imagem_destaque-45

Google reinventa a pesquisa com IA: o maior salto em 25 anos

A empresa anunciou no Google I/O 2026 uma reformulação radical do Search, com agentes autónomos que monitorizam a internet 24 horas por dia.

A Google apresentou esta semana, durante a conferência Google I/O 2026, aquela que é considerada a maior transformação do seu motor de pesquisa em mais de 25 anos. O novo Search deixa de se basear exclusivamente em palavras-chave e passa a integrar agentes de inteligência artificial que funcionam de forma autónoma, analisam informação em tempo real e antecipam as intenções do utilizador com uma precisão inédita. A mudança chega numa altura em que o domínio da Google sobre a pesquisa na internet começa a ser desafiado por assistentes de IA como o ChatGPT e o Perplexity. Com o Google I/O 2026, a empresa californiana quer deixar claro que não tenciona perder terreno.

Uma nova caixa de pesquisa para uma nova era

Durante anos, a caixa de pesquisa da Google manteve-se praticamente inalterada: um campo de texto simples, branco, com um botão. Com o Google I/O 2026, isso muda. A nova interface expande-se dinamicamente consoante o que o utilizador começa a escrever, oferecendo sugestões que vão muito além do tradicional autocomplete. A inteligência artificial analisa o contexto da pesquisa, reconhece padrões e sugere formas mais completas e precisas de formular a questão.

A Google descreveu a mudança como a “reimaginação completa” do Search, um produto que processa mais de oito mil milhões de pesquisas por dia a nível mundial. Sundar Pichai, CEO da empresa, afirmou durante a keynote que a nova abordagem representa “o maior salto” da história do produto, superando inclusivamente as mudanças introduzidas com a chegada das pesquisas em dispositivos móveis. Além da nova caixa, a interface visual do Search foi redesenhada para dar mais destaque às respostas geradas por IA, com um modo chamado AI Mode que passa a ser a opção predefinida para todos os utilizadores a nível global.

Agentes autónomos que trabalham enquanto não está a pesquisar

A novidade mais disruptiva apresentada no Google I/O 2026 é, sem dúvida, a chegada dos Agentes de Informação ao Search. Ao contrário de uma pesquisa tradicional — em que o utilizador faz uma pergunta e recebe uma resposta —, estes agentes ficam activos em segundo plano, 24 horas por dia, monitorizando a internet de forma contínua em nome do utilizador.

Um utilizador pode, por exemplo, pedir ao agente que o avise sempre que surgir nova informação sobre um determinado medicamento, sobre os preços de voos para um destino específico, ou sobre desenvolvimentos legislativos num sector profissional. O agente analisa blogs, sites de notícias, redes sociais e dados em tempo real — como finanças, desporto e comércio online — e entrega um resumo quando há algo relevante a reportar.

Esta abordagem aproxima o Google Search de um assistente pessoal com acesso permanente à internet, em vez de um simples motor de busca reactivo. É uma mudança de paradigma que pode alterar profundamente a forma como as pessoas consomem informação online.

Gemini 3.5 Flash: a inteligência por detrás da nova pesquisa

A nova pesquisa da Google funciona com o Gemini 3.5 Flash, o modelo de inteligência artificial que a empresa também revelou no Google I/O 2026 e que passa a ser o modelo predefinido no AI Mode a nível global. Segundo a Google, o Gemini 3.5 Flash supera o seu antecessor, o Gemini 3.1 Pro, em benchmarks de programação e tarefas agênticas, com resultados como 76,2% no Terminal-Bench 2.1 e 83,6% no MCP Atlas.

O modelo foi concebido para combinar “inteligência de fronteira com capacidade de acção”, o que significa que não se limita a gerar texto — pode executar tarefas, navegar na web, escrever código e interagir com ferramentas externas. Esta capacidade agêntica é o que permite aos novos agentes do Search operar de forma autónoma sem necessitar de instruções contínuas por parte do utilizador.

A Google disponibilizou o Gemini 3.5 Flash através da sua plataforma Gemini API e do novo Google Antigravity 2.0, uma aplicação desktop que funciona como centro de controlo para múltiplos agentes de IA em simultâneo.

O que é gratuito e o que vai custar dinheiro

Nem tudo o que foi anunciado no Google I/O 2026 estará disponível de forma gratuita. A Google confirmou que a nova interface visual do Search — incluindo o AI Mode e a nova caixa de pesquisa — será lançada de forma gratuita durante o verão. No entanto, as funcionalidades mais avançadas, nomeadamente os Agentes de Informação e os mini-aplicativos criados directamente no Search, ficarão reservadas para subscritores dos planos Google AI Pro e Google AI Ultra.

Esta decisão representa uma mudança significativa na estratégia da empresa, que historicamente ofereceu a pesquisa como um serviço totalmente gratuito financiado pela publicidade. A introdução de um tier premium sugere que a Google está a apostar numa nova fonte de receitas — e que reconhece que as funcionalidades de IA mais avançadas têm custos de infraestrutura que o modelo publicitário tradicional pode não cobrir a longo prazo. Para os utilizadores em Portugal, isso significa que uma parte substancial da experiência continuará gratuita, mas quem quiser tirar partido dos agentes autónomos terá de avaliar se a subscrição faz sentido consoante as suas necessidades.

O que muda para utilizadores e criadores de conteúdo em Portugal

Em Portugal, onde o Google detém mais de 90% do mercado de pesquisa, estas mudanças têm implicações imediatas para milhões de utilizadores. A adopção do AI Mode como predefinição global significa que os portugueses vão começar a ver respostas geradas por inteligência artificial antes dos resultados orgânicos tradicionais — uma transição que já está a acontecer noutros mercados.

Para os criadores de conteúdo, jornalistas, bloggers e empresas com presença online, a questão é mais complexa. Se os agentes de IA passam a entregar respostas directas sem que o utilizador clique nos links, o tráfego proveniente da pesquisa orgânica pode diminuir. É uma preocupação já levantada por editores em vários países europeus, incluindo em Portugal, e que a Google ainda não respondeu de forma conclusiva. Em contrapartida, para quem souber adaptar-se — optimizando conteúdo para ser reconhecido e citado pelos agentes de IA —, pode abrir-se uma oportunidade de visibilidade num formato diferente do clique tradicional.

Uma pesquisa que deixou de ser passiva

O Google I/O 2026 marcou o fim de uma era. Depois de décadas a construir o motor de busca mais utilizado do mundo, a Google está agora a reconstruí-lo de raiz — não para melhorar o que já existe, mas para substituir a lógica subjacente. A pesquisa por palavras-chave dá lugar a uma conversa contínua com agentes de inteligência artificial. A resposta pontual cede espaço a um assistente que não precisa de ser acordado para trabalhar. Para os utilizadores em Portugal, as mudanças chegarão gradualmente ao longo dos próximos meses — primeiro as gratuitas, depois as pagas. Seja esta transição bem-vinda ou motivo de preocupação para o ecossistema digital português, uma coisa é certa: a forma como acedemos à informação na internet está a mudar, e mais depressa do que a maioria antecipava.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This