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John Rabe – Negociador

Não havia necessidade.

O cinema sempre foi dado a filmes deste tipo, há gente que julga, não sei bem porquê, que uma vida importante, um momento marcante na história da humanidade dará um grande filme, um épico, uma obra de vulto, quando geralmente dá é em pastelões intragáveis. Assim é com “John Rabe – Negociador”, co-produção alemã, francesa e chinesa, sobre o “Schindler dos chineses”. Mas Florian Gallenberger, realizador do filme, não é nenhum Steven Spielberg – e, apesar dos passos em falso, poucos o são – e o resultado fica muitos furos abaixo d’ “A Lista de Schindler”, com que será inevitavelmente comparado.

De boas intenções está o inferno dos maus filmes cheio, e “John Rabe” tem as melhores intenções, é um filme-denúncia das atrocidades cometidas pelos japoneses na conquista da cidade chinesa de Nanjing antes da Segunda Guerra Mundial, enquanto narra a história de um alemão que ajudou a salvar a vida de 200 mil chineses. E é importante que se fale disso, quanto mais não seja pelo facto do Japão ainda não ter reconhecido o massacre de 300 mil pessoas nessa altura, não havia necessidade era de fazer um filme – este filme – sobre isso.

As personagens são caricaturas – não no bom sentido, como nos “Sacanas sem lei” de Quentin Tarantino – que se deixam escravizar pela narrativa bafienta e estupidificante. Ele há o herói relutante – o alemão, membro do partido nazi, que no fundo é boa pessoa  -, a francesa idealista – que quer salvar toda a gente, mesmo que isso signifique que toda a gente tenha de morrer por isso -, o rebelde médico americano – que se opõe ao nosso protagonista, para criar tensão a martelo -, o japonês mau como as cobras, os chineses que deixam estar, compostinhos, enquanto estão a ser chacinados, e por aí em diante.   Ainda temos direito à história de amor entre uma chinesa do orfanato e um diplomata judeu alemão, para dar cor à coisa. Não há a mínima nuance, um vislumbre de complexidade.

De resto, num filme que retrata o massacre de 300 mil pessoas, é impressionante como lhe falta qualquer tipo de conflito. Quando quer criar situações de tensão (ou até mesmo no momento climático), a história recorre a tremendas estupidezes dos nossos heróis que, comportando-se de forma completamente egoísta, põem em perigo quem querem proteger. É um recurso entediante e enfurecedor, não se compreende como pessoas inteligentes, que as personagens presumivelmente são, fazem tanta coisa sem nexo, a não ser que estejam a ajudar a própria narrativa. (E nem me interessa que tudo isto tenha de facto acontecido – apesar de apostar que muito foi alterado: História é História, um filme é um filme.)

Todo o cinema é manipulação. Spielberg, na sua “Lista de Schindler”, é um manipulador, mas sabe o que faz. Aqui vêem-se bem os fios com que nos tentam puxar as emoções, sentem-se também, porque são grosseiros, e nos magoam a inteligência. É de um academismo bacoco, certinho, com todos os ingredientes, mas sem chama nem rasgo, sem ponta de cinema. Mais um bocadinho ainda se arriscava a ganhar um Óscar de Melhor Filme Estrangeiro (sem desprimor para o vencedor “O Segredo dos Seus Olhos”, que não é nada mau).

“John Rabe” é um mau filme? É um não-filme, daqueles que matam um bocadinho do nosso amor pelo cinema.



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