“Coisas Ruins” de João Zamith
Prenúncio de várias mortes anunciadas
Coisas Ruins, de João Zamith (Suma de Letras, 2025), vem dar um impulso ao tão necessário investimento em bons livros de terror em Portugal, ainda por mais, em tom nacional.
Neste seu livro de estreia, o autor escolheu um género pouco traduzido em Portugal, embutindo-o de detalhes de mística religiosa aliados a folk horror, usando para tal, criaturas do folclore nacional, de onde destaco as caras brancas, que muito têm fascinado os leitores do livro.
Mas não são só estas criaturas que assustam durante a história, alguns humanos assustam mais.
A podridão presente na ilustre e bem-amada família Viaforte, uma família disfuncional, postiça, estranha, repleta de pressões e exigências, onde se preza mais a conservação do bom nome em vez dos afetos e empatia, é mais sombria que qualquer entidade sobrenatural, e pior que o próprio diabo.

Focado no Norte de Portugal, com especial ênfase em Guimarães (terra do autor), entrega vários regionalismos típicos da área.
De enredo coerente, apelativo e contagiante, uma escrita fluída, algo floreada, sem papas na língua, com tons cómicos para contrastar com a atmosfera sombria, Zamith apresenta-nos uma história trágica, cruel, e sobrenatural, onde todas as ilusões são desfeitas, onde o falso sentimento de se ter escolhas se esfuma no ar, confrontado com algo bem mais tenebroso, com a interferência de forças mais fortes a manipular todo o processo.
Com um enredo dividido em cenas, a ação oscila entre momentos do presente e passado, conferindo uma sensação tensa, mas não demasiado assustadora, e preenchendo lacunas que nos auxiliam a resolver o puzzle, rumo a um final expectável e satisfatório, tendo em conta os eventos que transparecem ao longo da história.
Coisas Ruins, de João Zamith, é um farol de luz num meio carente de terror literário de qualidade, onde todos os intervenientes têm o seu quê de mácula, envoltos numa teia de segredos, mentiras, traições e omissões, num ambiente obscuro e algo sobrenatural. Um must-read para os apaixonados do género.
Sentia o frio e a quietude do susto. Sabia muito bem que tipo de acordes menores estariam a tocar para o público na sala de cinema se vivesse num filme. Tensão, tensão, tensão.
O autor vimaranense, João Zamith, é escritor profissional e trabalha com o marketing digital, detentor de um mestrado em Literatura Portuguesa Contemporânea da Universidade do Porto, passou por uma breve carreira académica em Coimbra ligada aos romancistas contemporâneos, e conta com três anos de experiência no meio editorial.
Coisas Ruins, é o seu livro de estreia.
Podem encontrar o autor na Feira do Livro de Lisboa 2025, na área do Grupo Editorial Penguin Random House, nos seguintes dias:
- 13 de Junho às 17h, para o Lançamento do Livro, na Praça Laranja
- 14 de Junho às 15h para a Sessão de Autógrafos, e às 18h para a conversa Sabores Típicos – Usos excêntricos do português, com o autor e Alex Couto, moderada por Ana Bárbara Pedrosa
- 19 de Junho às 18h15, para a conversa E se? Os mundos da ficção especulativa, com o autor, Fábio Ventura, Filipa Fonseca Silva e Mafalda Santos, moderada por Diana Garrido
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