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“Violência e Islão” de Adonis

Do terror à luz

Foi recentemente apontado à vitória ao Prémio Nobel da Literatura e através de várias obras e análises deu a conhecer ao mundo uma atitude muito crítica face às «falsas interpretações e leituras do Corão», refletindo sobre os conceitos de identidade, religião, progresso e humanidade, alguns dos principais alicerces do processo de conhecimento do Islão e, por conseguinte, da conjuntura do mundo árabe.

Falamos do poeta sírio Adonis, pseudónimo de Ali Ahmad Saïd Esber, uma das vozes mais marcantes da atualidade face à constante ebulição política arábica. Exilado no Líbano desde a década de 1950, trabalhou na revista Shi’r, uma das mais influentes publicações literárias do mundo árabe, e fundou a igualmente prestigiada, Mawaqif.

“Violência e Islão” (Porto Editora, 2016) não é nada mais nada menos que um seguimento lógico desse caminho, mas também da «esperança num renascimento, na morte deste Islão-terror para dar lugar a um Islão-luz», e este fundamental e corajoso livro brotou na ressaca de uma sucessão de conversas entre Adonis e Houria Abdelouahed, professora na Universidade Paris Diderot, psicanalista e tradutora da obra de Adonis para a língua francesa.

Com um assinalável sentido crítico, onde nada é deixado ao acaso, Adonis e Abdelouahed falam-nos de um Islão como resultado de um ideal religioso e político mas que procura, a todo o custo, impor-se através da conquista e do controlo, algo que vai contra a ética individual apregoada no referido livro sagrado e que, nas suas palavras, castram a individualidade e criatividade.

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Em algumas passagens, por exemplo, é feito a alusão ao Corão e à Hadith (conjunto de leis, lendas e histórias sobre a vida do profeta Maomé) para questionar as atitudes repressivas face ao universo feminino, declarando que essa mesma “filosofia” acabou por matar a própria subjetividade da existência. É essa perda também o motivo que leva as duas vozes de “Violência e Islão” a apelar à tolerância e refutando simultaneamente a ideia errónea de que todos os muçulmanos são hereges ou traidores apelando à elevação da cultura árabe, de forma evidente e definitivamente pacífica. Apela-se, portanto, o fim «do extremismo islâmico, no seu discurso e na sua ação», uma «bandeira em permanente agonia, que mantém os seus fiéis na escuridão e incute na sociedade árabe uma conduta de violência, analfabetismo, misoginia e ignorância. Um obscurantismo e uma barbárie que duram há quinze séculos e que hoje se fazem sentir um pouco por todo o mundo, de Palmyra a Paris.»

Traça-se ainda uma visão sobre as atuais tensões no território mas também se recua à génese do próprio Islão. Desde a morte do profeta Maomé, a “sua” religião tem sido usada como uma arma política e económica que tem explorado e reforçado as divisões locais, e tribais, com o único objetivo do poder.

Essa realidade leva Adonis a refletir sobre os eventos recentes no Médio Oriente, desde os insucessos da “Primavera Árabe” até à ascensão do Daesh, passando pela guerra na Síria, «dos quais o Ocidente não pode ser ilibado de culpas», e pelos ecos destruidores que se têm alastrado ao mundo e que negam qualquer possibilidade de uma crescente noção de pluralidade face a uma violência omnipresente. Consciente, Adonis apela a um espírito “inquisidor”, que resgate liberdades e faça evoluir as normais culturais e sociais.

O objetivo é, simultaneamente, «o combate ao silêncio e à hipocrisia que se instalaram tanto no Médio Oriente quanto no Ocidente» abrindo alas para a «necessidade urgente de uma releitura e debate livres no seio da sociedade árabe, um novo tempo que do passado apenas invoque a luta pelo direito à diversidade e que condene o confronto. Uma era de reconciliação».

A abrilhantar o livro está o estilo marcadamente poético, claro está, do seu discurso que aliado a uma abordagem mais psicanalítica tornam a leitura fluida, interessante e que tem como “bónus” o conhecimento da própria cultura árabe por via da referência a alguns dos seus mestres poetas.



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