Porque é que fodemos o amor?
“O amor é fodido” de Miguel Esteves Cardoso foi o chão onde João Garcia Miguel costurou um objeto teatral que, entre a comédia e a sátira, assume os riscos da improvisação e de uma comunicação mais direta com o público. Depois de estrear no Ferroviário em Lisboa, fez as malas e está em digressão pelo país. A próxima apresentação é em Torres Novas no Teatro Virgínia, a 11 de Abril.
No palco nu uma pequena máquina de cena, uma singular cadeira de rodas onde estará Teresa, a interlocutora imaginária que suporta todo o monólogo teatral. É antes de mais um teatro pobre, de grande simplicidade, de um grande despojamento, onde se poderá dizer que o único artificio cénico é o actor, o seu corpo, a sua capacidade de se transmutar, de nos sugerir outros personagens, Teresa, os seus amantes.
Na conversa que teve com o público no final do ensaio a que assistimos, João Garcia Miguel assumiu essa procura:
“Isso é uma questão que tem a ver com o meu projeto artístico, teatral. Acho que o teatro tem também que descer aqui, a salas mais pequenas. Nós estamos a ficar reféns desta ideia de que só há salas grandes, só há o São Luís, só há o Nacional… Não! Não pode ser! Nós, quando começámos a fazer teatro, e lembro-me disso perfeitamente, nos anos 90, nós tínhamos imensas salas alternativas, fazíamos teatro em todo o lado. E isso era muito significativo, era muito importante, porque íamos à procura do público, porque também nós estávamos sempre a experimentar. O teatro hoje está uma velha senhora, está muito bem-comportado.”
Do romance ao texto cénico, um amor quase perfeito?
Há algo que se revela logo que pegamos no livro “O Amor é fodido” de Miguel Esteves Cardoso e que João Garcia Miguel consegue com felicidade transpor para cena: o texto expressa uma voz própria cuja intensidade se adequa de uma forma imediata ao monólogo teatral. Todo o longo e apurado trabalho dramatúrgico que permite que das quase duzentas páginas tenha surgido um texto cénico de cerca de vinte páginas, assenta e revela logo essa potência teatral que o romance já tem. João, o protagonista, é um ser deambulante na sua memória – por isso não há nenhuma linearidade narrativa – e esse processo narrativo muito específico em que a ação parece que anda aos solavancos, permite-nos aceder a uma voz que por vezes parece quase perto da loucura, outras de uma quase quotidiana racionalidade. Ficamos por isso com uma dúvida, uma especulação, e que acaba por ser benigna tanto a favor do romance como do objecto teatral: a de que a sua montagem cénica permite ao romance encontrar-se com a intensidade máxima da sua voz dramática. Uma revelação que dificilmente estaria acessível na mera leitura literária.
E se assim for, neste quase perfeito amor entre romance e cena, é preciso destacar o trabalho dramatúrgico realizado. João Garcia Miguel falou disso:
“ No fundo este texto é um trabalho também muito sobre a linguagem. E eu aqui tentei montar essa estrutura narrativa, seguindo um bocado a cronologia do livro, e limpar muitas coisas, porque é uma obra de teatro, no fundo tem essa lógica também associada. E acho que isso também é difícil, porque de alguma maneira se percebe que este homem, apesar de todas as brutalidades, todas as coisas, ele acabou por se ligar a esta mulher como se ela fosse uma espécie de música, uma espécie de deusa, uma coisa que era muito importante, uma coisa do qual ele nunca mais se vai libertar. É quase que um agente poético, uma entidade poética, sempre à procura. Toda a peça é estranha, porque ela na verdade é quase que uma espécie de Romeu e Julieta. São duas pessoas que chegam a um certo sítio e decidem matar-se. Dizem ‘nós já não sabemos muito bem o que mais podemos fazer com o nosso amor um do outro, isto já não dá para nos amarmos mais, então vamos nos matar’. Mas depois ainda por cima enganam-se um ao outro, não se matam.”
