“O que a chama iluminou” de Afonso Cruz
Nas intermitências da morte
A vasta obra de Afonso Cruz, falemos de livros para graúdos ou gente pequena, está, desde sempre, marcada e associada, subjetivamente, claro, a vários adjetivos, daqueles bons, mas um dos mais que se destaca é o facto de ser coerente, neste contexto sinónimo de superlativo e/ou transcendente.
Por isso, cada livro do autor de Para onde vão os guarda-chuvas, Jesus Cristo bebia cerveja ou Nem todas as baleias voam, é aguardado com (grande) expectativa e o mais recente O que a chama iluminou (Companhia das Letras, 2024) não podia apartar-se dessa “regra”.
Tendo a morte como ponto de partida e de chegada, neste livro em forma de novela-ensaio Cruz mescla o relato de duas experiências por terras do Chile, que quase lhe custaram a vida, com reflexões sobre a filosofia da existência, mas também do fim, de deambulações por várias geografias do mundo dos pensamentos filosóficos e da literatura, passando pela biologia, com referências ao capitalismo selvagem.

Tudo, ou quase, no mundo de Afonso Cruz pode ser objeto de racionalização, com recurso à fantasia criativa, como o autor faz, por exemplo, nos vários tomos da sua Enciclopédia da estória universal, da qual encontramos paralelismos estéticos em O que a chama iluminou. Também por isso não se estranhe a presença de Charles Darwin nas suas páginas, em particular em relação às experiências realizadas com alguns voluntários à força do povo yámana, nómadas naturais da Terra do Fogo, ou Patagónia, ou de pensamentos de Saint-Exupéry, no extraordinário texto que é homónimo do título de livro, de metáforas que confundem botões com o vil metal na inocência de quem é, de facto, inocente e vítima da ganância intelectual, onde a ética e a humanidade não são para lá ditas nem achadas.
E no livro onde a morte está omnipresente, seja das pessoas, dos lugares ou da diversidade linguística e de metade dos idiomas do mundo, ou do próprio planeta, Afonso Cruz traz à memória o drama de gente que vê a vida interrompida por ditaduras bacocas que, por exemplo, podem levar a que as mulheres de Calama procurem restos dos seus entes queridos no Deserto de Atacama, entes esses que pereceram às ordens do sanguinário Pinochet, ideais que, triste e assustadoramente parecem voltar a ameaçar um mundo sem memória.
No entanto, numa intencional tentativa genuína de equilibrar a balança da vida, Afonso Cruz não esquece de enriquecer a narrativa, composta por textos/fragmentos/pensamentos que podem assumir uma, duas, ou meia dúzia de páginas, por reflexões que nos lembram que a «a melhor vida é a que está por chegar» ou que por mais de que nos queiram retirar o que mais amamos, podemos sempre criar uma «camada invisível da memória» que aconchega a nossa saudade face a quem já partiu. Sejam essas memórias palavras, cheiros ou imagens, como as fotos que estão no final deste livro.
Tudo isto e mais, muito mais, está por revelar e ser sentido nas páginas desta obra que «nasceu de um beco», que partilha cicatrizes físicas e emocionais, e que oferece mais uma vez a bela e sentida prosa de Afonso Cruz, fazendo com que sintamos sempre alguma alegria em ter, ler, mais um livro de um autor que gostamos.
There are no comments
Add yoursTem de iniciar a sessão para publicar um comentário.

Artigos Relacionados