“Amanhã na Batalha Pensa em Mim” (Alfaguara, 2014)

“Amanhã na Batalha Pensa em Mim” de Javier Marías

O fantasma da traição

A escrita de Javier Marías é diferente, ímpar e contagiante. O seu estilo narrativo recorre, com uma acutilante pertinência, a repetições e múltiplas contextualizações que em nada levam o leitor a pensar em redundâncias ou traços contraproducentes. Numa única frase, Marías conduz-nos através de várias camadas reflexivas que lembram os esboços do artista gráfico holandês M. C. Escher, sendo que aqui, essas construções impossíveis assumem a forma de palavras que, através de um sentido direcional próprio, conduzem-nos até bom porto. O estilo é pausado, pensado, e cada pormenor é importante para a globalidade da ideia.

Em “Amanhã na Batalha Pensa em Mim” (Alfaguara, 2014), romance publicado originalmente em 1994, Javier Marías, conta um episódio da vida de Victor Francés, um guionista a atravessar um mau período na carreira, que aceita um convite de Marta Telez, uma atraente mulher, casada, que conheceu há pouco tempo, que aproveita a ausência do marido em viagem para combinar tal encontro.

Um pouco timidamente, Victor apercebe-se que, afinal, o convite encerra em si um contexto romântico. Mas a ideia da traição, do adultério, é um nado morto. Marta sente-se mal e morre. Num ápice, e de forma inesperada, a vida de Victor muda. Madrid fica ainda mais invernosa e negra e não resta outra coisa a Victor senão fugir daquela casa, da situação.

Para trás deixou entregue ao seu sono, o filho de Maria, um menino de dois anos que dormia no quarto do lado. As dúvidas são muitas. O que fazer com o corpo de Maria? Deverá Victor avisar as autoridades? Que fazer com a criança? Que dizer ao marido ausente?

Mas é a reação ao fantasma da infidelidade, ainda que não consumado, que Victor mais teme e lhe corrói os pensamentos e, mais uma vez, Javier Marías é capaz de escrever uma narrativa notável que coloca o dedo na ferida dos sentimentos que nos consomem.

A melancolia omnipresente das palavras de Marías aliviam o espetro da tristeza, desse adormecer tranquilo que, gradualmente, se impregna na mente. Ainda assim, há esperança neste discurso e é esse o farol que possibilita uma leitura “confortável” e garante um sentido de orientação. Essa vivacidade (e vitalidade) é preciosa. Permite ver a fragilidade e nudez de um discurso silencioso, sem esforço aparente, como quem se despede de um local tendo um destino prévio traçado.

A dicotomia da personagem de Maria leva-nos a supor uma ideia difusa: descansará em paz ou agonia na inquietude? Para trás deixou o mundo, espaço que deixou de habitar mas que ainda acolhe os seus entes queridos: o seu pai, a sua irmã, o seu marido, o seu filho. Mas existe outro alguém, um fantasma. Um ser que pertence ao seu passado imediato, alguém que desconhece, fora do seu círculo de amigos e família, alguém que esteve a um passo de se ter tornado espacial, se ela vivesse um pouco mais, e é no fundo a única pessoa que conhece as circunstâncias da sua morte, da sua alma conspurcada pela traição ainda que não devidamente consumada. Esse alguém é Victor, o narrador.

E é Victor a quem Marias dá o ónus da contextualização shakespeariana presente em “Amanhã na Batalha Pensa em Mim”, a pessoa que segue o pensamento do fantasma de Lady Anne para com Ricardo III, no último ato da conhecida tragédia do dramaturgo inglês. A própria situação, ou encenação, está envolta de um sentido ridículo e lamentável. Algo que ninguém pode controlar ou ter escolhido mas que se tornou num destino comum, de alguém que morre e de outro que é testemunha (forçada). Mas impõem-se uma pergunta: quem opta por fazer memórias com o último suspiro de outro, principalmente quando advém de lábios vermelhos?

Qual é a história que começa pelo fim, pelos últimos momentos passados nos braços de um desconhecido? Talvez nenhuma, mas a vida é uma caixinha de surpresas e, principalmente, de dilemas. Javier Marías consegue construir uma história, um romance, com esses elementos, mergulhando numa investigação filosófica que trilha um longo caminho através das já referidas frases intermináveis, desvios frequentes e uma eloquente prosa. Daí resulta um esperado “atrofio” do leitor, que cresce, controlado, através de um singelo fragmento de um passado esquecido, que ilumina o significado de um suposto presente inconsequente.

Marías, faz-nos ver, mostra o caminho e a luz, e somos obrigados a admitir que por trás de uma fachada normal, escondem-se figurações que deambulam entre o angelical e o demoníaco, os opostos que constroem uma mesma alma. Nunca somos capazes de admitir que somos a génese da dor implacável ou um salvador por e do acaso, uma inexplicável razão para a vida e/ou a morte de alguém.

Tal como em outros (maravilhosos) livros de Javier Marías, todas estas distorções não existem sem um narrador, no caso Victor. Há semelhança de outros, o “nosso” guionista possui uma particular compreensão da vida conseguindo arrebatar em si todas as similaridades do ser humano. Todos temos a nossa quota-parte de arrependimentos, boas e más memórias, relações distantes, conexões acidentais e uma dose “certa” de tudo ou nadas que permitem guiar a existência e torná-la surpreendente, secreta e com anseios e certezas reveladas. Javier Marías consegue libertar essa voz e ouvi-la é imperioso. É como se um conselho de um amigo se tratasse. Um camarada fiel e presente.



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