“Despedidas impossíveis” de Han Kang
Uma brancura tingida de sangue
Imaginemos um cenário branco, ainda que nem sempre totalmente imaculado, por terras da Coreia do Sul. Essa brancura, por vezes pura, outras conspurcada e invadida pelo sangue outrora derramado, é o cenário de Despedidas Impossíveis, de Han Kang (D. Quixote, 2025), livro que agora chega Portugal e que, em conjunto com a restante obra de Han Kang, valeu à escritora nascida em Kwangju o Prémio Médicis 2023 e o (tão merecido) Nobel da Literatura.
E é nesse cenário que as duas protagonistas se aventuram numa viagem, que mescla realidade com sonhos e espiritualidade, dor com memórias, e muitas feridas que teimam em manter-se abertas. Falamos de duas mulheres que construíram uma forte amizade ao longo dos anos, ainda que o tempo e a geografia as tenha separado.
Essas mulheres são Kyungha, escritora e habitante na capital Seul, e narradora deste livro, que vive um momento emocionalmente conturbado relacionado com o seu passado, constantemente assaltada por terríveis sonhos, e que luta diariamente para conseguir a melhor versão do seu testamento, algo que tarda em acontecer; e Inseon, artista multidisciplinar que se distinguiu como realizadora de documentários, habitante da Ilha de Jeju, local que foi palco do massacre que assolou a Coreia no final da década de 1940, fruto do terrível processo de descolonização por parte do Japão e que deu origem a cerca de 30 mil mortes.
Além de terem partilhado alguns trabalhos, juntas tinham, em tempos, combinado em fazer um documentário que traduzisse os sonhos de Kyungha, mas o projeto foi adiado, pelos menos por uma das partes, e a distância entre as duas cresceu. Foi devido a esse apartar que Kyungha estranhou a mensagem de Inseon pedindo que a visitasse urgentemente no hospital (Inseon feriu gravemente os dedos quando estava a cortar madeira) numa manhã gelada de um dezembro marcado por uma tempestade de neve. A razão de toda essa urgência relacionava-se com um favor que Inseon queria pedir à sua amiga: ir a sua casa para alimentar os seus periquitos que, caso contrário, não sobreviveriam.
A esse pedido juntou-se a preocupação de ver o estado de Inseon que na sequência de ter cortado a ponta de alguns dedos tinha de ser picada a cada três minutos por uma enfermeira para garantir que os tendões não perdessem a vitalidade. Apesar de muito preocupada, e assustada, Kyungha aceita a demanda, ainda que tenha noção de que a viagem vai ser muito complicada, pois o mau tempo ameaça e muitos autocarros foram cancelados ou estão atrasados. Mas a forte amizade que as une é o motor que faz com que Kyungha enfrente a fúria da Natureza para tentar salvar a vida das aves.
Com muita dificuldade, lá consegue apanhar um autocarro e é na quase exclusiva companhia do motorista que chega perto do seu destino, pois depois de se apear ainda tinha de percorrer um longo caminho até à casa da sua amiga, trajeto que pouco ou nada se lembrava e que vai ser um dos maiores desafios da sua vida, pois à medida que é engolida pela neve, frio, vento e escuridão da noite, e a lutar contra enxaquecas e espasmos abdominais, também a sua sobrevivência está em jogo. Felizmente, consegue chegar ao seu destino e ao entrar na casa de Inseon encontra um mundo sepultado nas memórias da família da realizadora e que traz à tona memórias e fantasmas do passado relacionados com o massacre de Jeju.
Com essas premissas como ponto de partida para um romance que olha para o luto de um povo atormentado com o passado, Han Kang constrói uma narrativa deliciosamente descritiva e dividia em três partes em que gradualmente os factos contextuais vão dando lugar às metáforas (em especial através do rigor dos caprichos de um Natureza palpável, ora doce, ora agressiva) e a um mundo de sonhos e surrealismos líricos (os periquitos Ama e Ami ou os troncos que assumem as figuras humanas representadas nos sonhos de Kyungha) vincadamente dolorosos.

Como na leitura de um diário, os capítulos de Despedidas Impossíveis alternam entre o presente e os ecos de um passado vivido por ambas as protagonistas, juntas ou separadas, em que os flashbacks e os itálicos toldam e moldam os sentidos do leitor em camadas emocionais pautadas por momentos de brutalidade, compaixão, melancolia, entre o desabafo e o medo, entre a luz e a sua ausência, e em que tudo vale para vencer os pensamentos que atormentam as almas frágeis, nem que isso signifique dormir com uma serra de arco debaixo da cama para afugentar as tormentas. Pelo caminho há ainda espaço para refletir sobre o poder da mulher, a liberdade, a opressão e violência sobre um povo “legitimadas” sobre uma bacoca supremacia do invasor face à fragilidade do invadido, a solidariedade e, acima de tudo, a luta contra o esquecimento.
Não sendo um livro “fácil” e que exige alguma resiliência ao leitor, como, por exemplo, algumas passagens da obra de Jon Fosse, Despedidas Impossíveis é um bonito exercício de catarse que condensa décadas de sofrimento individual e coletivo de um povo que continua refém de uma história guardada em pedaços de jornais rasgados, livros, fotografias e cartas à família, através dos quais se misturam dor e esperança, sonhos e pesadelos e em que a neve está sempre presente.
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