rdb_24cityreport_header

24 City

A cidade eterna.

“We that have done and thought,
That have thought and done,
Must ramble, and thin out
Like milk spilt on a stone.”

Spilt Milk, W.B. Yeats

Este poema aparece num dos intertítulos de “24 City” de Jia Zhang Ze – autor do muito conceituado “Still Life” – definindo-o mais eloquentemente do que eu o poderia alguma vez fazer. Mas como não encomendaram a escrita desta recensão ao poeta irlandês e sim a mim, lá terei de alinhavar algumas palavras sobre assunto, sabendo que nunca atingirei o seu patamar.

O primeiro elogio que faço ao filme é que sabe ilustrar o poema de tal forma, que a sua presença se torna supérflua. Estamos na China, na China que vai abandonando os dogmas comunistas – só fazendo deles uso quando necessita – e que se atira vorazmente a um capitalismo desenfreado. Temos uma fábrica de armamento em Chengdu, e uma fábrica de armamento é uma coisa obsoleta na China actual, um aborrecimento. Por isso, vai fechar para dar lugar a um condomínio de apartamentos moderno, mais condizente com a situação.

Este é o mote para Jia Zhang Ze brincar aos documentários  – ou não, por vezes é difícil discernir o que é real do que é ficção, mas não é sempre assim? Qualquer documentário é ficção, este é só mais descarado – num conjunto de entrevistas a pessoas cujas vidas estão fatalmente ligadas àquela fábrica. E é mesmo uma fatalidade: a fábrica outrora imperava sobre a cidade, ou antes rivalizava com ela, era autónoma, agora os seus “habitantes” têm de se fazer ao mundo. Ao mundo real.

Todos dos mais velhos aos mais novos – é esta a ordem do filme, como se fizéssemos a viagem ao contrário, da morte para a juventude – guardam memórias mais ou menos felizes do tempo que viveram na fábrica. Cedo se percebe o quanto ela lhes ordenou as vidas, lhes conformou as vidas, e para todos, os que já viveram a vida toda e os que ainda a hão-de viver, como ela os caracteriza, os define acima de todas as outras coisas. E no fim está a morte. Como diz o poema, todos os que pensaram e fizeram, fizeram e pensaram acabam da mesma maneira: como leite derramado numa pedra.

Há o homem que já não é novo que fala do seu mestre, ainda mais velho, que usava as ferramentas até se desgastarem por completo; há a mulher que já não é assim tão jovem que fala do tempo que visitou os avós à terra natal da mãe e como não percebeu a excitação de todos porque ainda era adolescente; há o gajo de quarenta anos que bebe cervejas e fuma cigarros a pensar na rapariga que o deixou porque a fábrica estava a perder relevância; há a mulher balzaquiana – A Florzinha – que diziam parecida com a actriz Joan Chen (interpretada pela actriz Joan Chen) que por força de ser tão bonita nunca encontrou o amor; há a rapariga de 26 anos que se vai esfalfar a trabalhar para nunca ser como os pais que trabalham na fábrica, para que eles possam de lá sair e ir morar para o complexo de apartamentos 24 City que irá substitui-la. Acabamos por ver a fábrica a ser demolida. Até ela tem um fim.

São vidas vividas, vidas perdidas, vidas por viver, vidas por perder, a fábrica, o pretexto, isto poderia ser em qualquer cidade, vila ou aldeia da China, do Japão, da Suécia ou Portugal. Jia Zhang Ze, por seu lado, explora as potencialidades do vídeo, não se preocupando em emular filme, o que é de louvar – a criação de uma nova linguagem cinematográfica ligada ao vídeo é um dos caminhos do cinema. Em suma, é um belo filme sobre a morte e o que vai acontecendo até ela aparecer: a vida.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This