2000

“1793 – O Lobo e o Guarda” de Niklas Nat Och Dag

Primavera de destroços

O final do século XVIII marcou um dos períodos mais conturbados da história da Suécia, muito por culpa dos ecos da Revolução Francesa que colocou em alvoroço as casas reais do continente europeu. A paranóia reinava e Gustavo III da Suécia torna-se numa das vítimas deste clima de desconfiança, e nem os seus espiões e homens e aliados o conseguiriam salvar.

O país está a saque e o povo luta contra a miséria, batalhando nas ruas escuras, sujas, frias e nauseabundas por um qualquer presente ameaçado pela crueldade, morte, doença, escravidão, corrupção e injustiça. 

É nesse cenário dantesco que se cruzam Mickel Cardell, ex-soldado, um vigilante desiludido e aleijado que encontra o corpo de um homem no fétido lago Larder, barbaramente torturado, massacrado, e Cecil Winge, um advogado racional e incorruptível, conhecido como o “lobo”, assombrado pela perda que o cerca e investigador e consultor da Polícia de Estocolmo.  


Quis o destino que Cardell e Winge unam forças em torno de um objetivo comum: a identificação de um homem morto. Mas, além da dificuldade da própria investigação, o duo vai ter de lidar contra as elites poderosas e ricas de Estocolmo, nomeadamente os Eumenides, uma seita conhecida pela depravação sexual e delinquência, e cujos membros todo farão para dificultar o trabalho da referida dupla.

Paralelamente, Kristofer Blix, um ambicioso jovem com desejos de se tornar cirurgião, chega a Estocolmo. Ao encontrar a cidade no marasmo, procura refúgio nas cartas que escreve à irmã, reportando a selvajaria e horrores que testemunha. Também vitima de toda esta conjuntura está Anna Stina, uma mulher injustamente acusada de ser prostituta e acaba por terminar na casa de um homem verdadeiramente sádico. Depois de uma série de peripécias, as histórias de Blix e Anna-Stina cruzam-se e conectam-se ao caso investigado por Cardell e Winge.

Estão assim lançados os dados para 1793 (Suma de Letras, 2019), romance de estreia do sueco Niklas Natt och Dag e um livro que sublinha uma realidade assustadora, e que navega entre o suspense, thriller, horror e laivos de literatura pura e realista, que já lhe valeu arrecadar vários prémios literários na Suécia, Reino Unido, Noruega e Rússia.  

E ainda que não seja um livro fácil, pois, muitas vezes, segue coordenadas assumidamente desumanas, à beira da náusea, de pessoas e atos de desvarios, estamos perante uma obra cativante e atmosférica, rica em descrições de uma Estocolmo diferente, doente, mas que tenta procurar a redenção através das relações entre personagens. Exemplo disso é o envolvimento entre os protagonistas que, no fundo, representam uma humanidade e esperança que conseguem brilhar mais alto que a escuridão reinante.



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