“O Sono dos Culpados”, de Fábio Ventura
“Às vezes, a única maneira de iluminar o caminho é permitir que a escuridão nos guie primeiro.”
O que fazer quando todas as máscaras caem, e nos vemos confrontados com a escuridão dentro de nós?
Ora é precisamente esse o mote para O Sono dos Culpados (Suma de Letras, 2025). Um thriller psicológico brilhantemente escrito pela mão do escritor algarvio, Fábio Ventura, que aborda a escuridão que ameaça devorar-nos, e a luta interna entre os dois lados da moeda.
Fábio Ventura entrega-nos um novo enredo, onde novamente explora “o lado obscuro do ser humano”, o seu “lado mais “selvagem” e mais real”, livre de máscaras e rotinas.
Ao usar personagens “cinzentas”, e as suas respetivas “dores, traumas e desejos secretos”, força-nos a fazer o mesmo durante todo o processo de leitura.
Uma leitura propositadamente desconfortável, algo terapêutica, que manipula a 100% as nossas emoções, e nos leva a criar ligações (sejam elas ténues, ou intensas), entre nós e os personagens, apelando ao nosso lado mais empático, ao mesmo tempo que confronta o nosso lado mais sombrio.
Com uma mensagem audível, O Sono dos Culpados, tem muitas voltas e reviravoltas, o que nos leva a criar mil teorias. As mentiras, omissões, segredos e manipulações, são prato do dia; os personagens imperfeitos servem de espelho que reflete as nossas imperfeições, os nossos receios, os nossos pensamentos mais secretos… Ao longo de 320 páginas, a nossa mente é estimulada, e o nosso coração é dilacerado, pela profundidade e imensidão de emoções que nos vão atingindo no decorrer da história, mas, especialmente, rumo a um final poético e agridoce, trágico, mas com toques de esperança.

A premissa foca-se num filme de terror, um hotel que mais parece uma fortaleza, e gritos ensurdecedores e incapacitantes, que colocam todos a dormir, exceto um pequeno grupo, composto por um realizador, um guionista, uma influencer, uma técnica de som, dois irmãos gémeos figurantes do filme, e um desconhecido, que ficam presos no hotel. Os sete formam o grupo menos homogéneo possível. Com comportamentos e opiniões muito diversas, tomar decisões revela-se um desafio. Mas o tempo passa, os gritos enlouquecem-nos a cada dia que passa, e a insegurança mostra os seus dentes.
Como confiar em estranhos impregnados de segredos e trevas, quando somos igualmente tenebrosos?
O Sono dos Culpados, de Fábio Ventura, é muito mais do que um mero thriller psicológico, é uma ode à complexidade humana. É essa complexidade humana que se vê confrontada com o seu lado escondido, o seu lado mais negro. O livro apresenta-nos uma luta constante que visa manter o equilíbrio de ambos os lados, aquando de uma situação catastrófica, caótica, plena de dúvidas, anseios, receios e terrores (reais e psicológicos). Uma luta dura e crua pela sobrevivência do corpo e da alma.
Como nos podemos libertar da escuridão, quando pessoas más nos apodrecem com a sua?
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