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Amores Perros: 25 anos depois, a ferida continua viva no MUBI

O restauro 4K da estreia fulgurante de Iñárritu chega ao MUBI em exclusivo — e prova que o cinema mexicano nunca mais foi o mesmo.

Vinte e cinco anos depois de ter rebentado com o cinema mexicano — e com boa parte do cinema mundial —, Amores Perros está de volta. A estreia fulgurante de Alejandro González Iñárritu chega ao MUBI esta sexta-feira, 10 de julho, num restauro 4K feito a partir do negativo original de 35mm e supervisionado pelo próprio realizador e pelo diretor de fotografia Rodrigo Prieto. É a primeira vez que esta versão restaurada fica disponível em streaming, em exclusivo na plataforma, e sim: está disponível em Portugal. Se nunca viste o filme que lançou Gael García Bernal e inaugurou uma das carreiras mais premiadas do cinema contemporâneo, esta é a semana certa.

O que é Amores Perros: a premissa

Um acidente de carro no centro da Cidade do México. É este o ponto de colisão — literal e narrativo — que une as três histórias de Amores Perros. Octavio (Gael García Bernal, então com 21 anos) é um adolescente que aposta o cão do irmão em lutas clandestinas para juntar dinheiro e fugir com a cunhada. Valeria (Goya Toledo) é uma modelo espanhola no auge da carreira que, depois do acidente, vê a sua vida desfazer-se dentro de um apartamento novo. El Chivo (Emilio Echevarría) é um antigo guerrilheiro tornado sem-abrigo e assassino a soldo, que vagueia pela cidade com uma matilha de cães e as memórias de uma filha que não conhece.

O guião de Guillermo Arriaga entrelaça os três segmentos em torno desse acidente, saltando no tempo e cruzando personagens de forma quase invisível. A estrutura fragmentada, que hoje parece familiar, era em 2000 uma pequena revolução — e continua a funcionar porque nunca é um truque: cada história tem peso próprio, e os cães que atravessam as três funcionam como espelho brutal da condição das personagens.

Amores Perros — fotograma do trailer do restauro 4K
Amores Perros, de Alejandro González Iñárritu — restauro 4K em estreia exclusiva no MUBI. © MUBI

A linguagem e o estilo

O que distingue Amores Perros de qualquer produto mainstream é a energia. A câmara ao ombro de Rodrigo Prieto, os tons saturados e sujos, a montagem nervosa que abre o filme com uma perseguição de carro em fúria total — tudo isto criou uma gramática visual que foi copiada durante duas décadas, raramente com a mesma convicção. Prieto filmou a Cidade do México como um organismo vivo: caótica, cruel, tenra em momentos inesperados.

A banda sonora de Gustavo Santaolalla — que mais tarde venceria dois Óscares e comporia a música de The Last of Us — dá ao filme uma pulsação melancólica que contrasta com a violência das imagens. O restauro agora disponível foi feito a partir do negativo original de câmara, digitalizado em 4K de 16 bits, com a gradação de cor aprovada por Iñárritu e Prieto. É a versão definitiva de um filme que sempre pediu para ser visto com esta textura de grão vivo.

O que o filme tem a dizer

Por baixo do fôlego formal, Amores Perros é um retrato de classes de uma cidade — e de um país — em fratura. Octavio vive na precariedade dos bairros populares, Valeria no verniz da publicidade e da televisão, El Chivo nas margens absolutas. O acidente que os liga não é apenas um artifício narrativo: é a afirmação de que, na Cidade do México de viragem do milénio, as vidas colidem sem nunca se tocarem de facto.

O filme fala de amor em todas as suas formas falhadas — amor que trai, amor que se desfaz com o corpo, amor que chega tarde demais — e usa os cães como metáfora despida de sentimentalismo: leais, ferozes, descartáveis, conforme o dono. Vinte e cinco anos depois, a frase do trailer do restauro resume tudo: a ferida continua viva.

Quem o fez e de onde vem

Em 2000, Alejandro González Iñárritu era um antigo DJ de rádio e realizador de publicidade a assinar a primeira longa-metragem. Amores Perros estreou na Semana da Crítica de Cannes, venceu o Grande Prémio dessa secção, foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e venceu o BAFTA de melhor filme em língua não inglesa. Foi o pontapé de saída da chamada trilogia da morte, completada com 21 Grams e Babel, sempre com Arriaga no guião.

O resto da história é conhecido: Iñárritu tornou-se o primeiro realizador mexicano a vencer o Óscar de Melhor Realização, fê-lo dois anos seguidos com Birdman e The Revenant, e soma cinco Óscares. O restauro 4K de Amores Perros foi apresentado na secção Cannes Classics antes de o MUBI o adquirir para distribuição mundial — passou pelas salas americanas em junho e chega agora, a 10 de julho, ao streaming, em exclusivo.

Amores Perros — imagem ilustrativa da atmosfera urbana do filme
Imagem ilustrativa inspirada no universo urbano de Amores Perros (ilustração digital). Filme disponível no MUBI.

Vale as duas horas e meia?

Sem reservas. São 154 minutos que passam com a urgência de um thriller e ficam com a densidade de um romance. Aviso honesto: as cenas de lutas de cães, ainda que encenadas sob supervisão (o próprio filme o declara no genérico), continuam difíceis de ver, e a violência não é decorativa. Este não é um filme de domingo à tarde — é cinema de autor no seu estado mais físico.

O espectador ideal? Quem quer perceber de onde vem meio cinema latino-americano das últimas duas décadas, quem viu Birdman ou The Revenant e nunca recuou até à origem, ou quem simplesmente sente falta de filmes com sangue nas veias. Basta uma subscrição MUBI — o filme está disponível em Portugal desde dia 10 — e uma noite livre. No streaming alternativo, raramente a relação esforço-recompensa foi tão desequilibrada a favor do espectador.

Um clássico que o streaming devolve como novo

O melhor do streaming alternativo não é a quantidade — é a curadoria. Enquanto as grandes plataformas enterram os catálogos em algoritmos, o MUBI escolhe um filme e trata-o como acontecimento: restauro supervisionado pelos autores, passagem por Cannes Classics, sala de cinema primeiro, streaming exclusivo depois. Amores Perros merece exatamente este tratamento. Vê-lo hoje, restaurado, é redescobrir que houve um momento em que um realizador estreante, um guionista obsessivo e um diretor de fotografia genial mudaram as regras do jogo com três histórias e uma cidade inteira. A ferida, felizmente, continua viva.



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