo, muito à boleia da culinária que funciona simultaneamente como arte, linguagem, arma e mecanismo de sobrevivência.

O ditador do título, acumula a forma humana mas também de metáfora, encarnando todas as formas de opressão, desde as mais visíveis às mais íntimas, com Afonso Cruz a construir uma persona que oscila entre o grotesco e o monstruoso, uma “turpíssima bestia” cuja violência, física e emocional, não se manifesta apenas nos gestos, mas na forma como ocupa o espaço, controla os corpos e devora tudo o que o rodeia, tornando-se devastadora.

Nesse sentido, o romance tem como ingredientes generosas porções de Kafka ou García Márquez, acompanhadas de pitadas das alegorias políticas criadas por Saramago. No entanto, a originalidade de Cruz está como desloca a reflexão política para o território do prato, e como os intestinos assumem-se quase como um tribunal digestivo: tudo é julgado pelo corpo. O que se come, o que se rejeita, o que permanece e o que é expelido, tornam-se categorias morais. A digestão transforma-se numa metáfora da consciência.

A comida surge repetidamente associada a imagens, religiosas e artísticas, algumas delas impressas nas páginas, não sendo difícil encontrar ecos de A Última Ceia ou do milagre dos pães e dos peixes em várias passagens do romance, onde o alimento deixa de ser sustento para se tornar símbolo de comunidade, sacrifício ou redenção. Da mesma forma, o elogio do pão que atravessa a narrativa ganha uma dimensão quase espiritual. O pão, em especial o partilhado por Cristo, surge como um dos últimos elementos capazes de unir os seres humanos, ao lado do afeto.

A arte, nas mais diferentes manifestações, atravessa discretamente a obra. Em determinados momentos, a descrição dos excluídos, dos famintos e dos vencidos faz lembrar os rostos sombrios de Os Comedores de Batatas, de Van Gogh. Tal como nesse quadro, existe aqui uma dignidade silenciosa atribuída aos que sobrevivem nas margens. No entanto, Cruz nunca romantiza o sofrimento, mas procura encontrar humanidade onde aparentemente apenas existe degradação.

É precisamente nessa procura que a biblioteca, local de refugio da protagonista, assume um papel central. Num romance onde quase tudo parece contaminado pela violência ou pelo desejo de controlo, a biblioteca e os livros surgem como espaço(s) sagrado(s), lugares de resistência e libertação para a protagonista que neles se refugia do mundo. A leitura é, pois, fuga e transformação. E se o ditador representa a força bruta, os livros representam a possibilidade de imaginar alternativas. Em certo sentido, o romance sugere que a besta morre através da leitura. Ou talvez sobreviva apenas enquanto deixamos de ler.

A sede de vingança da protagonista constitui o motor narrativo da obra, mas não surge como catarse simplista. É lenta, complexa e profundamente ambígua. Como refere a própria premissa do livro, ela é servida… fria. Mas é também servida metaforicamente. O veneno não aparece apenas nos caroços de pêssego que percorrem a narrativa como uma ameaça latente; encontra-se sobretudo nas ideias, nas palavras e nas memórias acumuladas ao longo dos anos.

Mesmo as personagens secundárias (Sintáctica Simples ou o imóvel segurança Dimitar) contribuem para esta atmosfera de permanente tensão, de uma aparente passividade agressiva que torna-se reflexão sobre todos aqueles que observam a violência sem a impedir, sendo figuras tão inquietantes quanto o próprio agressor, dando mais sal à obra.

Outro dos aspetos mais interessantes do romance é a forma como aborda a sexualidade. O sexo surge associado tanto ao desejo como ao domínio, oscilando entre intimidade e instrumento de poder como o autor a direcionar as relações humanas para zonas cinzentas, onde amor, dependência, submissão e resistência coexistem.

Mas se há algo que distingue A Cozinheira do Ditador de outras alegorias políticas contemporâneas é precisamente o combinar reflexão filosófica com prazer narrativo, fazendo-nos pensar sobre o poder do ditador, misto de pesadelo e possibilidade humana que se esconde (ou não, dependendo da falta de vergonha) nas instituições, nas relações e até nos espaços mais íntimos da vida quotidiana.

No final deste repasto literário, sempre bem contextualizado pelas notas reunidos no final, há espaço para uma digestão turbulenta cuja sobremesa é uma política feita por monstros que deixa desconfortáveis com a ideia de que eles vivem apenas nos outros. Cabe-nos o ónus de rever a receita e optar por um prato decorado com democracia, tolerância, liberdade e respeito pelo outro.



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