Um trabalho sobre a linguagem
Para João Garcia Miguel há uma dimensão humana na peça que lhe interessou muito e o trabalho dramatúrgico foi também no sentido de a tentar preservar. No trabalho sobre a linguagem houve uma questão muito particular que lhe interessou: o uso da linguagem obscena, o palavrão. Explicou-nos:
“Acho que o Miguel diz isso em entrevistas, que ele gosta de dizer palavrões. Eu adoro também dizer palavrões. Digo montes de palavrões, por vezes sozinho, só para desopilar. Na verdade, o palavrão tem uma função muito importante. Pões as emoções cá para fora, quer dizer, deixas de ter uma úlcera, tens 20 palavrões por dia, deixas de ter problemas de estômago, deixas de ter problemas de garganta, ficas menos maluco, menos deprimido. Eu acho que dizer palavrões sozinho é uma coisa também importante, e por isso o monólogo acabou por ser isso, porque eu senti que o livro também era esse jacto, essa voz única.”
Improvisar, experimentar, um teatro ao pé do risco
E depois do trabalho dramatúrgico, temos um actor, o mesmo João Garcia Miguel, cujo percurso artístico é muito singular no contexto das artes performativas. Com uma formação académica onde as Belas Artes se cruzam com a Comunicação e a Cultura, as suas experiências artísticas integram a performance, as instalações e o teatro, foi membro fundador do grupo Canibalismo Cósmico, da Galeria ZDB e fez parte do coletivo Olho. Criou desde 2002 a Companhia JGM, tendo nela, com a peça Yerma, ganho o prémio de melhor espectáculo da SPA ( Sociedade Portuguesa de Autores) em 2014.
Em “O amor é fodido”, João Garcia Miguel surge-nos em grau de exposição máxima, sem truques de luz, sem aparatos, servindo-se da natureza da personagem, dos seus movimentos muito peculiares, ali entre o narrador que nos conta uma história e o personagem que é sugado, numa espécie de catarse dramática, para dentro da narrativa que transporta. Na conversa com o público falou também da forma como quer trazer o espectador para dentro desta construção dramatúrgica. Impressionou-me a grande honestidade com que falou desse processo:
“ Eu não tenho ainda coragem suficiente para fazer tudo o que nós já pensámos fazer. Há alguns momentos em que eu arrisco mais que outros. Hoje menos também, se calhar, e eventualmente com o tempo farei mais isso. Não é só cortar a quarta parede, é interpelar, é na verdade colocar-me nessa posição de muita proximidade com o público. É criar espaços de improvisação.”
Entusiasma-se quando fala da importância desse trabalho sem rede com o público, invoca os anos 80 e 90, o valor da experimentação teatral:
“ O teatro é um instrumento de intervenção muito importante, mesmo muito importante, e por isso há que voltar a experimentar, há que voltar a arriscar, há que tentar misturar o stand-up com o teatro, que nem é bem stand-up, mas é algo que, na verdade, interpela, vai, arrisca, que sai desta quarta parede, aproveitando aquilo que é a temática do próprio texto, aquilo que nele é elástico, é flexível. Pode invadir, pode ser invadido, pode falhar, pode fazer outras coisas. Acho que hoje em dia é muito significativo voltarmos a poder sentir que o teatro é mais qualquer coisa do que só a gente ir para um sítio, ficar ali defendido, em que nós sabemos que não vai acontecer nada. O teatro é uma coisa perigosa, o teatro é uma coisa que continua a ter uma potência de influenciar a nossa vida, os nossos sonhos, a maneira como nós ouvimos, como falamos, como pensamos. “
O Amor é Fodido | Ficha Artística e Técnica
Texto: Miguel Esteves Cardoso
Adaptação do texto, Direção Artística e Interpretação: João Garcia Miguel
Apoio ao desenvolvimento do personagem: Michael Margotta.
Apoio Dramatúrgico e Assistente de direção: Paulo Oliveira
Assistente de direção: Gustavo Antunes
Figurino: Rute Osório de Castro
Direção Executiva: Suzana Durão
Direção Técnica: Gonçalo Lobato e Clemence Peytoreau
Coordenação Educação e Acessibilidade: Cintya Floriani
Fotografia: Mário Rainha Campos
Design Gráfico: Miguel Santos
Classificação 18+
Duração: 70 min.
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